DA QUARESMA À PÁSCOA: PARA QUE RESSUSCITE O HOMEM NOVO!

A quadra litúrgica Quaresma/Páscoa está cheia de manifestações de fé e piedade, enraizadas na história cristã, na vida das famílias, movimentos e paróquias. Dizem bem quem fomos e somos como cristãos. Durante esta caminhada de especial atenção à espiritualidade, e que vai desde o dia de Quarta Feira de Cinzas até ao Pentecostes, há duas etapas que se complementam: a Quaresma de 40 dias, mais focada em nos “despirmos do homem velho que se corrompe por desejos enganosos (Ef. 4, 22-24), e nos revestirmos do homem novo (Jesus Cristo), pois fomos criados para sermos semelhantes a Deus no amor, na justiça e na santidade; depois serão 50 dias de tempo Pascal até ao Pentecostes, entre nós sobretudo com as Festas em honra do Divino Espírito Santo.

“Cristão, que dizes de ti mesmo?”, questiona o nosso Projeto de Pastoral para este ano. Vão refleti-lo e dizê-lo os romeiros, os caminheiros ou caminhantes nas suas  peregrinações penitenciais; vão dizê-lo os cristãos na oração e celebrações penitenciais de Quaresma, nas vias-sacras, nas confissões, na Eucaristia, nos momentos de oração comunitária, nas esmolas, na atenção aos pobres; vão dizê-lo as diversas Irmandades do Espírito Santo, famílias e pessoas que vão ser coroadas, sinal visível de que aceitam fazer parte do “reino” pregado por Jesus Cristo e selado com a Sua promessa de que enviaria o Espírito Santo. Uma quadra que a Igreja propõe que seja uma “peregrinação” e não um conjunto de eventos isolados e inconsequentes. A Quaresma existe para que a Páscoa seja a vitória do Homem Novo em cada batizado.

Todos fomos batizados na morte e ressurreição de Cristo (Rom 6, 3-11): o “velho homem” foi sepultado com Ele, foi libertado do seu pecado para viver a nova vida de Jesus. Com Ele ressuscitaremos, nós também, já agora, em cada momento, porque “passamos da morte à vida se amarmos o irmão” (1 Jo 3, 14). Reavivar a vida nova nascida do Batismo passa por mergulhar de novo nas águas frescas da misericórdia, da compaixão, do perdão e do amor fraterno.

Se alguém nos perguntar: “como estás tu, como cristão”, que responderemos? Provavelmente a essa pergunta pode ser instintivo responder: “bem, obrigado!”. Contudo as nossas dificuldades e dúvidas não desaparecem quando dizemos um sim de conveniência para não continuar conversas incómodas sobre o nosso estado de alma. Diante das pessoas, como diante de Deus. A Quaresma é essa proposta sábia para que todos possam escutar melhor a voz de Deus que responde às nossas ânsias mais profundas.

Gosto de imaginar Jesus a encontrar-se com o jovem de que fala o Evangelho (Mc 10), a fixá-lo nos olhos e a possibilitar que ele se reencontre e decida o caminho em liberdade.

Aproveitemos este tempo bom para encontros transformadores com Cristo e com os irmãos, tempo para, com humildade, acrescentarmos a conjugação “porém” à pergunta que também Jesus nos dirige ao coração: “como estás?”. A resposta pode assim ser: “Estou bem! Porém…”.

Talvez Ele comece por nos convidar a olhar os tradicionais pontos da espiritualidade quaresmal e a dar-lhes um sentido mais profundo. No Evangelho de Mateus há uma série de antíteses construídas com a mesma estrutura e em que Jesus diz: “ouvistes o que foi dito… eu porém digo-vos…” (Mt 5, 17-37).  É Jesus a dizer que não vem abolir a lei, não nos quer ver a trocar de mandamentos, mas convida a viver plenamente em espírito e verdade as sábias práticas Quaresmais. Basta deixar-se guiar pelo Espírito Santo.

Proponho que, pessoalmente, em família, em grupos paroquiais ou em movimentos se faça uma reflexão sobre como concretizar algumas dessas práticas. Deixo algumas pistas baseadas na frase de Jesus: “ouvistes o que foi dito… eu porém digo-vos…” (Mt 5, 17-37).

  1. Convidados a corrigir hábitos. “Os antigos diziam: faz penitência; eu, porém, digo: deixa-te tocar por Jesus.”

A verdadeira penitência quaresmal é abertura ao toque de Jesus que cura o nosso pecado, sara vícios, aponta o caminho do amor, tal como Jesus fez ao tocar o leproso, um homem excluído de que fala o Evangelho e que gritava: «Se quiseres, podes curar-me» (Mc 1,40-45). Jesus não ficou indiferente: estendeu a mão, tocou-o e respondeu: “Quero. Fica limpo”. Faz o mesmo na Confissão, na Eucaristia, na leitura ou escuta da Palavra. A verdadeira penitência começa quando deixamos de nos esconder e permitimos que o Senhor nos olhe com misericórdia. Pode passar por silenciar o ruído interior que nos impede de escutar a voz de Deus e a voz dos irmãos que nos rodeiam e que pedem menos discussões e reclamações, mas mais escuta; menos dispersão, correrias, festas, mas mais presença na família e fidelidade nas obrigações diárias; menos maledicência, calúnias, ofensas ou violência, mas mais palavras compreensivas, de perdão e de amor.

