Uruguai: Papa lembra experiência pessoal de doença e pede cuidados de saúde para todos

“Não se pode medir o valor de uma pessoa pelo que ela produz, pelo seu trabalho ou pela sua capacidade de se valer por si própria”, alertou Leão XIV, no discurso inaugural da visita ao país sul-americano

Foto: Vatican news

O Papa evocou hoje na capital uruguaia a sua recente experiência de doença para defender o acesso universal à saúde, apelando à prevenção do suicídio e à proteção da vida.

“Garantir que os cuidados de saúde estejam ao alcance de todas as pessoas, independentemente dos seus recursos, é uma responsabilidade que interpela toda a sociedade. Quem atravessa uma destas situações não deixa de ser um membro da sociedade, com plenos direitos”, declarou Leão XIV, no encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, na Praça da Independência.

Depois de ter sido operado a um pulmão a 13 de outubro, devido a um nódulo cancerígeno em fase inicial, o pontífice recordou quem carece de meios para obter “um diagnóstico adequado ou receber os tratamentos de que precisam”.

“Recentemente, experimentei pessoalmente as limitações impostas pela doença e recebi cuidados pelos quais estou profundamente grato”, indicou.

O discurso, aplaudido por milhares de pessoas, pediu que cada pessoa possa “ser acompanhada até ao fim natural da sua vida”, citando a encíclica ‘Spe salvi’, de Bento XVI.

“Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo. A sua dependência absoluta da mãe não diminui a dignidade que lhe é própria nem a proteção que merece”, indicou, numa crítica indireta à legalização do aborto.

Perante a “dolorosa realidade do suicídio” e da solidão no país sul-americano, o Papa defendeu a articulação entre assistência médica, laços familiares e proximidade comunitária, frisando que “a solidão, a angústia e a perda de esperança podem tornar-se tão profundas que uma pessoa deixe de encontrar razões para continuar a viver”.

“A Igreja contribui com o que lhe é próprio: uma esperança que não se extingue quando os recursos humanos chegam ao limite e que recorda a quem passa por provações que a sua vida conserva sempre sentido e valor, que não está sozinho nem muito menos deixou de ser amado por Deus em meio à escuridão”,disse.

Leão XIV falou com preocupação da evolução demográfica uruguaia, lembrando com São João Paulo II que “o futuro da humanidade passa pela família” e exige condições sociais para que os pais cuidem dos filhos.

“Não se pode medir o valor de uma pessoa pelo que ela produz, pelo seu trabalho ou pela sua capacidade de se valer por si própria”, advertiu.

Na intervenção diante do presidente da República Oriental do Uruguai, Yamandú Orsi, o pontífice observou que a laicidade estatal garante a convivência livre entre crentes e não crentes, mas advertiu que “esta neutralidade não implica que a dimensão religiosa deva ficar confinada à esfera privada”.

Depois de citar a sua encíclica ‘Magnifica humanitas’ para sublinhar que a dignidade humana “não se adquire, nem se merece, e nem precisa de ser demonstrada”, o Papa alertou para o impacto da inteligência artificial, pedindo que o trabalhador “não seja reduzido a uma mera peça dispensável no meio do processo produtivo”.

“A criação de riqueza, o investimento e a iniciativa económica, tanto pública como privada, são necessários para o desenvolvimento de um país, mas os seus frutos devem também traduzir-se em bens e oportunidades que cheguem efetivamente a todos.”

Inspirado nos relevos em bronze do escultor Angelo Zanelli no pedestal do monumento ao herói nacional José Artigas, que retratam o ‘Êxodo do Povo Oriental’ de 1811, a intervenção refletiu sobre a autoridade pública, que encontra “a sua razão de ser no serviço ao bem comum”.

Leão XIV saudou os 40 anos “ininterruptos” de democracia celebrados em 2025 e a transição elétrica do país para fontes quase totalmente renováveis, que considerou “notável”.

O discurso destacou igualmente a vocação pacificadora de Montevideu como sede da Secretaria do Mercosul, e evocou a padroeira nacional, Nossa Senhora dos Trinta e Três, venerada em Florida.

Antes do encontro com os representantes da sociedade civil, o Papa foi acolhido na Praça da Independência por Yamandú Orsi, com quem manteve depois uma audiência privada no Edifício José Artigas.

De acordo com os dados divulgados pelo Gabinete Central de Estatística da Igreja, da Santa Sé, relativos a 2024, os católicos batizados representam 91,7% da população na Argentina (43,17 milhões de habitantes), 91,3% no Peru (31,07 milhões) e 76,9% no Uruguai (2,75 milhões).

Após saudar a multidão na praça, Leão XIV desloca-se para a Catedral da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago, onde preside à celebração de Vésperas com o clero e os consagrados no encerramento do primeiro dia da viagem que prossegue até 17 de novembro, com passagens pela Argentina e o Peru.

Foto: Vatican News

O presidente do Uruguai afirmou, por seu lado, que o país não pode resignar-se aos atuais níveis de pobreza infantil, aos problemas de saúde mental e à solidão dos idosos.

“Não podemos, não queremos resignar-nos nem aceitar que, sendo um país de rendimento médio ou médio-alto, com o produto interno per capita mais elevado da região, tenhamos os níveis de pobreza infantil que hoje temos”, declarou Yamandú Orsi, no discurso de boas-vindas a Leão XIV.

“Não podemos permitir-nos ter os atuais problemas de saúde mental, inclusivamente e especialmente em crianças e adolescentes”, acrescentou o presidente uruguaio.

O chefe de Estado apresentou a visita de Leão XIV como uma oportunidade para reforçar o compromisso com o “desenvolvimento humano integral” e com a promoção do bem comum.

“Não podemos nem devemos resignar-nos a que a nossa gente, em particular os nossos idosos, viva na solidão”, prosseguiu Orsi.

O que os cristãos fizeram e fazem nos bairros, nas prisões, na educação, o refúgio e acompanhamento que a Igreja ofereceu a tantos compatriotas em tempos de ditadura são um exemplo claro dessa vocação.”

Orsi agradeceu a intervenção do Vaticano na defesa dos direitos humanos e valorizou a posição da Santa Sé na promoção da paz.

“Para a humanidade, a paz, o diálogo e a negociação são o único caminho possível”, sustentou.

O presidente uruguaio alertou ainda para os riscos sociais associados às transformações tecnológicas e do mundo laboral.

“Estamos perante um dilema antropológico e social que o senhor identificou claramente”, assinalou, referindo-se aos alertas de Leão XIV sobre o impacto da tecnologia na dignidade humana.

A cerimónia oficial de boas-vindas decorreu na Praça da Independência, após a chegada de Leão XIV ao Aeroporto Internacional de Carrasco, no início da sua viagem apostólica ao Uruguai, Argentina e Peru.

Autoridades governamentais, representantes da sociedade civil, membros do corpo diplomático e mais de 250 artistas participaram na receção ao pontífice.

A visita marca o regresso de um Papa ao Uruguai quase quatro décadas depois da deslocação de João Paulo II, em 1988.

Durante a estadia no país, até domingo, Leão XIV tem previstos encontros institucionais e celebrações em Montevidéu, Paysandú e Florida, antes de seguir para a Argentina e o Peru.

(Com Ecclesia e Vatican News)

Papa iniciou viagem ao Uruguai, Argentina e Peru, após recuperar de intervenção cirúrgica

Scroll to Top