Casa do Gaiato celebra 75 anos nos Açores com homenagem à sua história e apelo à solidariedade

A Casa do Gaiato de São Miguel assinala 75 anos de presença nos Açores com uma sessão comemorativa a 15 de novembro, em Ponta Delgada. A instituição alerta para as dificuldades financeiras, resultantes da desatualização dos acordos de cooperação, e destaca o papel da comunidade no apoio às 36 crianças e jovens que acolhe

Foto: Igreja Açores/arquivo

A Obra do Padre Américo nos Açores – Casa do Gaiato de São Miguel celebra 75 anos de atividade com um conjunto de iniciativas dedicadas às crianças e jovens acolhidos, aos colaboradores e à comunidade que, ao longo de décadas, tem acompanhado e apoiado a instituição. O ponto alto das comemorações acontece a 15 de novembro, com uma eucaristia de ação de graças, uma sessão solene e momentos de homenagem a quem contribuiu para a história da obra.

A eucaristia está marcada para as 9h30, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Ponta Delgada, e será transmitida pela RTP1 e pela RTP Internacional. A celebração contará com a participação das diferentes valências da instituição, dos colaboradores e das crianças e jovens acolhidos, bem como de representantes de outras instituições de acolhimento residencial.

Às 16h30, o auditório do Laboratório Regional de Engenharia Civil recebe a sessão solene, presidida pelo bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, que evocará o percurso da Casa do Gaiato desde a sua fundação, em 1951. O programa inclui o reconhecimento de antigos colaboradores e diretores, a homenagem aos trabalhadores atuais e uma evocação daqueles que já faleceram. A sessão contará ainda com um momento musical protagonizado pelo Conservatório Regional de Ponta Delgada.

A escolha do local tem também um significado histórico: o auditório situa-se junto à antiga estação agrária, em São Gonçalo, onde a obra iniciou a sua atividade. Criada pelo Padre Américo, a pedido do então presidente da Junta Geral de Ponta Delgada, Pedro Cymbron, a instituição mudou-se para as Capelas em 1956, devido ao aumento do número de crianças acolhidas. Em 2011, passou a funcionar em duas moradias na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada.

Foto: Os dois últimos presidentes da Fundação Obra do Padre Américo nos Açores

Atualmente, a Casa do Gaiato acolhe 36 crianças e jovens, dos três aos 25 anos, distribuídos por três valências, com a missão de os proteger, educar e preparar para a integração na sociedade.

Para o presidente da Fundação Obra do Padre Américo nos Açores, padre Norberto Brum, o aniversário constitui, acima de tudo, uma oportunidade para valorizar os destinatários da missão da instituição.

“Eles são os primeiros beneficiários das nossas ações”, sublinha o responsável, destacando o envolvimento das crianças e dos jovens nas iniciativas comemorativas. Ao longo do ano, foram promovidas diversas atividades, entre as quais uma viagem de verão às ilhas Terceira, Graciosa e Pico, além de melhorias nas condições de vida da instituição e de iniciativas destinadas a reforçar o convívio, a formação e o bem-estar dos colaboradores.

Apesar do ambiente de celebração, as dificuldades financeiras continuam a marcar o quotidiano da Casa do Gaiato. O padre Norberto Brum considera que os valores previstos nos acordos de cooperação com a Segurança Social estão desatualizados face aos custos atuais de funcionamento, criando um desequilíbrio entre as receitas e as despesas.

“Estamos a receber as verbas da Segurança Social a partir da data em que foram feitos os protocolos e estamos a pagar os funcionários e todas as despesas da instituição com os valores de 2026”, explica o responsável, que reconhece estar em curso um esforço de diálogo com a tutela para tentar regularizar a situação.

Só com colaboradores e funcionários, a instituição despende mais de 55 mil euros por mês. A estes encargos acrescem despesas essenciais, como eletricidade, água, comunicações, alimentação, higiene e manutenção das instalações.

Neste contexto, a colaboração da comunidade assume particular importância, tanto através de donativos monetários como da entrega de bens. Entre os produtos mais necessários encontram-se alimentos, artigos de higiene pessoal, produtos de banho, toalhas, lençóis e material escolar. Uma campanha de regresso às aulas, realizada antes do início do ano letivo, superou as expectativas da instituição.

Para organizar e reforçar esta participação, foi criada a Liga dos Amigos da Casa do Gaiato, cujos estatutos e regulamento foram aprovados no âmbito do ano comemorativo. Segundo o presidente, a estrutura conta já com cerca de 400 associados, que recebem informações regulares sobre a atividade da instituição e sobre as necessidades que exigem resposta.

O responsável salienta a generosidade da comunidade açoriana, em particular das famílias de São Miguel, das empresas, de outras instituições e dos emigrantes, considerando que este apoio representa não apenas um contributo material, mas também uma demonstração de confiança e proximidade com a obra.

Regresso do Natal do Gaiato e recuperação de casa no Faial da Terra

As comemorações prolongam-se até dezembro. No dia 19, a instituição vai recuperar o tradicional Natal do Gaiato, desta vez no Teatro Micaelense. O espetáculo, que no passado se realizava no Coliseu Micaelense, será dirigido às crianças e aos jovens da Casa do Gaiato e das restantes instituições de acolhimento residencial da ilha de São Miguel.

Está também prevista a publicação de uma edição especial, em papel, do antigo jornal Apóstolo da Rua, ligado à história da instituição. A publicação reunirá elementos históricos, testemunhos e memórias de antigos acolhidos e colaboradores, com o objetivo de preservar o legado da obra e dar a conhecer o seu percurso às novas gerações.

Outro dos momentos previstos é a assinatura de um contrato de comodato entre a instituição e a Diocese de Angra, relativo a uma casa situada no Faial da Terra, na ilha de São Miguel. O imóvel, anteriormente ligado ao padre Raul e doado ao Instituto Rainha dos Apóstolos, passou para a Diocese após a extinção daquele instituto.

A recuperação do espaço permitirá voltar a disponibilizar às crianças, aos jovens e aos colaboradores um local para férias, fins de semana e momentos de convívio. A casa encontra-se atualmente degradada, pelo que será necessário desenvolver um processo de reabilitação antes de poder ser utilizada.

O padre Norberto Brum, nomeado presidente da direção da Fundação Obra do Padre Américo nos Açores a 21 de novembro de 2024, considera que os 75 anos constituem também uma oportunidade para agradecer a todos os que contribuíram para a continuidade da instituição e renovar o compromisso com a sua missão.

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