Bispo de Angra desafia Romeiros de São Miguel a combater a secularização e a aproximar os jovens da Igreja

Primeiro retiro do ano pastoral do Movimento Romeiros de São Miguel realizou-se este domingo nas Capelas. Estão agendados mais dois: um a 16 de dezembro, para jovens romeiros e outro a 24 de janeiro, de preparação para as romarias quaresmais

O bispo de Angra desafiou hoje os Romeiros de São Miguel a continuarem a ser “o antídoto contra a entrada do vírus da secularização na sociedade”, assumindo um papel ativo na aproximação dos jovens à comunidade cristã e no testemunho de Cristo no mundo. O apelo foi feito esta manhã, nas Capelas, durante o primeiro retiro espiritual do Movimento Romeiros de São Miguel, que marcou o arranque do novo ano pastoral.

Sob o tema “Como chegar à outra margem”, em sintonia com o tema pastoral diocesano, D. Armando Esteves Domingues apresentou uma reflexão sobre o caminho de conversão, acolhimento e missão a que os romeiros são chamados, partindo da passagem evangélica de Jesus pelo mar da Galileia para sublinhar a importância de ir ao encontro daqueles que estão afastados, dos mais frágeis e de quem a sociedade tende a ignorar.

“ Jesus está sempre em caminho”, afirmou, lembrando que Cristo se aproximava de todos, sem distinção, e que a missão dos cristãos passa também por “arriscar o encontro com o outro”. A outra margem, explicou, pode estar nas próprias comunidades, nas paróquias, nas famílias e nas estruturas e movimentos da Igreja, mas também junto dos jovens e de todos aqueles que vivem situações de fragilidade.

O bispo de Angra destacou particularmente as dificuldades enfrentadas pelos jovens, chamando a atenção para o problema da habitação e para os obstáculos à constituição de novas famílias.

“Os jovens são os que mais sofrem”, afirmou, alertando para as dificuldades de quem se aventura a constituir uma família com filhos.

“Pensemos que estamos a pôr em risco uma geração”, advertiu, pedindo aos romeiros que rezem por estes jovens durante as suas romarias, para que encontrem condições para construir o seu futuro.

D. Armando Esteves Domingues apelou, ainda, a uma vivência da fé que ultrapasse os momentos de celebração social, defendendo que os sacramentos devem conduzir à formação de verdadeiros discípulos de Jesus. Nesse sentido, questionou se a catequese está efetivamente a cumprir essa missão e sublinhou a importância de apoiar os párocos e os catequistas na tarefa de aproximar as pessoas de Cristo.

A religiosidade popular e as romarias quaresmais foram igualmente valorizadas como uma presença significativa da Igreja na sociedade. Para o bispo de Angra, os romeiros representam uma oportunidade de levar o Evangelho ao mundo e de contrariar o avanço da secularização, sendo chamados a lançar sementes de esperança e a testemunhar a fé através da sua própria vida.

“O romeiro não caminha sozinho, nem sobrevive sozinho”, recordou, manifestando confiança no Movimento e apelando à participação ativa dos seus membros na vida das comunidades.

“Não deixem que os vossos párocos falem sozinhos ou as catequistas dêem catequese sozinhas. Ajudem a fazer discípulos”, pediu.

Na mesma reflexão, D. Armando Esteves Domimgues lembrou que a caminhada espiritual começa com a disponibilidade para olhar para dentro, reconhecer as próprias fragilidades e libertar-se daquilo que afasta de Deus. Sublinhou, contudo, que a fé não dispensa a responsabilidade individual, afirmando que Deus conta com cada pessoa para transformar a realidade.

O bispo de Angra sublinhou, ainda, que a romaria não deve ser um fim em si mesma, mas uma experiência que prepara os romeiros para viverem a sua fé no quotidiano e no contacto com o mundo. Desafiou-os a manterem-se firmes na sua identidade, sem receio de sair da sua zona de conforto, lembrando que cada um deve assumir a responsabilidade de contribuir para a mudança.

“Se alguma coisa não está a funcionar, é porque eu não estou a fazer a minha parte”, afirmou, recordando que Deus não confinou a missão cristã a um templo ou a uma escola, mas confiou aos homens o mundo e o desafio de caminharem com os outros.

Habitação também preocupa o Movimento

O problema da habitação foi também abordado pelo mestre do Movimento Romeiros de São Miguel, Nuno Furtado, que destacou a importância da solidariedade e do compromisso coletivo perante as dificuldades sociais.

Entre as iniciativas apontadas está a recolha de bens destinados às pessoas em situação de sem-abrigo, procurando proporcionar algum conforto a quem não tem casa, enquanto não existem condições para respostas habitacionais mais estruturadas.

Foto: Igreja Açores/CR

Nuno Furtado, presidente do Grupo Coordenador, defendeu ainda a união e a fraternidade entre os romeiros, lembrando que a força do Movimento depende da capacidade de cada um salvaguardar e valorizar este património espiritual e comunitário.

“Nós sozinhos somos apenas um grupo de homens”, afirmou, manifestando abertura a propostas e contributos que permitam reforçar a ação do Movimento.

Também o padre Eurico Caetano, novo assistente do Movimento, desafiou os participantes a aprofundarem o conhecimento de si próprios e a desenvolverem uma maior abertura ao próximo. A reflexão incidiu sobre a necessidade de superar o comodismo e de reconhecer que a diversidade não é um obstáculo à unidade, mas antes uma oportunidade para promover o diálogo, mesmo entre pessoas com opiniões diferentes.

Mais dois retiros até às romarias quaresmais

O primeiro retiro espiritual do Movimento Romeiros de São Miguel inaugurou o programa de preparação pastoral que continuará nos próximos meses, com mais dois encontros destinados a diferentes momentos da caminhada dos romeiros.

O próximo retiro está previsto para 16 de dezembro, na Lagoa, e será dirigido aos romeiros com menos de 30 anos. Seguir-se-á o retiro anual na Povoação, a 24 de janeiro, já numa fase de preparação mais próxima das romarias quaresmais.

Estes encontros pretendem fortalecer a espiritualidade dos participantes e aprofundar o compromisso do Movimento com a conversão, o acolhimento e a missão, levando os romeiros a transformar a experiência da caminhada numa presença ativa e solidária nas comunidades e na sociedade, através do testemunho, da empatia e da generosidade.

Neste encontro participaram mais de 250 romeiros de todos os ranchos da ilha, incluindo representantes dos dois ranchos da diáspora, segundo dados da direção.

Scroll to Top