Sé de Angra.

A PAZ DE JESUS CONTINUA A SER UM SONHO

A liturgia desta noite envolve-nos numa incrível história de amor que Deus com os homens. Deus veio abraçar a humanidade ferida para a curar e salvar. Que maravilha!

De muitas formas, seja na liturgia, seja nas nossas palavras simpáticas, tudo está centrado em Jesus. É dele a festa. De facto, dizer Natal é dizer Jesus e, se o dissermos, já estamos a dizer também algo sobre nós, sobre o nosso viver, as nossas aspirações maiores, a nossa fé! Estamos a responder à pergunta: “Cristão que dizes de ti mesmo neste Natal”? Se me perguntassem, diria apenas: “sem Ele, eu não seria quem sou!” Gostaria, no entanto, de poder entrar hoje nas casas das pessoas e perguntar isto mesmo: “o que dizem de Jesus”, ou “se Jesus lá mora”, ou “se o tinham convidado para o Natal”, se lhe tinham feito uma oração em família, se muda alguma coisa neste Natal… Gostava de ver as reações! Não obstante tudo, dizer a todos que Ele é o Emanuel, o Deus Connosco, e que está presente onde a vida recomeça a partir do amor.

Provavelmente, em muitas casas, encontraria muitos sinais natalícios: muito amor e ternura, mesmo na simplicidade de um jantar familiar, muita alegria por reencontros felizes, sorrisos, bonitas palavras que unem e curam distâncias. Penso que veria também muitas marcas do consumismo, de um consumismo que se apodera pouco a pouco do Natal e abafa Jesus, um consumismo que vende natais de barriga cheia e utopias embrulhadas em bonitos laços que fazem esquecer as questões da vida que carecem de sentido. Jesus não vem embrulhado nem é provisório, nem quer ser apenas para quando faz falta. Também entre nós se corre o risco de ouvir que “não há lugar para Ele” como na noite do seu nascimento em Belém. Não deixemos.

Há lugares onde verdadeiramente se esperou e se festeja Jesus como o sonho de paz duradoira e justa onde manda a divisão e o ódio que a guerra sempre gera. No Natal em Gaza, apesar da guerra e do luto que impõem sobriedade, montaram presépios e árvores de Natal não para adornar, mas para tornar Jesus mais “visível”. Afirmava o pároco da Paróquia da Sagrada Família: “Cada pessoa que vem à igreja pendura uma decoração na árvore com uma intenção de oração: pela paz, pela família, pelas vocações, pelo perdão e, acima de tudo, pelo fim desta guerra”. Estes têm necessidade de Jesus e têm lugar para Ele.

Deixemo-nos provocar, meus irmãos, deixemo-nos desinstalar que foi para isso que Jesus veio. Se o adoramos na liturgia, precisamos do Seu amor no coração para o espalhar. Admiro tantos profissionais e voluntários que trabalharam, também entre nós, para valorizar este tempo, que é tempo de Deus. Penso em todos os que inventaram festas de Natal para aquecer os corações e proporcionar momentos de alegria e esperança nos lugares de mais sofrimento e solidão: nas muitas Instituições Sociais por toda a nossa diocese, nos hospitais, nos lugares de acolhimento dos “sem abrigo”, nos estabelecimentos prisionais, etc. Mas são igualmente belas as mãos de pais e mães que preparam os mimos natalícios para os membros mais novos ou mais velhos da família. Quanto amor à solta! É também um tempo de dificuldades, mas os tempos serão bons se nós formos bons, se soubermos optar pelo bem que faz bem aos outros, sobretudo a quem mais sofre e a quem podemos repetir com as nossas ações: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria: nasceu-vos hoje um Salvador, que é Cristo Senhor”.

Na mensagem de Natal deste ano pensei sobretudo nos casais jovens e com filhos. Faço alusão à responsabilidade do batismo, esse nosso autêntico Natal de Deus em nós, que importa alimentar para que cada batizado se torne um discípulo de Jesus e membro vivo da comunidade da Igreja em que entrou. Como para a sociedade, também para a Igreja eles são importantes. Os jovens casais, acolhendo e promovendo generosamente a vida, são testemunhas vivas de fé e compromisso cristão. Que Deus a todos dê as condições necessárias para gerar e educar na fé os seus filhos.

Caros irmãos e irmãs, que Cristo, o centro visível do nosso Natal, faça toda a diferença. Não podemos permitir que se fale de novo em homens e mulheres de primeira e de segunda, que se espalhem ideologias radicais que não jogam com a mensagem de Belém, onde acorrem pastores e reis, do Oriente e do Ocidente, todos para adorar o Deus Menino, independentemente das origens, sexo ou fé. Por isso, em unidade com as repetidas intervenções do Papa e da Igreja em Portugal, tenho que apelar ao respeito absoluto dos direitos humanos, ao acolhimento e espírito cristão para com os imigrantes que estão entre nós. Esta semana encontrei dois que trabalham nesta nossa cidade. Trocámos telefone e promessas de um café no Ano Novo. Façamo-los sentir em casa como fazemos com Jesus, o migrante por excelência. Um padre americano ao fazer o presépio, este ano, retirou as imagens de Jesus, Maria e José, escrevendo num cartaz que tinham lá ido expulsar os imigrantes. De facto, também eles foram emigrantes no Egito.

Alegrai-vos todos! O Príncipe da Paz mora connosco, partilha a nossa carne e história. Ele vem para retirar as nossas falsas imagens de Deus, que são causa de todas as formas de discriminação, de ódios e guerras. O nosso Deus é Amor e os seus discípulos distinguem-se pela forma como se amam. Como dizia S. Paulo “a nossa esperança está no Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e preparar para Si mesmo um povo purificado, zeloso das boas obras”. A paz pode continuar a ser um sonho, mas, sem sonho, não se alimenta a vida e não há futuro!

Que seja um Santo e Feliz Natal para todos os aqui presentes e quantos nos acompanham espalhados pelo mundo, sobretudo através da VITEC, a cujos profissionais também saúdo com votos de festas felizes. Festas felizes com Jesus!