Há limites para o humor: o respeito pela Eucaristia

Por António Pedro Costa

 

Muito se tem dito e escrito sobre a piada de mau gosto de Bruno Nogueira. O homem tem talento, mas considero legítimo dizer que, desta vez, o seu humor desagradou a muita gente. Não por ser contra a liberdade de expressão, nem por achar que a Igreja Católica não pode ser criticada, mas porque acredito que há uma diferença entre fazer humor sobre os erros da Igreja e ridicularizar aquilo que é sagrado para milhões de católicos.

Ninguém ignora a gravidade dos abusos cometidos por alguns membros do clero e a Igreja tem a obrigação de reconhecer os seus erros e garantir que a justiça seja feita. Nenhum membro da Igreja está acima da lei, e vestir uma batina não torna ninguém melhor do que os outros.

É legítimo que Bruno Nogueira critique a Igreja e faça humor com os seus comportamentos. A Igreja não é perfeita, porque é constituída por seres humanos, e precisa de ser confrontada com os seus erros. Os católicos também devem saber reconhecer as suas falhas e aceitar críticas, mesmo quando estas incomodam.

Mas há uma pergunta que me parece importante fazer, o que têm os crimes cometidos por alguns membros da Igreja a ver com a Sagrada Comunhão?

Para um católico, a Eucaristia não é uma simples bolacha, nem um pedaço de pão sem significado. É o próprio Cristo, verdadeiramente presente sob as espécies do pão e do vinho. É um dos maiores mistérios da nossa fé e o coração da vida cristã. Quando nos aproximamos da Comunhão, não estamos apenas a cumprir uma tradição ou a participar num ritual. Estamos a receber Jesus, Aquele em quem confiamos as nossas alegrias, as nossas preocupações, os nossos pecados e os sofrimentos que tantas vezes não conseguimos partilhar com mais ninguém.

Para muitos de nós, a Eucaristia é força nos momentos difíceis, consolo na dor e esperança quando a vida parece perder o sentido. É por isso que nos custa ver aquilo que consideramos tão sagrado ser transformado em motivo de escárnio.

Naturalmente, Bruno Nogueira não tem de acreditar em Cristo, nem de olhar para a Eucaristia com os olhos de um católico. Tem toda a liberdade para pensar de maneira diferente e para fazer o humor que entender. Mas também nós temos o direito de dizer que determinada piada nos pareceu desnecessária e desrespeitadora da nossa fé.

A questão não está em impedir o humorista de falar, nem em exigir que todos respeitem a religião da mesma maneira que os crentes. Está em perceber se, neste caso, a provocação serviu para denunciar uma injustiça ou se acabou por recorrer ao choque fácil, sem acrescentar grande coisa à crítica que pretendia fazer.

A Igreja oferece muitos motivos para o humor, como a vaidade de alguns dos seus responsáveis, as contradições entre palavras e atitudes, os excessos de solenidade e a falta de humildade de quem devia dar o exemplo. Os próprios católicos sabem rir de si mesmos, e talvez precisemos de o fazer mais vezes. A fé não nos torna perfeitos, nem nos dispensa de reconhecer as nossas fraquezas.

Mas uma coisa é rir dos erros dos homens da Igreja, outra é ridicularizar aquilo em que acreditamos. Não defendo, como alguns católicos, que se retire o programa, que Bruno Nogueira seja castigado ou que alguém lhe imponha silêncio. A liberdade de expressão é um direito que devemos defender, mesmo quando aquilo que ouvimos nos desagrada. Porém, essa mesma liberdade permite-nos discordar, manifestar a nossa indignação e considerar que uma piada foi de mau gosto.

Uma crítica inteligente à Igreja não precisa de desrespeitar a Eucaristia para ser contundente. Pode denunciar os abusos e obrigar-nos a pensar sem transformar o que é sagrado para tantos numa simples provocação. No fundo, não se pede a Bruno Nogueira que tenha fé. Pede-se apenas que compreenda que aquilo que para ele pode ser matéria de humor representa, para muitos católicos, a presença de Cristo na sua vida.

A liberdade de fazer humor não está em causa. O que está em causa é saber se, desta vez, o humor esteve à altura do talento. Na minha opinião, não esteve. Porque fazer rir pode ser fácil, mas fazer pensar, sem recorrer à ofensa gratuita, exige uma verdadeira inteligência.

 

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