Sé Catedral.

Ano após ano, temos a graça de nos reunirmos, como presbitério, para renovarmos as nossas promessas sacerdotais, recolhendo a alegria, o entusiasmo e os sonhos da celebração da nossa ordenação. Mas, como na ordenação nos consagramos integralmente a Jesus Cristo, no ministério sacerdotal, e à sua Igreja na disponibilidade total para o serviço pastoral na comunidade diocesana, estamos novamente a renovar em nós os fundamentos, as exigências e os dinamismos do nosso ministério sacerdotal na fidelidade a Jesus Cristo, à Igreja renovada pela acção do Espirito Santo e à missão pastoral no mundo que se apresenta em permanente mudança e, agora em plena pandemia, a exigir um redobrado sentido de discernimento evangélico.

A Palavra de Deus proclamada nesta celebração é sempre iluminadora do nosso ministério. Começa por nos colocar na comunhão com o ser e a missão de Jesus Cristo. Na verdade, as palavras do profeta Isaias que Jesus Cristo atribui a si mesmo e com as quais identifica o Seu ministério são igualmente o verdadeiro guia para o exercício do nosso ministério.

Deste modo, o Espirito Santo ungiu-nos e nos enviou com uma missão muito concreta de anunciar uma Boa Nova aos pobres, a proclamar a libertação aos cativos e a vista aos cegos e a mandar em liberdade os oprimidos.

Nestes tempos de pandemia e atendendo às vitimas que dela resultam, esta exigência torna-se ainda mais premente, discernindo, acolhendo, partilhando e incentivando. Pertence-nos a nós, junto das nossas comunidades, a iniciativa de proclamar pela palavra e testemunhar com os nossos comportamentos o mundo mais humano que se exige a partir do contexto em que vivemos.

Daqui se depreende que o nosso ministério é vivido na profundidade da comunhão com Jesus Cristo do qual recebemos o mesmo Espirito que nos unge e nos envia. De facto somos enviados com a missão especifica de nos encontrarmos vitalmente com os pobres, com os cativos e com aqueles que estão oprimidos, e ainda, com aqueles que ainda não abriram o seu olhar para a verdade de Deus e continuam a viver nas trevas.

Configurados a Jesus Cristo, é a partir destes parâmetros que devemos afinar os nossos critérios de vida, os nossos comportamentos, as nossas opções e é nestas situações de vida que continuam a provocar-nos na nossa cultura e na nossa sociedade que temos de programar a nossa acção pastoral.

Permitam-me que convosco realce três realidades que devem brotar da unção com o óleo da alegria que recebemos e que devem estar marcadas pelo entusiasmo e encanto que brotam da comunhão com Jesus Cristo. Refiro-me à edificação de comunidades cristãs, à vivência da sinodalidade na comunidade e à promoção dos diversos serviços na comunidade cristã.

A fé cristã vive-se na experiência comunitária. Deste modo, é exigência do sacerdote que faça uma verdadeira experiência comunitária para, com a sua palavra e com o seu testemunho, ofereça aos fiéis que lhe estão confiados a vivência em comunidade. Na verdade é a comunidade que professa a fé; é a comunidade que se abre para o acolhimento a novos cristãos; é a comunidade que forma e catequiza; é a comunidade que desperta as vocações nos seus membros; é a comunidade que integra, acolhe, partilha e dignifica todo o ser humano; é a comunidade que evangeliza e dá testemunho do Evangelho de Jesus Cristo. É a comunidade cristã que se fundamenta na vivência da Eucaristia; nela fortalece os laços de comunhão e dela brota o dinamismo para a missão.

Caros sacerdotes, procuremos colocar todo o nosso esforço e atenção na edificação de comunidades cristãs. Todavia a comunidade que se exprime na comunhão exige de nós uma experiência profunda, alegre, decidida de comunhão presbiteral e de abertura para a comunhão com aqueles que nos estão destinados. Urge sair de nós próprios; temos de deixar de nos refugiarmos nos nossos comodismos, nos nossos horários, nas nossas criticas mordazes, nas nossas rotinas. Pelo contrário, temos de cultivar a humildade, a empatia, a fraternidade, o desejo de estar com o outro, a valorização do nosso irmão e a alegria do nosso sacerdócio convivido com os outros sacerdotes e com os fiéis.

