Pelo padre Carlos Simas

Estas últimas semanas foram, para mim, de uma profundidade imensa! Tocar em realidades que nos fazem estremecer e outras que nos fazem entrar numa realidade bem patente entre nós. Finalizei este ciclo com o retiro de catequistas onde as conclusões me levam a partilhar convosco a minha reflexão profunda sobre uma sociedade que se esvazia de Deus.
Vivemos tempos em que assumir a fé cristã parece exigir coragem. Numa sociedade cada vez mais secularizada, acreditar em Deus tornou-se, para muitos, motivo de constrangimento, como se ser cristão fosse algo ultrapassado ou incompatível com a mentalidade moderna. Por medo do julgamento, da crítica ou da incompreensão, muitos preferem silenciar a sua fé, escondendo aquilo que deveria dar sentido à sua vida.
Teremos vergonha de Cristo ou medo daquilo que os outros pensam de nós?
O cristianismo corre o risco de se tornar uma fé camuflada: presente nas tradições, nas festas e nas celebrações, mas ausente das escolhas quotidianas e do testemunho pessoal. Queremos a bênção de Deus, mas receamos assumir as exigências do Evangelho. Conservamos alguns costumes religiosos, mas nem sempre alimentamos a relação com Deus que lhes dá verdadeiro sentido.
Esta realidade preocupa, sobretudo, quando entra nas nossas famílias. Quando a oração desaparece, quando a Eucaristia deixa de ser uma prioridade e quando os pais deixam de transmitir a fé aos filhos, instala-se um vazio espiritual que dificilmente será preenchido por aquilo que o mundo oferece. A tradição pode permanecer, mas, sem uma fé vivida, corre o risco de se transformar numa simples herança cultural.
Não se trata de impor Deus ou de julgar quem pensa de maneira diferente. Trata-se de compreender que respeitar a liberdade dos outros não exige renunciar à nossa identidade cristã. A fé não deve ser imposta, mas também não precisa de ser escondida. Jesus não nos chamou a viver às escondidas, mas a ser luz, mesmo quando essa luz nos torna diferentes.
O problema agrava-se numa sociedade que valoriza cada vez mais o ter em detrimento do ser, a aparência em vez da interioridade e o sucesso material acima da riqueza espiritual. Ocupamos os dias, acumulamos bens e procuramos reconhecimento, mas esquecemo-nos de cuidar daquilo que verdadeiramente alimenta a alma.
E, quando Deus deixa de ocupar o centro da nossa vida, acabamos por sentir um vazio que nenhuma conquista material consegue preencher. Por vezes, julgamos sentir o abandono de Deus, quando fomos nós que, pouco a pouco, deixámos de Lhe dar espaço.
Talvez o maior drama espiritual do nosso tempo não seja apenas o afastamento de Deus, mas a perda da consciência de que precisamos d’Ele.
Precisamos de cristãos que não se imponham, mas que não se escondam; que respeitem todos, sem renunciarem à sua fé; que testemunhem o Evangelho não apenas com palavras, mas com a coerência da sua vida. Precisamos de famílias que voltem a rezar e de comunidades que mostrem, com autenticidade, que Deus continua a ter lugar no mundo de hoje.
Não tenhamos vergonha de Cristo. Tenhamos, antes, a coragem de O colocar novamente no centro da nossa vida. Porque uma sociedade pode prosperar materialmente e, ainda assim, empobrecer espiritualmente. E podemos conquistar muito aos olhos do mundo, mas perder aquilo que dá sentido à existência.
A verdadeira questão não é se o mundo ainda tem lugar para os cristãos, mas se nós temos coragem de testemunhar Cristo no mundo.
É pertinente dizer que precisamos viver um novo PENTECOSTES! Que nos faça ultrapassar o medo do julgamento para que não se apague em nós a chama da fé. Porque o cristianismo não precisa de ser camuflado: precisa de ser vivido, assumido e testemunhado com coragem, humildade e esperança.
*O padre Carlos Simas é ouvidor da Ribeira Grande e responsável pelo Serviço Diocesano da Catequese para as ilhas de São Miguel e Santa Maria.