“A santidade não é o isolamento nem a perfeição impecável, mas a ousadia de ultrapassar todas as barreiras para servir com amor”- D. Armando Esteves Domingues

Bispo de Angra presidiu à missa da Solenidade de Todos-os-Santos na Sé

Foto: D. Armando Esteves Domingues, esta manhã na Sé

Na homilia da Solenidade de Todos os Santos, celebrada esta manhã na Sé, D. Armando Esteves Domingues apresentou as Bem-aventuranças como o caminho concreto da santidade, sublinhando que todos são chamados a viver à maneira de Jesus e a reconhecer, como exemplos de vida, tantos santos anónimos que marcaram o seu percurso familiar e humano.

“A santidade não é o isolamento nem a perfeição impecável, mas a ousadia de ultrapassar todas as barreiras para servir o amor”, disse o bispo de Angra desafiando os fiéis a redescobrirem, na Solenidade de Todos os Santos, a santidade como uma vocação acessível a todos, que começa no Batismo e se concretiza nas opções quotidianas, na relação com os outros e na disponibilidade para amar.

“A bola de ouro, deixai usar uma linguagem que todos perceberão,  não se destina a uma elite de grandes vencedores, mas a todos os que viveram o evangelho, que vestiram a veste branqueada do cordeiro”, enfatizou.

O prelado diocesano apresentou as Bem-aventuranças como o verdadeiro guião deste caminho, lembrando que a proposta de Jesus contraria frequentemente os critérios de sucesso e felicidade que dominam o mundo.

“Enquanto o mundo parece medir o sucesso pela riqueza e a felicidade pelo poder, o Senhor promete que os mansos e humildes, os misericordiosos e construtores de paz poderão saborear nesta terra a doçura de Deus”, sublinhou.

Mais do que uma doutrina abstrata, as Bem-aventuranças revelam, segundo D. Armando Esteves Domingues, o próprio segredo da alegria de Jesus e o estilo de vida a que os cristãos são chamados. Trata-se de aprender a viver com “um coração pobre e desarmado”, reconhecendo-se como “mendigos amados”, disponíveis para receber o abraço do Pai.

“Bem-aventurados os pobres é uma afirmação que pode parecer inconcebível à luz da gramática do mundo, mas que traduz precisamente o olhar novo de Deus. Um olhar que desperta uma nova forma de ser e de estar e que, consequentemente, se traduz numa nova maneira de agir” salientou D: Armando Esteves Domingues.

O bispo destacou, neste contexto, a novidade da proposta evangélica, que não se limita a uma lista de proibições ou à obrigação de não fazer o mal.

“Temos agora uma lei que já não tem uma marca negativa, mas positiva, que nos convida à prática generosa do bem”, destacou afirmando uma mudança de perspetiva que coloca o amor e a iniciativa de fazer o bem no centro da vida cristã.

Ao evocar a multidão dos santos, D. Armando Esteves Domingues recordou que os canonizados, aqueles cujo nome a Igreja reconhece oficialmente, representam apenas uma pequena parte dos que alcançaram a salvação em Cristo. São intercessores junto de Deus e exemplos que ajudam os cristãos a caminhar na fé, mas a santidade não se esgota nas figuras reconhecidas pela Igreja.

Foto: Missa na Sé, este domingo

O prelado deixou, por isso, um apelo a que os fiéis reconheçam e sigam também a “mole de santos” que encontraram ao longo da vida: pessoas próximas, familiares e tantos homens e mulheres que, sem protagonismo ou reconhecimento público, viveram o Evangelho através de uma entrega quotidiana.

“Pensamos em tantas mães, as nossas, que gastaram a vida por amor na família, no trabalho, nos campos”, afirmou, evocando igualmente “as vidas jovens ceifadas antes do tempo” e tantas pessoas boas que partiram depois de enfrentarem a doença.

São vidas que, mesmo sem reconhecimento formal, constituem referências concretas de santidade. Pessoas que se deixaram transformar por Jesus Cristo e que, através da sua maneira de viver, se tornaram modelos credíveis para os que continuam a caminhada.

É também a partir destes testemunhos que cada cristão é chamado a compreender a santidade como um percurso possível e próximo, construído nas circunstâncias concretas da existência.

“A santidade é assim um caminho que todos somos chamados a percorrer, desde o Batismo, uma vocação no mundo”, afirmou, apontando para tantos irmãos na fé que se deixaram transformar por Cristo.

Na parte final da homilia, D. Armando Esteves Domingues colocou os fiéis perante uma pergunta essencial: o que diria Jesus sobre o verdadeiro significado de ser bem-aventurado, de ser feliz?

A resposta surgiu sob a forma de uma oração e de uma interpelação, convidando cada pessoa a olhar para a maneira como Jesus se relaciona com os mais frágeis e a reproduzir os seus gestos: aproximar-se dos pobres e daqueles que ninguém quer, escutar os que não têm voz, acolher os que choram, perdoar a quem ofende, receber quem chega e servir, como Jesus fez ao lavar os pés aos discípulos.

“Mas não fiques a olhar para mim… faz o mesmo e vai… ama sem excluir, sem calcular”, foi o desafio deixado nesta reflexão.

A oração prosseguiu com um convite a permanecer junto de Cristo nos momentos em que faltam as forças para amar: “E quando não tiveres forças para amar, fica junto de mim e aprende com o meu coração”.

A reflexão terminou com um regresso ao significado do Batismo e à veste branca que cada cristão recebeu nesse sacramento, imagem da vida nova em Cristo e da vocação à santidade.

D. Armando Esteves Domingues lembrou que os fiéis se reuniram para celebrar e renovar o compromisso de “branquear a veste que vestimos no Batismo”. Essa veste, sublinhou, não pode ser entendida como um simples adereço ou uma recordação bonita.

“Ela não é um adereço, nem uma recordação bonita, é um sinal de identidade e de dignidade nova”, afirmou, explicando que a identidade cristã não se esgota naquilo que somos, temos ou alcançamos.

A data de 1 de novembro, para a Solenidade de Todos os Santos foi adotada em primeiro lugar na Inglaterra do século VIII acabando por se generalizar progressivamente no império de Carlos Magno, tornando-se obrigatória no reino dos Francos no tempo de Luís, o Pio (835), provavelmente a pedido do Papa Gregório IV (790-844).

A partir destes antecedentes, as diversas Igrejas começaram a solenizar em datas diferentes celebrações com conteúdo idêntico.

“Convido-vos a contemplar esta imensa multidão de homens e mulheres que se nos apresentam como sinal profético da vida futura, que já tem o seu início no compromisso e no testemunho cristão da vida terrena”, pediu o Papa Leão XIV, nas saudações finais da audiência geral desta quarta-feira, 28 de outubro, perante milhares de peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano.

No dia 2 de novembro tem lugar a ‘comemoração de todos os fiéis defuntos’, que remonta ao final do primeiro milénio: foi o Abade de cluny, Santo Odilão, quem no ano 998 determinou que em todos os mosteiros da sua Ordem se fizesse nesta data a evocação de todos os defuntos ‘desde o princípio até ao fim do mundo’.

Este costume depressa se espalhou: Roma oficializou-o no século XIV e no século XV foi concedido aos dominicanos de Valência (Espanha) o privilégio de celebrar três Missas neste dia, prática que se difundiu nos domínios espanhóis e portugueses e ainda na Polónia.

Durante a I Guerra Mundial, o Papa Bento XV generalizou esse uso em toda a Igreja (1915).

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