«Que formosos são (…) os pés do mensageiro que anuncia a paz» (Is. 52, 7)

Com o primeiro dia de cada ano soltam-se expressões de alegria e de votos de um ano que seja feliz e próspero.

A acompanhar estes nobres sentimentos, a Igreja convida os cristãos e todos os homens de boa vontade à reflexão sobre a paz.

Ninguém duvida que é um dos maiores anseios de cada pessoa, de cada família, de cada país e mesmo uma das aspirações do mundo em geral, porque, também é verdade, que a par com o progresso científico e técnico, contando com a possibilidade de maior proximidade e diálogo entre culturas, com as possibilidades de contacto que a globalização nos possibilita, animados pelas novas redes de comunicação e informação, a paz parece estar ainda muito longe de se alcançar.

Importa reconhecer aquilo que o Papa Francisco nos diz, citando o Papa Bento XVI, e repetiu-o na última encíclica «Todos Irmãos», o progresso tornou-nos mais vizinhos mas não mais irmãos (cf.. FT, 12).

Na verdade, os fundamentos apresentados pelo Papa Francisco na referida Encíclica são cruciais para a edificação da paz no mundo. Segundo ele, a exigência prioritária está na promoção de uma sociedade de amizade na qual todos se sintam irmãos uns dos outros.

Só deste modo, cada pessoa, cada família, cada país e os seus governantes, os diversos líderes mundiais poderão edificar uma sociedade onde reine a justiça, a autêntica fraternidade, a igualdade de todos, a partilha de recursos e a eliminação da pobreza e da exclusão. Numa palavra, é possível a construção da Paz.

No pensamento Bíblico que informa a nossa cultura ocidental a paz é um dom e uma tarefa. É antes mais uma oferta de Deus à humanidade que tem o seu auge na encarnação de Jesus de Nazaré apresentado, desde o Seu nascimento como Príncipe da Paz.

Mas, a construção da paz, é igualmente uma tarefa continua e exigente. Ela depende de variados fatores e está associada à promoção do amor, da partilha, da misericórdia e da ternura, da prioridade dada ao outro, atendendo à justiça, ao bem comum, mas sobretudo à preferência pelos mais pobres e excluídos.

Enquanto houver injustiças, fome e escravidão, pobreza e egoísmos, falta de condições de trabalho digno e de habitação, de acesso à educação, domínio despótico de uns contra os outros, a exploração abusiva da natureza, estará em causa a verdadeira paz.

É oportuno lembrar que Jesus de Nazaré, na proclamação das Bem aventuranças com as quais quis ditar a orientação segura para os seus discípulos, afirma que são bem aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus.

Lembra-nos o Papa Francisco que «muitas vezes, os últimos da sociedade foram ofendidos com generalizações injustas» (FT, 234). Aliás, «se às vezes os mais pobres e os descartados reagem com atitudes que parecem antissociais, é importante compreender que, em muitos casos, tais reações têm a ver com uma história de desprezo e falta de inclusão social» (FT, 234).

Por isso, «aqueles que pretendem pacificar uma sociedade não devem esquecer que a desigualdade e a falta de desenvolvimento humano integral impedem que se gere a paz» (FT, 235).

Ao referir-se ao desenvolvimento humano integral, o Papa Francisco toca num dos aspetos mais fundamentais na construção da paz. Na verdade o ser humano pessoalmente e a sociedade no seu todo não podem ser vistos parcialmente e serem atendidos apenas em algumas das características deixando outras componentes do seu ser fora do verdadeiro desenvolvimento.

No contexto do progresso atual, a negligência de uma desenvolvimento humano integral torna-se, sem dúvida, o maior dos obstáculos para edificação da paz.

Acresce ainda que estamos a iniciar o novo ano sob o flagelo da pandemia do Covid/19. Qualquer flagelo pelas consequências que transporta é de si uma ameaça à paz pessoal e comunitária, mas é também uma oportunidade para um novo começo que será mais humano e promotor da paz se assentar na fraternidade entre as pessoas e entre os povos, se não houver a tentação de alguns grupos se quererem impor a apropriar dos bens que são destinados a todos.

Eis um convite que se lança a partir das comunidades cristãs para que saibam discernir os Sinais dos Tempos para profeticamente responderem também a esta situação pandémica.

O Papa Francisco, na Mensagem deste ano para o Dia Mundial da Paz, sob o lema «a cultura do cuidado como percurso de paz», convidando a um rumo verdadeiramente humano, diz num dado passo que «este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doença, da escravidão, da discriminação e dos conflitos»(nº 7).

Mas a cultura do cuidado exige uma educação que conduza a este objetivo. Neste sentido o Papa convoca as famílias, as escolas e universidades, as religiões, as pessoas empenhadas no serviço das populações e a todos os que se dedicam à pesquisa científica e técnica para que «se possa chegar à meta duma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão» (nº 8).

Na verdade, como sublinha o Santo Padre, «a cultura do cuidado, enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposição a interessar-se, a prestar atenção, disposição à compaixão, à reconciliação e à cura, ao respeito mútuo e ao acolhimento recíproco, constitui uma via privilegiada para a construção da paz» (nº 9).

Neste começo de ano, iluminados pela luz que nos vem do presépio e sob a proteção de Maria Mãe de Deus, Mãe e Rainha dos Açores, apresento os meus votos de feliz e próspero ano novo exortando a uma esperança sempre renovada.

 

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores