Igreja Matriz da Ribeira Grande

«Foi para a verdadeira liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permanecei firmes e não torneis a sujeitar-vos ao jugo da escravidão. Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade». Estas são as palavras com que S. Paulo exorta a comunidade cristã dos Gálatas e que se revestem de uma forte actualidade.

Toda a vida cristã é uma caminhada de libertação, não à maneira do mundo mas sobretudo segundo a proposta oferecida por Jesus Cristo.

S. Paulo oferece-nos as coordenadas para alcançar a autêntica liberdade. Diz ele «pela caridade, colocai-vos ao serviço uns dos outros, porque toda a Lei se resume nesta palavra: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”».

Deste modo se reconhece que há uma relação entre o amor, o serviço ao próximo e a liberdade. Na verdade, porque contrasta com a proposta vinda do mundo, exige uma experiência pessoal de despojamento, de oferta de si mesmo e de entrega do ser a Deus e aos outros.

É neste contexto e para proporcionar esta experiência única e essencial na vida humana que a Palavra de Deus nos convida a entrarmos no dinamismo do chamamento e do envio com que Jesus de Nazaré toca e transforma a nossa existência.

O Evangelho começa por nos situar no caminho que leva a Jerusalém. Na verdade, este é o itinerário que é percorrido por Jesus de Nazaré, o caminho da Sua entrega em fidelidade ao Pai e de amor aos irmãos, o qual é também seguido pelos seus Apóstolos. Não poderemos ter dúvidas que este é caminho da verdadeira libertação, de amor e de serviço. É no contexto deste caminho que Jesus Cristo chama e envia.

Contudo, devemos ter presente as exigências deste caminho de libertação, conversão, de amor e de serviço. Diz o Evangelho que, pelo facto de irem a caminho de Jerusalém, não os quiseram receber. De facto, perante as exigências que se colocam a quem é chamado por Jesus Cristo à autêntica liberdade há muitos que não aceitam este caminho. É uma posição que acompanha a vida da Igreja que é tão actual.

Quantos dos nossos contemporâneos se recusam a percorrer as sendas da verdadeira liberdade, aquela que nos é oferecida na comunhão com Cristo, porque têm medo das suas exigências. Preferem a mediocridade, o ritualismo e o comodismo do que viver a audácia do compromisso e do serviço gerados no amor.

A prontidão, o despojamento, a pobreza e a decisão sem reservas são outras condições para quem segue a Jesus Cristo e com Ele caminha na libertação pessoal para se colocar ao serviço da comunidade, da pessoa e da sociedade.

Este «segue-Me» que Jesus dirige a alguém, segundo a narração do Evangelho, é o permanente «segue-Me» com que Ele mesmo nos chama para que uma vez entrando na Sua intimidade e revelando-nos a Sua vida nos envia ao encontro dos nossos irmãos proclamando e testemunhando a Boa Nova do Reino.

Esta celebração na qual vamos viver a experiência sublime da ordenação presbiteral do Fábio é para nós uma oportunidade de vivência concreta deste chamamento e envio, da caminhada para a verdadeira liberdade na expressão do amor que nos une a Deus e aos irmãos.

Na verdade, Fábio, tu que ao longo dos anos de preparação fostes percorrendo o caminho da páscoa de Jesus Cristo e sentiste que este é o único itinerário que conduz à verdadeira libertação, apresentaste hoje na disponibilidade para responderes ao convite de Jesus de Nazaré para com Ele configurares a tua vida e deste modo servi-Lo nos irmãos.

Numa ocasião como esta, O Papa Francisco interpelava os que iam ser ordenados de sacerdotes dizendo que «entre todos os seus discípulos, o Senhor Jesus quer escolher alguns de modo especial para que, exercendo publicamente na Igreja em seu nome o ofício presbiteral a favor de todos os homens, continuem a sua missão pessoal de mestre, sacerdote e pastor» (homilia de 12 de Maio de 2019).

Caro Fábio com a ordenação sacerdotal participas da missão de Cristo, único Mestre. Daí que, tal como nos exorta o Santo Padre, a tua doutrina sirva de alimento para o Povo de Deus: quando brotar do coração e nascer da oração, será deveras fecunda! Que o perfume da tua vida seja alegria e apoio aos fiéis de Cristo: homem de oração, homem de sacrifício, porque com a Palavra e o exemplo edificas a casa de Deus, que é a Igreja (cfr. Homilia de 12 de Maio de 2019).

O presbítero é o homem da comunhão. Uma vez em profunda comunhão com Cristo vivida na oração, na meditação da Palavra de Deus, na experiência dos sacramentos, na ascese, na pobreza e na partilha fraterna, edifica um presbitério a viver na comunhão e torna-se testemunha de uma comunidade cristã que se edifica na comunhão e na corresponsabilidade.

Caro Fábio recebes a graça da tua ordenação presbiteral num tempo de fortes desafios para a Igreja diocesana e para cada uma das comunidades cristãs, a iniciar um novo estilo de ser e de evangelizar, optando por um dinamismo sinodal. Isto implica formação cristã para que cada baptizado se sinta membro activo e participante da vida da Igreja e se reconheça portador da missão evangelizadora que diz respeito a todos os discípulos de Jesus Cristo.

Passados mais de cinquenta anos do Concilio Ecuménico Vaticano II, é mais do que tempo de caminharmos decididamente na promoção de comunidades cristãs autenticamente ministeriais, servidoras, evangelizadoras, promotoras de uma sociedade de homens livres porque libertos pela acção salvadora de Jesus Cristo.

Vais ser ungido com o óleo da alegria de modo que da tua pessoa se expanda sempre o suave perfume do amor e do serviço para que todos os que receberem o testemunho do teu compromisso com Cristo sintam a presença da alegria que ninguém poderá roubar. É uma alegria que não é à maneira do mundo.

Embora a missão evangelizadora e a vida do presbítero, á maneira de Jesus Cristo, se revistam de alguma rejeição por parte da cultura de hoje, não tenhas medo, porque como Cristo afirma «Eu venci o mundo».

Exige-se hoje dos sacerdotes um espirito de profundidade de comunhão com Cristo que inspire novos caminhos de vida pastoral, que incentive um dinamismo que não se amedronta perante as dificuldades, qual  profeta que fascinado pelo amor de Deus anuncia a verdade da Boa Nova de Jesus Cristo e denuncia toda a mentira e falsidade.

Com estilo de vida evangélico, o presbítero toma como condição de vida a simplicidade e a humildade de modo que os pobres e os excluídos o reconheçam como próximo e irmão.

Não tenhas medo, caro Fábio, a alegria e a generosidade, o encanto e o fascínio por Cristo que inundam a tua alma nesta hora, se bem alimentados nas fontes da alegria, perdurarão para sempre e serão mais fortes que as atrocidades e contrariedades.

Não queiras ser um presbítero mais, nem assumas a postura dos poderes do mundo, mas verdadeiramente o sacerdote que configurado a Jesus Cristo se oferece integralmente ao serviço de Deus e da Igreja, com a força que só o Espirito Santo poderá dar para encetares uma vida pastoral renovada e segundo as exigência da Igreja e como verdadeira resposta ao mundo de hoje.

Coloca os olhos no Beato João Batista Machado, nosso padroeiro, a quem imploramos as suas bênçãos e entrega-te a Nossa Senhora Mãe dos sacerdotes, Mãe e Rainha dos Açores, Nossa Senhora da Estrela, em cujo regaço colocamos as tuas intenções desta hora e imploramos que te acompanhe e defenda ao longo da tua vida.

 

Amen.

 

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores