“Não existe nenhuma guerra santa: só a paz é santa” – Leão XIV

Papa envia mensagens a responsáveis religiosos de mais de 50 países, reunidos em encontro comemorativo da primeira jornada de oração pela paz

O Papa condenou hoje o uso do nome de Deus para justificar conflitos armados e a corrida ao armamento, numa mensagem em vídeo enviada a responsáveis religiosos de mais de 50 países, reunidos em Assis.

“Não existe nenhuma guerra santa: só a paz é santa”, refere Leão XIV, numa intervenção dirigida aos participantes no encontro internacional ‘Paz desarmada e desarmante’, que hoje termina na cidade italiana.

A iniciativa assinala o 40.º aniversário da primeira jornada mundial de oração pela paz que reuniu, a 27 de outubro de 1986, na cidade italiana de Assis, representantes das grandes religiões mundiais.

Citando a sua encíclica ‘Magnifica humanitas’, Leão XIV adverte os responsáveis dos vários credos que “fazer guerra em nome da religião significa, na realidade, ferir a própria religião”.

“Temos de reconstruir a paz em todo o lado, não preparar outras guerras! A guerra nunca pode fazer-se em nome de Deus”, apela, numa intervenção divulgada pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

O Papa denuncia a “preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional” e lamentou que a acumulação de armas continue a ser vista por muitos como o meio mais eficaz de dissuasão, traindo a memória do “massacre inútil” de milhões de vidas no século XX.

“Precisamente nestes tempos da cultura do poder, é necessário promover o espírito de Assis, que é rejeição da legitimação religiosa da guerra, espírito de mediação e diálogo, experiência contemplativa e ação criativa por um futuro de paz.”

A intervenção, emitida na sessão final do encontro internacional, aponta a paz como “o ideal comum dos povos”, destacando o papel das comunidades religiosas.

“O caminho iniciado em Assis na busca comum pela paz é, em primeiro lugar, via de oração. A oração pode parecer fraca perante as potências do mundo, mas é a força humilde dos fiéis”, assinala o pontífice.

Leão XIV pede a todos que rezem para que Deus possa “tocar o coração daqueles que desejam a guerra e o terrorismo”.

“Não esqueçamos: nunca se reza em vão”, insiste.

O Papa retoma a preocupação com o aumento de “reações fundamentalistas, identitárias e nacionalistas”, nas últimas décadas, com críticas a quem confiou “quase cegamente aos mercados a capacidade de produzir bem-estar, democracia e estabilidade”.

“A globalização não gerou automaticamente unidade e paz”, alerta.

No ano em que se assinala o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, Leão XIV agradece ao Dicastério para o Diálogo Inter-religioso (Santa Sé) e à comunidade católica de Santo Egídio a continuidade dada ao caminho aberto pelos seus predecessores, incluindo o impulso do Papa Francisco.

“O caminho de Assis compromete os líderes religiosos a promover um ambiente de diálogo entre os fiéis e na sociedade, para que a linguagem da arrogância seja substituída por aquela da paz, da negociação e da compreensão. Isto poderá afastar gradualmente a humanidade da espiral da violência”, diz na mensagem.

Promovido desde domingo pela Comunidade de Santo Egídio, com mais de cinco mil participantes e representantes religiosos de mais de 50 países, o encontro de Assis assinalou os 40 anos do primeiro Dia de Oração pela Paz.

“Este evento foi promovido por São João Paulo II que, naquela ocasião, sublinhou o vínculo intrínseco que une uma atitude religiosa autêntica a uma intensa sensibilidade pela paz”, recordou Leão XIV.

“O ‘espírito de Assis’, suscitado por São João Paulo II e continuado pelo esforço do Papa Francisco – no diálogo, por exemplo, com o grande imã de Al-Azhar –, mostra que os crentes podem beber das fontes mais autênticas das suas tradições espirituais, onde não há lugar para o ódio sacralizado”, escreve Leão XIV na encíclica ‘Magnifica humanitas’, citada pelos meios de comunicação do Vaticano.

A 27 de outubro de 1986, a primeira Jornada Mundial de Oração pela Paz reuniu de forma inédita, na cidade italiana ligada à vida de São Francisco, representantes das grandes religiões mundiais sob o princípio “estar juntos para rezar, mas não rezar juntos”, recordou na época o cardeal Roger Etchegaray, responsável pela coordenação da iniciativa.

A síntese histórica publicada pelo portal ‘Vatican News’ destaca momentos simbólicos dessa jornada inaugural, como a entrega de ramos de oliveira por jovens judeus aos representantes muçulmanos, a saudação fraterna entre responsáveis cristãos na Catedral de São Rufino e o aparecimento de um arco-íris após uma manhã cinzenta.

“A própria identidade da Igreja Católica e a consciência que ela tem de si mesma foram reforçadas em Assis”, afirmou João Paulo II à Cúria Romana em dezembro de 1986, antes de sustentar na encíclica ‘Redemptoris missio’, de 1990, que toda a prece autêntica é suscitada pelo Espírito Santo na esteira da declaração conciliar ‘Nostra aetate’.

Poucos meses após os atentados de 11 de setembro de 2001, o pontífice polaco regressou de comboio à cidade franciscana, a 24 de janeiro de 2002, para advertir que “quem utiliza a religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda”.

Na celebração do 25.º aniversário do encontro, a 27 de outubro de 2011, Bento XVI alargou o convite a pessoas não-crentes comprometidas com a procura do bem, definindo-as como “peregrinos da verdade, peregrinos da paz” e exortando os fiéis a purificarem a vivência religiosa de qualquer tentativa de imposição.

Já a 20 de setembro de 2016, o Papa Francisco afastou qualquer sincretismo ou relativismo ao frisar que os líderes reunidos rezaram “uns ao lado dos outros, uns pelos outros”, apontando a indiferença perante os refugiados, os pobres e as vítimas da guerra como uma ameaça tão grave quanto o fanatismo.

Leão XIV decidiu cancelar a deslocação a Assis, prevista para hoje, a conselho dos seus médicos, como forma de “facilitar” a recuperação da cirurgia a que foi submetido no último dia 13, anunciou o Vaticano.

O Papa decidiu cancelar a deslocação à cidade italiana, prevista para hoje, a conselho dos seus médicos, como forma de “facilitar” a recuperação da cirurgia a que foi submetido no último dia 13, segundo anunciou o Vaticano.

Antes da cerimónia final, os participantes promoveram um momento de oração em simultâneo,  juntando os fiéis em vários locais, de acordo com a própria religião.

(Com Ecclesia e Vatican News)

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