Vila Franca do Campo destaca-se entre os municípios portugueses, com 96,3% da população a identificar-se como católica. Os dados dos Censos de 2021 confirmam a forte presença do catolicismo no arquipélago, apesar do crescimento da população sem religião e da diversidade religiosa

Os Açores continuam a ser a região de Portugal com a maior percentagem de população católica, com 91,6% dos residentes a identificarem-se com esta confissão religiosa, segundo o estudo Um Atlas da Religião em Portugal, coordenado por Alfredo Teixeira e desenvolvido pelo Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião da Universidade Católica Portuguesa (CITER-UCP), em colaboração com investigadores do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.
Publicado pela Universidade Católica Editora, o estudo, baseado nos dados dos Censos de 2021, traça um retrato da geografia religiosa do país e evidencia diferenças significativas entre as regiões. Depois dos Açores, a Madeira apresenta 90,9% de população católica, seguindo-se o Norte, com 88,1%, e o Centro, com 85,1%. A média nacional situa-se nos 80,2%.
A investigação confirma, assim, a persistência de uma forte identidade católica nos dois arquipélagos, num contexto nacional marcado pela diminuição da pertença religiosa tradicional e pelo crescimento da população que declara não ter religião.
Vila Franca do Campo entre os concelhos mais católicos do país
Ao nível municipal, Vila Franca do Campo mantém-se entre os concelhos portugueses onde a identidade católica apresenta maior expressão. De acordo com os dados analisados, 96,3% da população identifica-se como católica, enquanto apenas 2,9% declara não ter religião e 0,8% pertence a outras confissões religiosas.
O concelho integra, assim, o grupo restrito de municípios portugueses onde mais de 95% da população se identifica como católica, evidenciando uma reduzida alteração da composição religiosa na década entre 2011 e 2021.
O retrato religioso de Vila Franca do Campo acompanha uma realidade demográfica e socioeconómica própria, marcada por uma presença relativamente reduzida de população estrangeira e por uma economia onde a agricultura e as pescas continuam a ter importância. Estes fatores são apontados na análise como elementos que ajudam a contextualizar a menor diversidade religiosa do concelho.
Outros municípios açorianos apresentam igualmente percentagens elevadas de população católica. O Nordeste regista 95,3% e a Povoação 95,2%, seguindo-se Santa Cruz da Graciosa, com 94,9%, e a Ribeira Grande, com 94,3%.
Lagoa e Praia da Vitória apresentam ambas 92,3%, enquanto Ponta Delgada regista 91%. Angra do Heroísmo contabiliza 90,1% e as Lajes do Pico 89,2%. Todos estes valores se encontram acima da média nacional.
Uma identidade religiosa forte, mas em transformação
Apesar da expressão do catolicismo nos Açores, os dados mostram que a Região não está imune às transformações verificadas no conjunto do país. Entre 2011 e 2021, praticamente todos os concelhos açorianos registaram uma diminuição da percentagem de população católica.
Em números absolutos, apenas a Madalena do Pico e Ponta Delgada registaram um aumento de residentes católicos, integrando o grupo de 44 municípios do continente e das regiões autónomas onde se verificou um crescimento deste indicador.
Paralelamente, aumentou a presença de outras confissões religiosas, em particular de comunidades cristãs evangélicas, assim como o número de pessoas que declaram não ter qualquer religião. Ainda assim, os municípios açorianos continuam entre aqueles onde a ausência de filiação religiosa tem menor expressão.
A investigação associa parte destas mudanças à evolução dos movimentos migratórios, nomeadamente à chegada de residentes provenientes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e do Brasil, que contribuem para uma maior diversidade religiosa, sobretudo nos concelhos com maior presença de população estrangeira.
Catolicismo continua dominante a nível nacional
Em Portugal, os dados dos Censos de 2021 contabilizam 7.043.016 católicos entre a população com 15 ou mais anos, menos 3,3% do que em 2011, quando foram registados 7.281.887.
Em sentido inverso, a população que declara não ter religião mais do que duplicou numa década, passando de 615.332 pessoas, em 2011, para 1.237.130, em 2021. Este grupo representa 14,1% da população considerada no estudo.
As outras confissões cristãs correspondem a 4,58% dos respondentes, ultrapassando as 400 mil pessoas, enquanto as religiões não cristãs representam 1,14% da população, perto de 100 mil indivíduos.
Os investigadores sublinham, contudo, que a ausência de pertença religiosa não significa necessariamente a inexistência de crenças ou práticas religiosas, uma vez que os dados dos Censos não permitem identificar estatisticamente todas as formas de religiosidade não associadas a uma confissão.
A Área Metropolitana de Lisboa destaca-se como o principal espaço de diversidade religiosa do país, concentrando 56,1% da população não cristã. Já no Algarve, as outras confissões cristãs têm uma expressão relativa significativa, enquanto o concelho alentejano de Odemira se distingue pelo peso das religiões não cristãs, associado, em parte, à imigração ligada à agricultura intensiva.
Um novo mapa da religião em Portugal
O Atlas da Religião em Portugal reúne e cruza, pela primeira vez, dados censitários de 1900 a 2021, relacionando a pertença religiosa com indicadores como envelhecimento, escolaridade, poder de compra e mobilidade humana.
A obra procura demonstrar que a realidade religiosa portuguesa já não pode ser caracterizada como uma monocultura católica, identificando três tendências principais: a reconfiguração do catolicismo enquanto referência dominante, a consolidação da população sem afiliação religiosa e o crescimento de outras identidades religiosas, sobretudo em contextos urbanos e migratórios.
No primeiro capítulo do estudo, as autoras Helena Vilaça, Margarida Franca e Maria João Oliveira recordam que o recenseamento de 2021 introduziu, por proposta da Comissão da Liberdade Religiosa, as novas opções de resposta relativas às Testemunhas de Jeová, aos budistas e aos hindus, além de associar a designação evangélica à categoria protestante.
Apesar de a pergunta sobre a fé manter o carácter facultativo nos recenseamentos realizados em democracia, a taxa de resposta atingiu um máximo histórico de 97,4% da população elegível, reduzindo os não respondentes de 17,6% em 1991 para 2,6% (229 978 pessoas) em 2021.
No prelúdio da publicação, o coordenador Alfredo Teixeira sublinha que a equipa científica procurou, “pela primeira vez, reunir, analisar, correlacionar e pôr em perspetiva os dados acumulados pelas diferentes séries de inquirição censitária na sociedade portuguesa contemporânea”.
O antropólogo e investigador do CITER destaca ainda, no texto final da obra, que “não é possível já, em termos gerais, falar de uma monocultura católica.
A paisagem religiosa em Portugal organiza-se, assim, em torno de três horizontes: a reconfiguração do catolicismo enquanto referência dominante; a consolidação de uma população sem afiliação religiosa; o crescimento de outras identidades religiosas, sobretudo nos contextos urbanos e migratórios.”