Sé Catedral. Angra.

A palavra de Deus coloca perante nós o contraste entre o mundo e o Evangelho, entre a cultura dominante o testemunho de Jesus Cristo do qual o discípulo é portador.

 

Neste dia em que damos graças a Deus pela vida sacerdotal de vários presbíteros da nossa diocese, que neste ano celebram as suas festas jubilares de ordenação, este contexto socio-cultural e este apelo que nos é dirigido por Jesus de Nazaré marcam o nosso ser e o nosso agir de pastores à imagem do bom pastor.

Começa Jeremias, tal como nos narra a primeira leitura, oferecendo-nos uma meditação na qual sublinha as intenções da multidão que querem afastar o profeta porque as suas palavras são incómodas, mas também a persistência e a força de que se reveste aquele que é enviado por Deus ao meio do mundo.

Esta mesma exortação é feita por Jesus de Nazaré quando interpela os seus apóstolos dizendo-lhes que não tenham medo dos homens; muito pelo contrário, convida-os a terem confiança em Deus que como Pai amoroso não se esquece dos seus discípulos e cuida deles.

Na verdade é da fidelidade a Deus e à missão sacerdotal que queremos realçar esta atitude de compromisso de todos vós, sacerdotes, que louvais a Deus, e nós convosco, pelas maravilhas que o Senhor realizou através de vós, apesar de todas as dificuldades que se intrometeram na vossa missão.

Somos continuadores da missão de Jesus Cristo que oferece a salvação onde o pecado parecia ter o domínio. Esta mesma vocação está presente nas palavras que S. Paulo dirige aos Romanos ao dizer que por um só homem entrou o pecado no mundo, com muito mais razão, a graça de Deus, dom contido na graça de um só homem, Jesus Cristo, se concedeu com abundância a muitos homens.

Eis a maravilha da nossa missão sacerdotal. Configurados a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote e d’Ele participantes, somos envolvidos por este dinamismo salvífico. Olhando para a nossa sociedade, deparamo-nos com muitos sinais de pecado, de mal e de morte, mas é perante este mundo concreto que somos chamados a ser portadores da salvação com a Palavra que liberta e com os gestos que divinizam.

Lembremos as palavras do Papa Francisco que dirigiu aos candidatos ao ministério presbiteral com as quais os alertavam do seguinte modo: «que a vossa doutrina seja alimento para o Povo de Deus, o perfume da vossa vida seja alegria e amparo para os fiéis de Cristo, a fim de que com a palavra e com o exemplo — palavra e exemplo caminham juntos — edifiqueis a casa de Deus, que é a Igreja». Mais ainda, «continuareis a obra santificadora de Cristo». E acrescenta dizendo que «mediante o vosso ministério, o sacrifício espiritual dos fiéis é tornado perfeito, porque unido ao sacrifício de Cristo, que pelas vossas mãos, em nome de toda a Igreja, é oferecido de maneira incruenta sobre o altar na celebração dos Santos Mistérios» (homilia nas ordenações de presbíteros 2016).

Retomemos as palavras «o perfume da vossa vida seja alegria e amparo para os fiéis de Cristo». Sim, caros sacerdotes e povo de Deus, é uma interpelação muito forte à nossa acção evangelizadora que é realizada no meio do Povo de Deus que deve sentir o perfume da nossa vida que lhes é oferecido por uma vida sacramental, de oração, de meditação e escuta da Palavra de Deus, pela caridade fraterna e pela vida em comunhão. Deste modo somos servidores da alegria e do amparo para todos os fiéis.

O perfume atrai e cria o bem estar de todos os que nos envolvem. Assim deve ser a vida em Cristo vivida e partilhada pelos sacerdotes.

Realmente, como afirma o Papa Francisco, «nunca a Boa-Nova poderá ser triste ou neutra, porque é expressão duma alegria inteiramente pessoal: “a alegria dum Pai que não quer que se perca nenhum dos seus pequeninos”:a alegria de Jesus, ao ver que os pobres são evangelizados e que os pequeninos saem a evangelizar» (homilia da missa crismal 2017).

Da nossa vida feita em fidelidade ao chamamento de Jesus Cristo e permanentemente renovado no permanecer com Ele, podemos cantar com a mesma intensidade de Jeremias que canta ao Senhor, louva o Senhor, que protege a vida do pobre contra  a mão dos perversos.

Nesta nossa celebração realçamos a beleza da vocação sacerdotal e queremos ser anuncio jubiloso perante toda a diocese do sentido profundo que provoca o chamamento divino na vida de cada um de nós.

Muito gostaríamos que este hino de acção de graças ao Senhor fosse também um desafio lançado aos jovens que se interrogam sobre o seu futuro para encontrem em nós um testemunho a indicar o caminho para Jesus Cristo que quer revelar em cada um o Seu amor e n’Ele chamar cada pessoa a segui-Lo.

Assim, sentimos dirigidas a nós as palavras do Papa João Paulo II que nos interpelam dizendo «a confiança total na incondicionada fidelidade de Deus à Sua promessa está ligada na Igreja à grave responsabilidade de colaborar com a acção de Deus que chama, de contribuir para criar e manter as condições nas quais a boa semente , semeada pelo Senhor, possa criar raízes e dar frutos abundantes» (PdV, 2). E, acrescenta que «a Igreja nunca pode deixar de pedir ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe (cf. Mt 9, 38), de dirigir uma clara e corajosa proposta vocacional às novas gerações, de as ajudar a discernir a verdade do chamamento de Deus e a corresponder-lhe com generosidade, e de reservar um cuidado particular à formação dos candidatos ao presbiterado» (Ib., 2).

Caros sacerdotes, viemos renovar a Graça de Deus que nos foi oferecida no dia da nossa ordenação mas vimos também pedir a força necessária para continuarmos numa nova etapa da nossa vida a ser discípulos de Jesus Cristo, atentos às interpelações do Espirito e à realidade concreta dos nossos irmãos.

Estamos em tempo a exigir um discernimento permanente e profundo para corresponderemos aos desígnios de Deus para o nosso mundo.

Discernimento feito com uma vida espiritual exigente, na escuta da Palavra de Deus, na meditação, na oração e na vida sacramental.

Diz-nos o Evangelho «não tenhais medo dos homens». Na verdade, a acção do sacerdote é feita no meio dos homens concretos. Partilhando das suas dúvidas e perplexidades, dos seus temores e fragilidades, mas oferecendo-lhes a força que vem tão só de Deus que nunca desiste de estar no meio dos Seus filhos.

Termino implorando de Nossa Senhora, Mãe e Rainha dos Açores, Mãe dos sacerdotes que abençoe o nosso presbitério e de modo muito particular a vós que celebrais as vossas festas jubilares, que estenda o seu manto materno sobre os jovens que procuram a Jesus Cristo para que escutem o Seu chamamento e proteja o nosso Seminário e os seus seminaristas.

Amen.

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores

 

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