Mais tormentas do que boa esperança

Pelo Padre José Júlio Rocha

No seu livro “As Causas do Atraso Português”, o economista Nuno Palma tem algumas ideias deveras interessantes sobre o nosso velho País. Esta praia à beira-mar plantada, na periferia da Europa, tornou-se centro do mundo a partir do século XV, quando o Atlântico, então sem fim à vista, começou a ser invadido pelas caravelas e naus portuguesas, junto com o Índico e o Pacífico. O mundo foi nosso. As suas riquezas, não. Nunca tivemos jeito para o negócio e as especiarias da Índia iam para a Flandres a preço de chuva.

Por essa altura, quando precisava de dinheiro, o rei reunia as Cortes, uma instituição preciosa, onde eram ouvidos o clero, a nobreza e o povo e nem sempre o rei levava a melhor, chegando a ser obrigado a baixar impostos. As cortes, em Portugal, funcionavam como um parlamento.

Só que, no fim do século XVII, o dinheiro chegou a Portugal. Muito dinheiro. Em ouro. Do Brasil. Dom João V encheu os cofres do País e, de um momento para o outro, um português médio vivia bem melhor do que um francês e ainda mais do que um espanhol. As igrejas e os palácios encheram-se de ouro, havia liquidez. Só que, com a abundância, os produtos portugueses começaram a encarecer e as importações dispararam porque o estrangeiro era mais barato do que o fabricado em Portugal. As fábricas – que então começavam a florescer – foram fechando e muita população regressou aos campos. Portugal vivia à custa do ouro do Brasil e comprava no estrangeiro.

Pior foi a desvantagem política. O rei, que já não precisava de pedir dinheiro ao País, deixou de convocar as Cortes. Há um vazio parlamentar em Portugal que vai desde 1700 a 1822, quase coincidente com o regime absolutista português. A pobreza regressa a Portugal não por causa do terremoto de 1755 nem por causa das invasões francesas. Porque faltou o ouro do Brasil e Portugal, em vez de ter construído um futuro, esbanjou, qual dono da galinha dos ovos de ouro, o ouro que lhe tinha parado nas mãos.

Mais ainda. O “pior político da nossa História”, o Marquês de Pombal, cometeu a suprema imbecilidade de acabar com os jesuítas em Portugal e cerca de 20 mil estudantes ficaram sem aulas, o País sem educação nem ciências nem artes, atrasando-se consideravelmente em relação ao resto da Europa. Eis o busílis: a educação foi o grande tormento português. Estamos ainda na cauda da Europa por causa da deseducação que se promoveu ao longo de demasiados anos. Em pleno século XIX, três em cada quatro portugueses não sabia ler. Já Antero falava disso nas causas da decadência dos povos peninsulares.

O regresso à aposta na educação só chegou com o Estado Novo, há que o admitir, embora bastante insuficiente. É aí que o analfabetismo começa a ser combatido a sério.

Portugal voltou a ter dinheiro. E muito. Da Europa. E cometeu os mesmos erros. Apostou em muito, não muito na educação. E estamos a pagar agora a fatura de muito desinvestimento. Outros países, sobretudo de Leste, mais pobres do que nós, entraram mais tarde na União Europeia, receberam menos e já estão em melhores condições. Uma sina.

Entretanto, essas ondas de choque que se propagam pela Europa e já chegaram a Portugal, vêm também na mesma lógica da História. Não olhemos para isso com superficialidade. Há quem veja nas acampadas e nos caixotes incendiados apenas uma cáfila de extremistas que aproveitam o ensejo para fazer aquilo que sabem: destruir tudo; há quem se entusiasme com luta corajosa dos jovens, que tiraram os olhos do telemóvel e agora assustam os bem estantes. É mais profundo do que isso. Nenhum jovem hoje tem a mínima possibilidade de adquirir uma casa como os seus pais, há vinte ou trinta anos. O impacto disso na esperança é devastador.  E este é apenas um sintoma, um exemplo, uma metáfora da nossa juventude, cada vez mais atirada para a desesperança, o futuro negro, o túnel ao fundo da escuridão, o seu amanhã devastado pelos interesses dos gigantes que querem controlar carteiras e consciências. A História já nos ensinou aquilo que nos recusamos a aprender: quando os jovens acordam, é altura de começarmos a tremer.

*Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do Diário Insular, na coluna Dorsal Atlântica

 

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