Visita pastoral às Capelas quer aproximar Igreja de quem está nas margens

Padre Horácio Dutra, ouvidor das Capelas, considera que a visita de D. Armando Esteves Domingues deve ser uma oportunidade para reforçar a proximidade com as comunidades, acolher os mais frágeis e chegar às pessoas afastadas da vida paroquial

Foto: Formação em Santo António

A visita pastoral de D. Armando Esteves Domingues à Ouvidoria das Capelas está a ser preparada com serenidade e expectativa, mas também com a consciência de que este é um momento importante para renovar a relação entre a Igreja e as comunidades.

Para o padre Horácio Dutra, ouvidor das Capelas e pároco de Santo António e Santa Bárbara, o principal desafio é fazer desta visita uma oportunidade de encontro, escuta e acolhimento, particularmente daqueles que se encontram mais afastados da vida paroquial.

“Vamos receber o nosso pai na fé, aquele que é o garante da fé”, afirma o sacerdote, sublinhando o significado da presença do bispo de Angra nas oito paróquias da Ouvidoria, que apresentam realidades sociais e pastorais distintas, desde comunidades rurais a zonas residenciais e com características mais urbanas.

Esta é a primeira visita pastoral de D. Armando Esteves Domingues às comunidades das Capelas e a terceira que realiza na ilha de São Miguel. A preparação envolve o Conselho Pastoral da Ouvidoria e os diferentes órgãos e agentes pastorais das paróquias. Estão previstos encontros com os Conselhos Pastorais e Económicos, instituições, escolas e outros espaços de referência das freguesias, incluindo ermidas e monumentos.

A visita integra ainda dois encontros com o Conselho Pastoral da Ouvidoria, a 16 de novembro, em Santa Bárbara, e a 7 de dezembro, nas Capelas, terminando a 8 de dezembro, com a celebração da festa de Nossa Senhora da Conceição.

Foto: Igreja Açores /JC

Segundo o padre Horácio Dutra, enquanto o clero- servem nesta ouvidoria quatro sacerdotes- mantém já uma relação próxima com o bispo, muitos leigos ainda não tiveram oportunidade de o conhecer pessoalmente. Existe, por isso, alguma expectativa, mas também entusiasmo entre os que estão mais envolvidos na vida das comunidades.

O lema pastoral “Como chegar à Outra Margem” constitui, para o ouvidor, um desafio que não se limita a procurar quem está fora da Igreja. Também dentro das comunidades existem distâncias que importa superar.

“Quem sabe se a outra margem dos nossos leigos não somos nós, sacerdotes?”, questiona, alertando para o risco de os padres serem vistos mais como “funcionários do culto” do que como pessoas próximas e disponíveis para acompanhar os fiéis.

“Às vezes é difícil criar espaço para que aqueles que estão fora possam entrar, porque muitas vezes também nós, que estamos cá dentro, não criamos esse espaço ideal de encontro, de olhar”, acrescenta.

O sacerdote considera que a Igreja precisa de assumir uma verdadeira atitude missionária, na linha do apelo do Papa Francisco a uma Igreja em saída, mas também de recuperar a importância do encontro presencial e da relação humana. A evangelização não pode ficar dependente dos meios tecnológicos: exige disponibilidade para procurar, escutar e olhar as pessoas nos olhos.

A Ouvidoria das Capelas conta com Conselhos Pastorais e Económicos em todas as paróquias e com um Conselho Pastoral de Ouvidoria, sendo a catequese uma das principais estruturas de dinamização pastoral. Existe uma equipa de Ouvidoria que promove iniciativas conjuntas, como a Via-Lucis, a Via-Sacra, encontros e formações.

A vida comunitária é também animada por grupos da LIAM, da Legião de Maria, comunidades do Caminho Neocatecumenal e grupos Cáritas, nomeadamente na Bretanha e nas Capelas. O escutismo está presente através de um agrupamento da Associação dos Escoteiros de Portugal, em Santo António, e de agrupamentos do Corpo Nacional de Escutas nas restantes comunidades.

O trabalho com crianças e jovens é uma das prioridades identificadas pelo sacerdote, que considera necessário chegar às famílias através das novas gerações.

“Há uns anos, quando eu era criança, falavam aos pais para chegar às crianças. Atualmente, temos de falar às crianças para depois conseguir chegar aos pais”, observa.

Esta missão implica também acolher as diferentes realidades familiares, incluindo famílias monoparentais, pessoas recasadas e casais em união de facto. Para Horácio Dutra, a Igreja deve ser um espaço de participação e corresponsabilidade, onde todos encontrem lugar, sem discriminação.

“A Igreja tem de ser mãe e mestra, a casa onde acolhemos todos, todos, todos”, afirma.

Entre os desafios mais urgentes, o ouvidor destaca o acompanhamento dos doentes, idosos e pessoas que vivem isoladas, muitas vezes com pouco contacto humano.

“O telemóvel aproxima de quem está longe e afasta de quem está perto, até à mesa”, ironiza.

A preocupação estende-se também aos jovens, às famílias e aos próprios agentes pastorais, que muitas vezes se encontram cansados, desiludidos ou desgastados pelas dificuldades da vida pessoal e profissional.

A Igreja deve, por isso, ser capaz de transmitir esperança, caridade e misericórdia, mas também de oferecer gestos concretos de proximidade.

“Jesus, por certo, chegaria ao pé destas pessoas e daria algum abraço”, afirma o sacerdote, defendendo que todos os que integram a comunidade eclesial devem assumir uma atitude de acolhimento.

Para Horácio Dutra, a visita pastoral deve servir precisamente para valorizar aqueles que já trabalham nas comunidades e ir ao encontro de quem permanece afastado, por não se sentir acolhido ou por ainda não ter encontrado coragem para regressar.

“Temos de ir acolher na margem exterior para trazer para a margem interior, olhar nos olhos”, conclui o ouvidor das Capelas, apontando a proximidade e o acolhimento como condições essenciais para uma Igreja verdadeiramente missionária.

Esta é a terceira visita pastoral do bispo de Angra na ilha de São Miguel, depois de ter visitado Vila Franca do Campo e os Fenais da Vera Cruz.

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