Sé de Angra.
UM AMOR ENTRE IGUAIS
O Natal revela-nos o coração do amor verdadeiro. O nascimento do Deus Menino diz-nos que há duas maneiras de amar: uma é dar presentes, a outra é tornar-se presente! E é precisamente isso que celebramos hoje: «O Verbo fez-se carne e veio habitar entre nós». Jesus não dá presentes, Ele faz-se presente!
- O filósofo dinamarquês Kierkegaard numa das suas metáforas conta a história de um rei poderoso que se apaixonou por uma jovem pobre. O rei, porém, não sabia como amá-la verdadeiramente. Se a levasse para o palácio, se a vestisse como rainha e a cobrisse de riquezas, ela poderia sentir-se fascinada, mas ele nunca saberia se ela o amava a ele ou ao que ele representava. Então, percebeu que enquanto continuasse a ser rei, o amor seria sempre desequilibrado. Poderia haver respeito, mas não amor pleno, porque o amor pleno só é possível entre pessoas iguais. E assim, o rei tomou uma decisão radical e corajosa: renunciou ao trono e tornou-se igual à rapariga amada. Só assim o amor poderia ser livre, sem pressões nem condicionamentos. Também Jesus “esqueceu a sua condição divina” e fez-se igual a nós”.
Esta história diz exatamente a mesma coisa que encontramos no início da criação. Deus, depois de criar o mundo e o primeiro homem, Adão, diz: «Não é bom que o homem esteja só». Como sozinho? Adão tem tudo: o jardim, o céu, as estrelas, os animais e, acima de tudo, Deus que lhe fala. No entanto, ele não se sente completo diante das maravilhas do universo e nem mesmo diante de Deus. Só quando encontra alguém igual a ele é que pode dizer: «Desta vez sim. Ossos dos meus ossos, carne da minha carne». É aí que nasce o amor pleno que só é possível entre iguais. No amor, os papéis, os títulos, as distâncias desaparecem: restam apenas pessoas que se encontram no mesmo plano. E o amor só é possível na liberdade. Onde há constrangimento, medo de ficar sozinho, dependência afetiva ou económica, não há amor. O amor pleno só existe onde se pode dizer livremente sim, mas também não.
Penso nas nossas famílias onde mais facilmente se vê o esforço para serem iguais, homem e mulher, onde se aprende a saber perder para ganhar o outro, saber descer com humildade até ao mundo do cônjuge para salvar o amor. Penso os casais com filhos que os vêm como dom de Deus, os querem ensinar a amar como Jesus e educar para o respeito de todos, mantendo-os livres para serem maduros. A Igreja e a sociedade precisam destas células de amor à maneira de Deus.
- É precisamente esta a natureza do amor, e Deus, que é Amor, demonstra-o. O Evangelho que acabámos de ouvir diz: «No princípio era o Verbo, o Verbo estava em Deus, o Verbo era Deus». Fala-nos do amor trinitário, de Deus como relação e comunhão, amor entre Pessoas iguais. Da mesma forma, Deus porque quer amar o homem, segue a mesma lógica: torna-se igual ao homem. É o mistério do Natal, que celebramos hoje: «O Verbo fez-se carne». Deus tornou-se homem. Só assim podia amar-nos verdadeiramente. Deus colocou-se ao nosso nível e chamou-nos não servos, súbditos, mas amigos, irmãos. E aceitou o maior risco do amor: a liberdade e, portanto, a possibilidade da rejeição. «Ele veio para os seus, e os seus não o receberam». O amor pleno nunca obriga. Sem liberdade não há amor.
Há um desígnio de fraternidade nas profecias que se realizam em Jesus. A nossa pobreza e fragilidade já está iluminada pelo Seu amor ao fazer-se igual a nós. Quantas ilações a tirar perante a forma como tratamos as desigualdades sociais e económicas nas sociedades de hoje e entre nós. Talvez porque tantas respostas sociais se fazem de cima para baixo, de superior para inferior, elas não resultam. Quanta dificuldade em nos fazermos uma coisa só com os irmãos, nos mostrarmos iguais, caminharmos juntos, sejamos nós pobres, ricos, entusiasmados ou caídos no desânimo. Juntos, mas mantendo-nos livres para amar e nos deixarmos amar. Só assim nos podemos salvar todos.
Li estes dias: “é tão difícil ver um pobre sentado a nosso lado na Eucaristia, no grupo de formação, nos movimentos da paróquia. É tão difícil ver um cristão praticante a falar com um pobre na rua…”. Será assim? Faz pensar! «O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz». Vimos mesmo?
Sejamos agradecidos a Deus que nos dá um olhar iluminado pela fé. A ação de Deus é um projeto já presente e visível no meio de nós: basta pensar na fidelidade de dois esposos; no amor dos pais pelos filhos; no abraço e cuidado pelas crianças, deficientes, idosos; na paciência de uma avó; na ternura de um profissional de saúde; na paixão educativa de uma professora, na honestidade de um empresário, nas diversas formas de acolhimento de uma comunidade etc., etc. O Seu Reino cresce no amor gratuito e livre dos homens, como foi o amor Dele.
- E então surge espontaneamente uma pergunta: quando estivermos no Paraíso, voltará a existir a distância entre o Criador e a criatura? Não. São Paulo diz claramente: seremos semelhantes a Deus. Também lá o amor pleno só é possível entre iguais. E é exatamente isso que celebramos no Natal. Não um conto de fadas para crianças, não uma tradição sentimental, mas o amor que se torna pleno, maduro. O maior presente do Natal não é algo que está debaixo da árvore. É apaixonar-se pelo Senhor, como se apaixona por uma pessoa real: basta pensar nele e fica-se comovido, surpreende-se a sorrir sem perceber. E, aos poucos, descobre que está a mudar, que muitos medos se dissipam, que já não se sente sozinho, que nunca esteve sozinho.
No Natal há a proposta de um «amor igualitário», com um excedente escandaloso: mesmo que não O escolhas, Ele não deixará de te amar.
Ele vem por causa de ti, de mim, de nós, de todos.
Santas Festas e feliz Ano Novo.