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Sé de Angra | 14 de junho de 2026

Ordenação Presbiteral: “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10,8)

  1. Senhor Jesus, Bom Pastor e eterno Sacerdote, obrigado porque continuais a caminhar no meio de nós e a chamar jovens que têm a coragem de Vos entregar a vida. Obrigado pelo dom de todas as vocações e em particular as sacerdotais, sinal de que não abandonais a vossa Igreja e continuais a cuidar do vosso rebanho com amor e ternura. Obrigado, também pelos sacerdotes jubilados, pela sua fidelidade silenciosa, pelas lágrimas escondidas, pelos sacramentos celebrados, pelas vidas tocadas pela sua dedicação. Amen

De coração agradecido, saúdo-vos a todos. Dirijo uma saudação especial ao Diácono Fábio, à sua família e todas as famílias, onde nascem as vocações. Ao falar de vocações precisamos de começar pelas famílias, onde com os genes, se transmitem os valores e o amor a Deus. Precisamos muito de famílias com vocação para suscitarem no seu seio um ambiente de oração e fé que permita a Deus entrar e chamar. De maneira especial quero saudar o Sr. Reitor do Seminário e todos os formadores, os atuais e os do passado, onde se inclui atualmente uma família. O Fábio é o último seminarista a fazer a sua formação toda neste Seminário. Do Porto, já virão, daqui a um ano, os primeiros dois que continuarão a sua preparação pastoral entre nós. Este ano, irão mais três jovens estudar no Porto. O Seminário não acabou, apenas tem vida mais exigente: acompanha os candidatos, antes, durante e depois dos estudos; continua a fazer a formação dos diáconos e a formação permanente do clero; orienta o final do curso de teologia, aqui. É a nossa grande Instituição formativa: durante o ano, realizaram-se encontros diversos como nunca e, em setembro, iniciará a Escola Diocesana para leigos onde já estão inscritos cerca de 120 candidatos que farão 3 anos de estudos, algumas horas durante a semana. A formação laical é um grande desafio que o Espírito Santo está a propor à nossa Igreja dos Açores. Dali nascerão certamente muitos candidatos a ministérios laicais, mas também possíveis religiosos, diáconos e até presbíteros. Agradeço a todos os protagonistas desta transformação e peço que rezeis para que inicie bem e cumpra a sua missão.

«Vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa» ouvíamos na primeira leitura. No Batismo, fomos ungidos com o Óleo do Crisma, como diz o Ritual, “para que, reunidos ao seu povo, permaneçais, eternamente, membros de Cristo sacerdote, profeta e rei”. Isto diz-nos que, antes de haver ministérios, há um povo amado e antes da missão individual há uma pertença comunitária onde o cristão de faz. Por isso, a ordenação sacerdotal, como qualquer outra vocação a seguir Jesus, não é uma promoção nem uma conquista. É uma resposta ao amor a Deus que a todos dá o Seu Espírito e adequados carismas.

A palavra escutada convida-nos, assim, a olhar para além do sacerdote e fixar o olhar em Deus, que, sempre fiel, continua a chamar homens e mulheres para o serviço da Igreja. Uma vocação não começa quando alguém decide ser padre, casado ou religioso. Começa muito antes, começa no coração de Deus, que fala ao coração do discípulo: «Vem e segue-me. Quero precisar de ti para chegar aos mais necessitados de libertação.» Isto mesmo relata Mateus no Evangelho de hoje. Vendo que a multidão andava como ovelha sem pastor, “Jesus chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades.” Jesus concede o seu próprio «poder», partilha a sua força de vida para afastar o mal. Jesus chama não para reter para si, mas para os capacitar e enviar, para que o seu olhar de compaixão se possa expandir e chegar àqueles que se sentem «ovelhas perdidas».

  1. Ser Presbítero não é uma função ou tarefa. Um padre pode fazer muitas coisas, mas a sua verdadeira fecundidade nasce da sua união com Cristo. Não é a atividade que salva o sacerdote; é a intimidade com o Senhor. Não é o muito fazer, mas o muito amar a Deus e aos irmãos. Diz o Papa Leão: “Quanto mais profundo for o vosso vínculo com Cristo, tanto mais radical será a vossa pertença à humanidade comum.

Caros irmãos, o sacerdote é, antes de tudo, um homem apaixonado por Cristo. Antes da missão, da organização pastoral, da administração ou das obras, está a amizade com Ele. Leão XIV dizia na ordenação de novos sacerdotes: «Aprofundai a vossa proximidade com Jesus.” De facto, o sacerdote não vive de técnicas nem de estratégias. Vive da relação com Aquele que o chamou.

  1. O sacerdócio é um ministério de comunhão. O sacerdote existe para reunir. Para reconciliar. Para aproximar. Para construir pontes. Nunca para dividir. Nunca para criar grupos fechados. Nunca para se colocar acima do povo. Quanto mais profunda for a ligação a Cristo, mais radical será a pertença à humanidade.

