Açores são a região mais católica do país, mas cresce o número de pessoas sem religião

Novo Mapa da Religião em Portugal revela que 91,6% dos açorianos se identificam como católicos. Alfredo Teixeira, coordenador do estudo, alerta para a erosão da identidade católica e desafia a Igreja a valorizar quem mantém uma ligação à tradição, mesmo estando afastado da prática religiosa

Foto: Ecclesia

Os Açores são a região do país com maior percentagem de população que se identifica como católica: 91,6%, contra uma média nacional de 80,2%. Os dados do novo Mapa da Religião em Portugal revelam, contudo, sinais de mudança no panorama religioso do arquipélago, nomeadamente o crescimento da população sem qualquer pertença religiosa, que aumentou quase 157% entre 2011 e 2021.

Alfredo Teixeira, coordenador do estudo, em entrevista ao Igreja Açores, lembra o arquipélago apresenta uma realidade marcada por uma forte identidade católica, sustentada pela tradição familiar, pela memória coletiva e pela expressividade da religiosidade popular nas festas e celebrações comunitárias.

O investigador ressalva, porém, que a identificação como católico não significa necessariamente uma participação regular na vida das comunidades cristãs. Existe uma parte significativa da população cuja pertença à Igreja se manifesta sobretudo no plano cultural e identitário, mantendo diferentes graus de proximidade à prática religiosa.

É precisamente neste universo que Alfredo Teixeira identifica um importante desafio pastoral. Na sua perspetiva, a Igreja não deve olhar para estes católicos apenas a partir daquilo que lhes falta ou da distância em relação à prática, mas reconhecer a tradição e a memória religiosa como pontos de partida para uma maior aproximação à comunidade cristã.

“Muitas vezes, as lógicas pastorais pensam neste universo apenas do seu défice, ou seja, daquilo que não são, daquilo que ainda não são”, observa, defendendo que, numa região onde a pertença católica é tão expressiva, “seria um erro não considerar esta realidade como um espaço privilegiado de intervenção pastoral”.

O coordenador do estudo alerta também para o crescimento das pessoas sem religião, uma tendência que acompanha a sociedade portuguesa, embora nos Açores parta de uma base mais reduzida. A diversidade religiosa no arquipélago continua a ser limitada, em parte devido à menor expressão dos fluxos migratórios e à condição insular.

Ainda assim, as gerações mais jovens crescem num contexto cultural cada vez mais plural, o que coloca novos desafios à presença da Igreja. Alfredo Teixeira considera que as comunidades católicas terão de desenvolver uma maior capacidade de diálogo com a diversidade religiosa e cultural, podendo também assumir um papel de mediação nos processos de integração e coesão social.

O estudo permite, por outro lado, identificar diferenças entre municípios, oferecendo informação que poderá ajudar a Igreja a adaptar a sua ação às características de cada território.

Apesar de os Açores manterem uma das mais fortes identidades católicas do país, os dados mostram que essa realidade não deve ser confundida com uma vivência religiosa uniforme. Para Alfredo Teixeira, o desafio passa por transformar a pertença cultural e a memória religiosa em oportunidades de diálogo, proximidade e renovação pastoral.

A entrevista com o investigador da Universidade católica Portuguesa pode ser ouvida na íntegra no programa de rádio Igreja Açores que vai para o ar no domingo, dia 8 de novembro, depois do meio-dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores.

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