Na quaresma exercitam-se atitudes exteriores que sejam fruto de uma conversão interior. Jesus convida a olhar para as causas e não tanto para os efeitos, a descobrir que o mal, antes de ser cometido, está agachado à porta do nosso coração e é preciso «dominá-lo, domesticá-lo» ali, para que a fonte volte a ser pura, límpida e não mais turva.

  1. Convidados à oração mais sincera e cuidada. “Os antigos diziam: reza; eu, porém, digo”: fala com o Pai como um amigo e convida os teus familiares a fazer o mesmo.

A oração não é apenas recitar fórmulas para cumprir deveres, mas respirar no ritmo do amor de Deus que habita em nós. Rezar é sentar-se com Ele, como quem descansa o coração. Experimentemos rezar menos com os lábios e mais com o coração, menos para pedir e mais para agradecer.  Nesta Quaresma, podem-se procurar momentos de silêncio orante, talvez diante da cruz, da Bíblia, de uma vela acesa que nos lembra o batismo, participando na Eucaristia dominical, numa Via Sacra, etc. Deus espera-nos sempre. Sem oração a alma não respira, o coração não se dilata e as mãos não se abrem em ajuda.

  1. Convidados ao jejum. “Os antigos diziam: jejua; eu, porém, digo: aprende a ter fome de vida com sentido”.

O jejum continua uma prática importante. Não é apenas dieta, é libertação interior com visibilidade exterior. Cada sexta-feira de Quaresma continua a ser um dia especial de jejum. Jejuar do supérfluo, dos exageros na comida ou bebida, no fumo ou outras drogas, nos ambientes que proporcionam pecado e desumanização, para assim reencontrar e optar pelo essencial e centrar a vida em Jesus. Podemos jejuar das palavras que ferem, das redes sociais que dispersam e alimentam mais ódios e divisão que concórdia, do consumismo que anestesia o coração. Podemos jejuar proclamando o respeito, essa atitude que hoje parece ter desaparecido nas nossas relações e na nossa sociedade. O respeito pode ser uma chave para caminhar com todos: Jesus ensina-nos a ter respeito radical pelos outros, deixando a cada um o seu espaço vital, sem ter julgamentos mortíferos e «rotulagens» em relação ao irmão, sabendo dar o primeiro passo para buscar caminhos de paz e reconciliação com todo e qualquer irmão, sem o reduzir a uma coisa, a uma mercadoria, objeto de cobiça ou desejo de posse. Jejuar é desistir de resolver assuntos sérios através das “redes” onde se mistura verdade com mentira, juízos com condenações e de onde ninguém sai “homem novo”, mas “mais homem velho”! Jejuar é alimentar um diálogo no amor e na verdade que tudo ilumina e esclarece se deixarmos o Espírito Santo entrar nesse diálogo. Jejuar é escolher o vazio que permite a Deus ser tudo em nós.

  1. Convidados a dar esmola, a partilhar com os mais pobres. “Os antigos diziam: dá esmola; eu, porém, digo: torna-te presença que levanta o pobre.

A esmola é muito mais do que dar coisas – é dar-se, como Jesus fez. Nesta Quaresma, talvez o Senhor nos peça dinheiro, alguma partilha para ajudar quem mais precisa através da Renúncia quaresmal, mas também tempo e atenção; não apenas bens, mas proximidade, presença curadora junto de quem vive nas margens, de quem passa pela solidão e dor. Uma grande esmola será tornar presente, através da nossa palavra e gestos, o toque de Cristo no irmão só, triste ou esquecido. “Dar ao pobre é emprestar a Deus”, diz o ditado popular ou, como diria hoje Jesus: “eu tinha fome e deste-me de comer, tinha sede e deste-me de beber, eu fiquei sem casa e bens nas tempestades e tu ajudaste-me, eu não tenho família e amigos e tu visitaste-me”…

 

Renúncia quaresmal

Dada a calamidade que se abateu sobre algumas regiões do país, foi decidido que a Renúncia Quaresmal deste ano seja enviada para a Cáritas e Diocese de Leiria. Pela urgência que se vive, a nossa Diocese já adiantou 40.000 € por conta da Renúncia.

A onda de solidariedade que se criou em Portugal, após as sucessivas tempestades, é, na verdade, uma clara afirmação do que de melhor nós temos: uma capacidade de compaixão que se exprime em partilha de bens. Todos sofrem quando um irmão sofre. Oxalá seja esta uma marca da nossa Quaresma que prepara a Páscoa. Tudo o que se recolher a mais será enviado no final. Apelo à generosidade.

Boa preparação para o canto glorioso do Aleluia na Páscoa de 2026.

 

+ Armando Esteves, bispo de Angra