Sé de Angra, 28 de dezembro de 2025, dia da Sagrada Família

Com o olhar na família de Nazaré que nos enche de amor e ternura, saúdo todas as famílias, lembrando quanto sois indispensáveis na sociedade e na Igreja. Saúdo a grande família de famílias que é a diocese, este amplo horizonte onde testemunhamos Cristo, o nosso Salvador e nossa esperança. Obrigado pelo caminho juntos neste Ano Santo. Em particular saúdo os meus caríssimos padres da família que é o presbitério, a generosidade de cada um ao fazer oferta da vida como Jesus fez; saúdo as famílias religiosas e outros consagrados presentes na diocese e que são sinal visível da vocação à santidade a que todos os batizados também são chamados. A Igreja é família para que a humanidade se torne uma única família! Este é o projeto de Deus desde que Jesus Cristo encarnou.

  1. Este Natal, entre muitas recordações, gravei a alegria de um jovem que me pediu que benzesse o anel de noivado que iria oferecer à noiva na noite de Consoada para a pedir em casamento. No dia seguinte, constatei que a noiva tinha dito ‘sim’, porque me veio mostrar o anel. Não resisti, e beijei aquele anel que era sinal de um amor belo e santo de dois jovens cheios de esperança no futuro. Bela imagem da Igreja que queremos ser: uma Igreja que sonha ser família! Este ano, na mensagem de Natal, dirigi-me especialmente aos casais jovens e com filhos para educar. Que tenham as condições materiais e espirituais para guardar sempre o brilho da esperança nos olhos e que não se esgote nos projetos e sonhos materiais, mas no caminho até à vida eterna. Centrai sempre o vosso foco em Jesus, como Maria e José fizeram. Educai para erradicar tiranos como Herodes e todos os outros de hoje. No silêncio orante perscrutareis a voz de Deus que se manifesta de muitas formas como em S. José que é autenticamente o homem dos sonhos. Recorre a Deus nas dúvidas e percebe a Sua vontade nos sonhos que, para nós é a oração. No evangelho, por três vezes se diz que “foi avisado em sonhos”. A Eucaristia passe a ser o laboratório de sonhos grandes para todas as famílias.

O Evangelho fala-nos de uma família em fuga, precária, mas fortemente desejada e amada por Deus. Não eram uns pais que queriam um filho, Deus é que precisou de um pai e uma mãe para que nascesse o Seu Filho. Também convosco seja assim. Descobri que é Deus a querer precisar de vós para o acolhimento da vida nascente! Deus entra na história dentro de uma família concreta, frágil, exposta… mas estruturada. Deus, para o seu Filho Jesus, não quer apenas uma mãe: quer também um pai. Maria encarna o princípio da ternura, do acolhimento, da vida que nasce. José encarna o princípio da realidade: como conta o Evangelho, é ele que enfrenta os perigos, toma decisões difíceis, coloca a família em segurança, trabalha, ensina a Jesus um ofício, introdu-lo no mundo concreto. José não é um acréscimo opcional, mas uma figura de referência fundamental para Jesus. Deus quis o masculino e o feminino, para que o seu Filho crescesse dentro de uma tensão fecunda: ternura e limite, sonho e esforço, cuidado e responsabilidade. Lembremos as famílias com outros projetos, as famílias onde há violência doméstica, não há diálogo nem união. Peçamos pelas que são vítimas das guerras.

Sede agradecidos pelo filho que vedes nascer e crescer, mas alimentai o sonho de o ajudardes a descobrir o que significa ser filho de Deus pelo batismo que pedistes para eles. A vossa alegria ao batizá-lo traz a responsabilidade em fazer crescer a vida divina neles nascida pelo batismo. Ao mesmo tempo, quero encorajar toda a comunidade cristã a acolher com carinho e respeito os casais novos, fazendo caminho com eles e colocando-os no centro da atenção pastoral. Neste primeiro de nove anos até 2034, queremos olhar para o batismo e pedir aos pais e mães que se ajudem uns aos outros a descobrir as razões da fé e a responsabilidade de caminhar com os filhos. Que se envolvam nos CPB’s  (Centros de Preparação para o Batismo). É um erro pensar que todos na família vão ser cristãos porque foram batizados. Já não é assim. Dizia Tertuliano, um padre da Igreja do século II: “o cristão não nasce, faz-se”! Preparai-vos para vos configurardes à imagem de Cristo com eles.

