Padre Nuno Pacheco de Sousa defende uma pastoral universitária assente numa fé vivida, para lá dos ritos e alerta para novos caminhos que cheguem aos jovens

Congresso “Desenhar novos mapas de esperança” decorreu em Roma no final da semana passado e contou com mais de 1200 participantes

Foto: Educris

O responsável pela Pastoral Universitária dos Açores considera que a Igreja precisa de compreender a linguagem e as necessidades dos jovens, apostando numa espiritualidade que se concretize na solidariedade e no compromisso social. O desafio é uma das principais reflexões que retém do congresso internacional sobre educação, realizado em Roma sobre o tema Desenhar Novos Mapas de Esperança .

“A universidade, infelizmente tem sido sido e é sempre uma outra margem para nós, Igreja dos Açores, exatamente enquanto não soubermos atravessar esta margem e perceber que símbolos, que forma de falar é que os jovens usam hoje em dia e o que é que eles precisam”, afirma o sacerdote, defendendo uma pastoral universitária mais próxima da realidade dos estudantes e capaz de responder às suas inquietações.

Para o padre Nuno Pacheco de Sousa, um dos desafios da Igreja é garantir que a transmissão da fé não se reduz a ritos e fórmulas cujo significado nem sempre é compreendido pelas novas gerações. A participação em celebrações, por si só, não assegura uma verdadeira ligação à mensagem cristã. É necessário ajudar os jovens a compreender essa mensagem e a encontrar nela sentido para a sua vida.

O sacerdote considera também que a “dimensão espiritual deve ter lugar na formação académica”. Sem confundir espiritualidade com religião, defende que as “universidades devem estar abertas à dimensão interior dos estudantes, professores, investigadores e restantes membros da comunidade académica”.

Esta reflexão ganha particular importância perante o afastamento dos jovens em relação à Igreja, um processo que, sublinha, “começa muito antes da entrada na universidade”. As dificuldades de acompanhamento ao longo da catequese mostram a necessidade de “repensar a forma como a fé é comunicada e vivida desde a infância”.

O desafio torna-se igualmente evidente perante os jovens que se aproximam da Igreja pela primeira vez na idade adulta, pedindo o Batismo e a Confirmação, ou aqueles que regressam depois de um período de afastamento. Para estes percursos, o sacerdote considera essencial uma “Igreja capaz de acolher, escutar e acompanhar”, reconhecendo que a “procura espiritual” pode começar por “experiências de beleza, pelo contacto com o bem ou pelo desejo de encontrar sentido para a vida”.

A solidariedade como caminho para a fé

Entre as respostas possíveis, o padre Nuno Pacheco de Sousa destaca o voluntariado e a intervenção social como dimensões fundamentais de uma espiritualidade mais próxima dos jovens.

Os grupos juvenis mais ativos e aqueles que revelam uma vivência espiritual mais regular são, muitas vezes, também os que participam em iniciativas de voluntariado, integram equipas de solidariedade ou se envolvem em projetos de ação social.

Experiências como a Missão País e a missão “Rabo de Peixe Sabe Sonhar”, desenvolvida há mais de duas décadas, são exemplos de iniciativas que aproximam os universitários das comunidades e das suas necessidades concretas.

Para o sacerdote, o contacto direto com outras realidades permite aos jovens passar dos valores à ação e descobrir o significado da solidariedade através da experiência. O compromisso social não é, assim, apenas uma atividade complementar à pastoral, mas um caminho para aprofundar a fé e construir uma espiritualidade mais encarnada.

Esta perspetiva converge com a mensagem deixada por Marcelo Rebelo de Sousa, antigo Presidente da República Portuguesa, durante o congresso, ao defender uma educação para a paz sustentada no diálogo, na justiça e na solidariedade.

“Se esta onda virada para a fé for uma onda com caridade, há esperança na construção da paz, mas se for uma onda apenas de nome, de rótulo, de rito, de posição intelectual, perderemos uma hipótese única de educar e construir a paz”, afirmou, numa intervenção citada pelo portal Educris, do Secretariado Nacional da Educação Cristã.

Outro dos desafios identificados pelo responsável diocesano é garantir continuidade no acompanhamento pastoral dos jovens, evitando que cada etapa do seu percurso seja tratada de forma isolada.

“Temos de evitar a fragmentação da pastoral”, defende, apontando para a importância de uma articulação entre a pastoral do Batismo, a catequese, a pastoral juvenil, a pastoral universitária e o acompanhamento dos cristãos no mundo do trabalho.

Esta continuidade é essencial para que a entrada na universidade não represente uma ruptura na relação dos jovens com a Igreja. A pastoral universitária deve ser entendida como parte de um percurso mais amplo, capaz de acompanhar as diferentes fases da vida e de responder às mudanças nas necessidades e nas formas de participação dos jovens.

O congresso, subordinado ao tema “Desenhar Novos Mapas de Esperança” e inspirado na carta apostólica homónima publicada pelo Papa Leão XIV em outubro de 2025, reuniu cerca de 1200 participantes de mais de 60 países para refletir sobre os desafios da educação, incluindo a interioridade, a digitalização e a paz.

Na abertura dos trabalhos, o cardeal português D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, desafiou os agentes educativos a reconhecerem o valor de cada estudante, mesmo quando o mundo vê apenas fragilidade, fracasso ou exclusão.

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