Caro Fábio, caros padres, nunca deixeis que a oração se torne acessória, nem que a Eucaristia se transforme em rotina. O sacerdote vive daquilo que celebra e torna-se aquilo que contempla. O mundo precisa de padres com um coração reconciliado, manso, disponível, capaz de escutar, de acolher, de amar quem sofre e quem se alegra. O amor verdadeiro não admite meias medidas. Não se pode dar metade do coração.

  1. Há gestos de Jesus que ficarão para memória eterna e somos convidados a repetir: a Última Ceia, com o lava-pés e Instituição da Eucaristia e o Calvário. Eles resumem o que somos chamados a fazer, a viver e a anunciar. Mas a Liturgia da Ordenação traz-nos um dos gestos mais impressionantes de toda a liturgia da Igreja: o Diácono Fábio vai-se prostrar por terra durante a Ladainha dos Santos. Ali está simbolicamente uma vida inteira colocada nas mãos de Deus. Como quem diz: “Senhor, já não quero ser dono de mim mesmo.” “Recebe os meus sonhos, os meus talentos, as minhas fragilidades, os meus limites.” “Faz de mim aquilo que Tu quiseres”. Ali, voltamos a estar nós todos. Revivo também eu o que já fiz. Continuo a pedir a misericórdia de Jesus e a assistência do Espírito Santo para me manter sempre a humildade expressa nesse gesto para deixar que seja Cristo em mim a ser o Pastor que Ele quer.

É um gesto de morte e de ressurreição. Morre a pretensão de viver apenas para nós mesmos. Nasce a disponibilidade para viver para Deus e para o seu povo. São Paulo ajuda-nos hoje a compreender a medida deste amor. «Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores.» Deus não nos ama porque somos dignos. Ama-nos porque somos seus filhos. Não esperou que a nossa humanidade fosse perfeita. Ele mesmo, em Jesus, desceu ao encontro da nossa fragilidade e entrou nas nossas feridas, carregou os nossos pecados.

PROMETES? Vamos ouvir as respostas do Fábio já de seguida. São perguntas que pesam. São provocantes num tempo de perigosas aparências, de fácil maquilhagem de personalidade, de dualismos e polarizações. Rezemos pela frescura deste Sim que nos toca a todos. Por isso, Fábio, não tenhas medo de gastar a tua vida. E vós, queridos sacerdotes jubilados, sois a prova viva de que vale a pena. Os anos ensinaram-nos que a fecundidade do ministério não se mede pelos resultados visíveis, mas pela fidelidade quotidiana. Deus não vos pediu sucesso; pediu amor. Lembrava o Papa: “Permanecei diante do Coração trespassado de Cristo. Deixai-vos amar por Ele. Aprendei d’Ele a proximidade, a ternura e a compaixão”.

  1. Ser padre para quê? Responde a Palavra escutada: “recebestes de graça, dá de graça”. Tudo é graça. A vocação é graça. A fé é graça. A Igreja é graça. O ministério é graça. Nada foi conquistado. Tudo foi recebido. E precisamente porque tudo foi recebido, tudo deve ser oferecido.

Dêem-nos algo em que acreditar” escrevia um articulista, dirigindo-se à Igreja e lembrando que o mundo não quer chavões ou frases feitas, precisa de profecia nas palavras nascidas do Evangelho já vivido por quem dele fala, e testemunho pessoal que leve a acreditar. O mundo que nos rodeia anseia por Evangelho vivo, anseia por Cristo. Não podemos parar a amar quem nos ama, quem nos rodeia na paróquia. Aí não custa evangelizar porque parecem não precisar de conversão. Mas a fé implica olhar os desprezados do mundo com o olhar de Cristo, correr onde há pobreza, tristeza, aflição, Isto exige conversão, mas convence o mundo.

Caro Fábio, daqui a pouco a Igreja confiar-te-á um tesouro imenso. Mas nunca te esqueças: antes de seres padre, és discípulo. Antes de seres enviado, és amado. Antes de falares de Cristo, és chamado a viver em Cristo. Ama o povo que te será confiado. Ama os pobres. Ama os doentes. Ama os jovens. Ama os idosos. Ama aqueles que te compreenderão e aqueles que talvez nunca te compreendam. Ama os outros Presbíteros. Ama a Igreja. Ama a tua oração. Ama a Eucaristia. E quando vierem as horas difíceis — porque virão — recorda sempre o dia de hoje. Recorda o altar diante do qual te entregaste. Recorda o povo que rezou por ti. Recorda o olhar de Cristo que te ama e chamou. E volta sempre à fonte. Porque Aquele que te chamou será sempre mais fiel do que as tuas fragilidades.

Senhor, que nunca faltem à vossa Igreja pastores santos, fiéis e generosos, que caminhem com o vosso povo pelos trilhos do Evangelho. Maria, Mãe dos Sacerdotes, guarda todos os presbíteros sob o teu manto materno e ensina-os a dizer cada dia, com a mesma confiança: “Recebi de graça, quero dar de graça.”

+ Armando, Bispo de Angra