  1. Em cada Natal a liturgia celebra o mistério da Encarnação de Cristo, nossa Esperança e razão do nosso Jubileu. A Família de Nazaré aparece como o berço da única resposta de salvação possível. S. Paulo, mais tarde, querendo infundir coragem à comunidade cristã de Roma” e a todas as vindouras, diria: «Spes non confundit– a esperança e não engana» (Rm5, 5) e, ao abrir o “Jubileu da Esperança”, o Papa Francisco desejava que este Jubileu fosse um momento de encontro vivo e pessoal com o Senhor Jesus, «porta» de salvação (cf. Jo 10, 7.9). Propôs um tempo de misericórdia, perdão e renovação, pediu um compromisso social para acabar com a fome, a pobreza e a injustiça, e convidou-nos a ser “Igreja Samaritana”, para construir um mundo mais fraterno, em Cristo Ressuscitado. Passado um ano, vemos que o mundo continua a precisar de esperança como de pão para a boca. A missão de Jesus não terminou, nunca termina, é uma peregrinação que continuará em aberto, sempre até ao Banquete Eterno: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres”. Esta continuará a ser a missão de Cristo, a missão da Igreja, a nossa missão.

Durante este ano santo, muitos cristãos peregrinaram à Catedral e outras Igrejas Jubilares nas diversas ilhas. Alguns outros conseguiram organizar-se e ir viver com o Papa em Roma os programas jubilares. Foi o caso dos jovens, catequistas, pobres, famílias, seminaristas, padres, equipa sinodal, e outros. Deixo um agradecimento à Equipa do Jubileu algumas atividades especiais como a Via Lucis em PDL, a Aldeia da Esperança em S. Jorge, o ciclo de concerto de órgão e ainda os Diálogos no tempo do ICC. Foram uma forma de fazer transbordar a esperança para fora das portas da Igreja.

  1. Finalmente quero agradecer a Deus este ano que foi especial na vida diocesana. Foram aprovadas as linhas para o Projeto Pastoral até 2034. Este ano enche-nos de esperança pelo trabalho desenvolvido pela Equipa de Coordenação Pastoral e a da Formação Diocesana em unidade com os diversos órgãos sinodais da diocese. É um projeto que aponta a um aprofundamento da sinodalidade como forma de ser Igreja hoje. Nas Visitas Pastorais iniciaram-se percursos de renovação sinodal nas comunidades paroquiais e Ouvidorias, em ordem a um mais consciente compromisso de todo o povo de Deus com a evangelização. O Papa Leão XIV na recente Carta Apostólica “Uma fidelidade que gera futuro” sobre o sacerdócio ministerial escreveu: “O desafio da sinodalidade – que não elimina diferenças, antes as valoriza – continua a ser uma das principais oportunidades para os sacerdotes do futuro”. Que o seja então em primeiro para nós, caros sacerdotes.

Na Carta Pastoral “Batizados na esperança” dirigida a toda a diocese e para os próximos três anos, há um forte apelo à unidade e à vivência de uma espiritualidade de comunhão, capaz de relações fraternas, de escuta respeitosa e de decisões partilhadas. Queremos continuar juntos, peregrinar em Igreja até à casa do Pai, com Jesus. Vai acompanhar-nos a pergunta: “Quem sou eu na Igreja? ou “que digo de mim próprio como cristão”?

Peço à Mãe de Deus que interceda para que fiquem deste Jubileu três características para o futuro da nossa Igreja nos Açores:

– uma Igreja de irmãos peregrinos a caminhar unida;

– uma Igreja que busca a santidade;

– uma Igreja capaz de continuar a sonhar tempos novos para a história da nossa diocese e Região Autónoma.

SLNSJC, nosso Salvador e nossa esperança.