A Igreja Católica celebra este domingo, 1 de novembro, a solenidade de Todos os Santos, uma data que, nos Açores, continua também associada à tradição do Pão por Deus. Na ilha Terceira, sobretudo na zona do Ramo Grande, a proximidade à Base das Lajes contribuiu para uma particular fusão entre esta tradição portuguesa e o Halloween, introduzido pela influência norte-americana.
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A solenidade de Todos os Santos, celebrada a 1 de novembro, evoca todos os que alcançaram a glória de Deus, tenham ou não sido oficialmente canonizados pela Igreja Católica. A celebração antecede o Dia dos Fiéis Defuntos, assinalado a 2 de novembro, dedicado à memória e à oração por todos os que morreram.
Em Portugal, o Dia de Todos os Santos está também ligado a uma tradição popular profundamente enraizada: o Pão por Deus. De porta em porta, as crianças percorriam as localidades, recitando versos e pedindo ofertas, que tradicionalmente incluíam pão, broas, bolos, romãs e frutos secos. Em algumas localidades, o costume é também conhecido como Dia dos Bolinhos.
Nos Açores, esta tradição ganhou características próprias, particularmente na ilha Terceira, onde a influência norte-americana contribuiu para a introdução de novos elementos, como as fantasias e a distribuição de chocolates e guloseimas, já na década de 80.
No Ramo Grande, a vizinhança da Base das Lajes foi determinante para esta aproximação entre culturas. O investigador em História Francisco Miguel Nogueira explica que a presença militar norte-americana, ao longo de mais de seis décadas, teve um papel importante na disseminação do Halloween junto da população local.
“A influência norte-americana foi muito forte”, recorda o historiador, sublinhando que a tradição rapidamente se espalhou pela zona do Ramo Grande, com as crianças a aderirem às fantasias e às atividades promovidas nas escolas, sobretudo no âmbito das aulas de Inglês.
O chamado “trica-trica”, expressão utilizada localmente para o pedido de guloseimas, passou também a fazer parte dos costumes da época. As crianças procuravam os militares e as famílias norte-americanas, recebendo chocolates e doces que, naquele tempo, eram pouco acessíveis à maioria das famílias portuguesas.
Francisco Miguel Nogueira lembra que, numa época em que o país atravessava dificuldades económicas, sobretudo durante o Estado Novo e nos anos que se seguiram à Revolução de 25 de Abril, receber um chocolate americano representava uma alegria especial.
“Um Snickers, um Mars ou uns M&M’s faziam a alegria de qualquer criança”, recorda, salientando que a distribuição de guloseimas e a proximidade entre os militares e a população ajudaram a criar uma ligação duradoura à cultura do Halloween.
Essa influência chegou mesmo ao interior da Base das Lajes, onde, durante muitos anos, as crianças da região também iam pedir Pão por Deus. Havia casas decoradas e ambientes alusivos ao Dia das Bruxas, numa experiência que, segundo o investigador, contribuiu para que as duas tradições se misturassem.
“Basicamente, diz-se Pão por Deus com fantasias. Não vivemos propriamente o Halloween como se vive nos Estados Unidos. Importámos e demos um toque açoriano ao Halloween que era vivido dentro da base”, sintetiza.
Uma fusão cultural que, ao longo dos anos, ultrapassou os limites da zona envolvente à Base das Lajes e se foi tornando parte do quotidiano de outras localidades da ilha e depois mais tarde em todo o arquipélago, sobretudo a partir dos programas curriculares de língua inglesa.
Ainda assim, o investigador considera que o Pão por Deus tem vindo a perder expressão. Mas não atribui esse declínio apenas à crescente popularidade do Halloween. Para Francisco Miguel Nogueira, as mudanças sociais e a diminuição da vivência religiosa têm um peso significativo.
O enfraquecimento da dimensão religiosa da tradição, a influência das redes sociais e a transformação das relações de vizinhança ajudam a explicar por que razão as crianças já não percorrem as ruas e as casas com a mesma frequência de outros tempos.
O Pão por Deus tinha, além da componente lúdica, uma dimensão de solidariedade e de esmola, que também se foi alterando.
“Já não tem a importância que tinha” admite, embora considere que a tradição continua viva em algumas localidades e entre algumas crianças.
A Solenidade de Todos os Santos e Fiéis Defuntos
“Convido-vos a contemplar esta imensa multidão de homens e mulheres que se nos apresentam como sinal profético da vida futura, que já tem o seu início no compromisso e no testemunho cristão da vida terrena”, pediu o Papa Leão XIV, nas saudações finais da audiência geral desta quarta-feira, 28 de outubro, perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano.
As Igrejas do Oriente foram as primeiras (século IV) a promover uma celebração conjunta de todos os santos quer no contexto feliz do tempo pascal, quer na semana a seguir.
No Ocidente, foi o Papa Bonifácio IV a introduzir uma celebração semelhante em 13 de maio de 610, quando dedicou à Santíssima Virgem e a todos os mártires o Panteão de Roma, dedicação que passou a ser comemorada todos os anos.
A partir destes antecedentes, as diversas Igrejas começaram a solenizar em datas diferentes celebrações com conteúdo idêntico.
A data de 1 de novembro foi adotada em primeiro lugar na Inglaterra do século VIII acabando por se generalizar progressivamente no império de Carlos Magno, tornando-se obrigatória no reino dos Francos no tempo de Luís, o Pio (835), provavelmente a pedido do Papa Gregório IV (790-844).
Leão XIV também assinalou a proximidade da comemoração de todos os fiéis defuntos, e explicou que “no mês de novembro, que se aproxima, a Igreja intercede de modo especial pelos defuntos”.
“Pratiquemos a obra espiritual de misericórdia, rezando por eles, para que, purificados, alcancem a comunhão eterna com Deus e os seus santos”, apelou o Papa.
No dia 2 de novembro tem lugar a ‘comemoração de todos os fiéis defuntos’, que remonta ao final do primeiro milénio: foi o Abade de cluny, Santo Odilão, quem no ano 998 determinou que em todos os mosteiros da sua Ordem se fizesse nesta data a evocação de todos os defuntos ‘desde o princípio até ao fim do mundo’.
Este costume depressa se espalhou: Roma oficializou-o no século XIV e no século XV foi concedido aos dominicanos de Valência (Espanha) o privilégio de celebrar três Missas neste dia, prática que se difundiu nos domínios espanhóis e portugueses e ainda na Polónia.
Durante a I Guerra Mundial, o Papa Bento XV generalizou esse uso em toda a Igreja (1915).