Não tenhamos dúvidas que o modo de ser de cada um de nós e como estamos em presbitério é algo de fundamental para edificarmos comunidades cristãs.

Interligado com a edificação de comunidades cristãs deparamo-nos com a exigência da sinodalidade. Isto é comunidades cristãs, nas quais todos os baptizados assumem o seu papel de participação activa e consciente no ser e na missão da Igreja.

A nossa diocese iniciou este itinerário de renovação a que chamamos de caminhada sinodal. Propusemos como lema uma expressão do Papa Francisco que refere «a beleza de caminharmos juntos em Cristo».

Esta exigência situa-se na concretização pastoral da reflexão Conciliar. Na verdade, o Concilio Vaticano II convocou a Igreja para a missão evangelizadora no meio do mundo. Esta missão pertence a todo o Povo de Deus, sejam ministros ordenados, sejam fiéis em Cristo pelo Baptismo, sejam consagrados, religiosos e religiosas.

Porém, é também a cultura actual que ao despertar para a personalização do ser humano, exige que a comunidade cristã ofereça condições para uma participação activa de todos os seus membros.

Caros sacerdotes, não desperdicemos esta hora de graça para a nossa Igreja diocesana. É um tempo exigente? É sem dúvida. É uma caminhada que nos desinstala? Com certeza. Que é um itinerário que exige escuta, criatividade, humildade e despojamento? É verdade. Contudo, é uma exigência permanentemente repetida e referida pelo Santo Padre o Papa Francisco e é sobretudo uma resposta aos Sinais dos Tempos presentes no mundo de hoje a exigir a luz do Espirito de Deus para uma acção evangelizadora da Igreja.

Vem-nos ajudar, sem dúvida, a iniciativa do Papa Francisco de convocar o próximo Sinodo dos Bispos, em 2022, precisamente sobre a temática da sinodalidade na Igreja.

A edificação de comunidades cristãs autênticas e dinâmicas e a renovação que nelas introduz o dinamismo da sinodalidade, exige a promoção de serviços e ministérios. Uma comunidade cristã consciente e evangelizadora, proporcionará os serviços necessários ao seu crescimento e à sua missão, através do anuncio, da celebração dos mistérios da fé e da partilha fraterna e ainda aqueles que são se destinam ao diálogo evangélico com o mundo.

Mas também uma comunidade cristã a viver a sinodalidade criará as condições para cada baptizado, nomeadamente, crianças, adolescentes e jovens, na sua caminhada de fé, descubra o chamamento de Jesus Cristo e se entregue a Ele na alegria e com entusiasmo.

Compete á família e à comunidade cristã oferecer as condições para o amadurecimento da vocação sacerdotal, diaconal, religiosa, matrimonial ou de consagração laical.

Caros sacerdotes, fomos ungidos com o óleo da alegria. Deixemos que esta unção encha de entusiasmo a nossa existência através da oração, da participação nos sacramentos, na escuta da Palavra de Deus e na comunhão sacerdotal e que esta mesma unção renovada cada dia alimente a nossa missão sacerdotal, num estilo de vida simples, humilde, sóbrio, desprendido, aprendendo com os pobres a riqueza de vivermos em comunhão com Deus e com os irmãos.

É neste contexto que manifesto a alegria da diocese, do presbitério e a minha própria, em acção de graças ao Senhor, pela vida sacerdotal de todos os presbíteros que do nosso presbitério celebram neste ano datas jubilares. Foram convidados a estardes aqui connosco, nesta celebração, para vos manifestarmos a nossa gratidão pela vossa entrega total ao serviço do Evangelho.

Imploro de Nossa Senhora, Mãe e Rainha dos Açores, Mãe dos Sacerdotes que abençoe o nosso presbitério e que o Beato João Baptista Machado, nosso Padroeiro, nos fortaleça na missão evangelizadora do mundo de hoje.

Amén.

+João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores