X Colóquio do Atlântico evoca Bartolomeu de Quental e a atualidade do seu legado espiritual

Interioridade, oração e formas de vida são os temas centrais do encontro que reúne investigadores portugueses e brasileiros em Ponta Delgada e Lisboa, dedicado ao sacerdote açoriano que introduziu em Portugal a Congregação do Oratório de São Filipe Néri

Foto: Bartolomeu de Quental

A vida, o pensamento e o legado espiritual de Padre Bartolomeu de Quental, uma das figuras marcantes do catolicismo português do século XVII, estarão em destaque no X Colóquio do Atlântico, subordinado ao tema “Bartolomeu de Quental e a Congregação do Oratório: interioridade e formas de vida”. O encontro propõe uma reflexão sobre a importância histórica, filosófica, religiosa e cultural de um açoriano cuja ação deixou marcas profundas na espiritualidade portuguesa.

Natural dos Fenais da Luz, na ilha de São Miguel, onde nasceu em 1626, Bartolomeu de Quental estudou Teologia e Filosofia na Universidade de Évora, obtendo o grau de Mestre em Artes em 1647. Ordenado sacerdote em 1653, foi nomeado, no ano seguinte, por D. João IV, capelão, confessor e pregador da Capela Real. Apesar da proximidade à corte, a sua vocação orientou-se para uma espiritualidade que procurava unir a oração à transformação concreta da vida.

Foi responsável pela introdução em Portugal da Congregação do Oratório de São Filipe Néri, promovendo uma experiência religiosa assente na oração mental, na meditação, na formação espiritual, na pregação e na vida comunitária. O Oratório tornou-se também um espaço de participação dos leigos, articulando religião, cultura e música.

É precisamente esta articulação entre interioridade e ação que atravessa o programa do colóquio, promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, pelo Centro de Estudos Humanísticos da Universidade dos Açores e pelo Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Universidade Católica Portuguesa, com o alto patrocínio do Governo Regional dos Açores. Realizados anualmente entre Lisboa e os Açores, os Colóquios do Atlântico estudam figuras e contributos açorianos relevantes para o pensamento e a cultura portuguesa.

A primeira jornada decorre a 9 de novembro, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada. Depois da sessão de abertura, José Luís Brandão da Luz apresenta a conferência “A oratória geométrica do Padre Bartolomeu do Quental”. Seguem-se comunicações sobre a correspondência do sacerdote com os Oratorianos de Braga, a relação entre oração e ação, e o seu papel na espiritualidade do Portugal de Seiscentos.

Durante a tarde, Emanuel Oliveira Medeiros aborda a ligação entre Fenais da Luz, Bartolomeu de Quental, educação e oração; Humberto Schubert Coelho reflete sobre a oração mental como exercício espiritual oratoriano; e outros investigadores analisam a pedagogia, a iconografia e o processo de beatificação do sacerdote, estando esta a cargo do cónego António Saldanha e Albuquerque, com o tema “Processo de Beatificação e Canonização do Padre Bartolomeu de Quental: Fé e santidade no Portugal do século XVIII”.  O dia termina com a conferência de Manuel Cândido Pimentel, “A interioridade como forma de vida em Bartolomeu de Quental”.

A dimensão social da sua espiritualidade merece particular atenção. Os testemunhos sobre a sua vida destacam a dedicação aos presos, doentes, famílias pobres e mulheres em situação de marginalização, revelando um sacerdote para quem a oração não se esgotava na experiência individual, mas exigia proximidade, caridade e compromisso com os outros.

A 11 de novembro, no Palácio da Independência, em Lisboa, o colóquio prossegue com a conferência de António Braz Teixeira, “A Congregação do Oratório na Cultura Portuguesa”. O programa inclui ainda reflexões sobre os oratorianos Padre João Baptista e Teodoro de Almeida, a espiritualidade de Quental, a meditação e a contemplação, bem como a sua influência no pensamento contemporâneo. Está igualmente prevista a apresentação da obra “Sena Freitas, entre Portugal e o Brasil”.

Falecido em Lisboa a 20 de dezembro de 1698, Bartolomeu de Quental deixou uma memória de reconhecida reputação de santidade. O seu processo de beatificação foi iniciado, mas não chegou a ser concluído, permanecendo associado à tradição religiosa com o título de Venerável. A sua ligação à história cultural portuguesa estende-se também à genealogia do poeta e pensador Antero de Quental, seu descendente.

Quatro séculos depois do seu nascimento, a evocação de Bartolomeu de Quental constitui uma oportunidade para redescobrir o contributo açoriano para a cultura portuguesa e revisitar questões que permanecem atuais: a relação entre fé e razão, oração e ação, interioridade e responsabilidade social. Um legado nascido nos Fenais da Luz que encontrou expressão nacional e continua a suscitar reflexão sobre o sentido da vida e a formação humana.

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