Especialista em educação considera que a escola pública deve preservar o património cultural de matriz religiosa sem impor crenças e alerta para o risco de tradições açorianas perderem espaço no quotidiano escolar

A escola pública não deve ensinar as crianças a acreditar numa religião, mas também não deve impedir que conheçam as tradições que marcaram a história e a identidade das comunidades. Esta é a posição defendida por Adolfo Fialho, especialista em educação básica e formação de professores, numa entrevista ao programa Igreja Açores, que será transmitida na íntegra no domingo, dia 25, às 12h00, na RTPAntena 1 Açores e no Rádio Clube de Angra, ficando posteriormente disponível em podcast em www.igrejacores.pt.
“Acho que a ideia é defender a laicidade, é certo, mas sem empobrecer a cultura”, afirma o professor, para quem a distinção entre transmissão cultural e doutrinação religiosa deve assentar numa reflexão pedagógica, capaz de respeitar diferentes convicções sem apagar a herança histórica.
A entrevista surge na sequência da polémica em torno da inauguração de uma escola pública em Cascais, marcada por uma bênção religiosa e por gestos de oração do Presidente da República em público. A discussão ganha também atualidade com a visita do Papa Leão XIV a França, país historicamente associado à separação entre o Estado e a Igreja.
Para Adolfo Fialho, o princípio fundamental é claro: “A escola não tem, na verdade, de ensinar os alunos a acreditar, mas também não deve impedi-los de compreender aquilo em que tantas gerações acreditaram e que continua a marcar a nossa cultura”.
Nos Açores, onde as festas do Espírito Santo, as romarias quaresmais e as celebrações do Senhor Santo Cristo dos Milagres integram a memória coletiva, esta questão assume particular relevância.
Adolfo Fialho lembra que a história e a geografia do arquipélago contribuíram para uma identidade própria, na qual as manifestações religiosas desempenharam um papel importante na vida comunitária. Muitas destas práticas ultrapassaram, entretanto, a dimensão estritamente religiosa, assumindo também um significado cultural e identitário.
O professor considera que valores como a solidariedade, a partilha, a generosidade, o respeito e a compaixão podem ser trabalhados na escola sem serem associados exclusivamente a uma religião.
“Nem todos os valores universais são um património exclusivo de uma religião”, sublinha, defendendo que as escolas podem reconhecer o contributo histórico das tradições religiosas sem assumir uma posição confessional.
A questão passa, assim, por permitir que todas as crianças conheçam este património, compreendam o seu significado e desenvolvam pensamento crítico, sem serem pressionadas a aderir a uma crença.
Pão por Deus e Halloween: dois pesos e duas medidas?
O exemplo do Pão por Deus e do Halloween ilustra as dúvidas que podem surgir na abordagem destas matérias. Adolfo Fialho questiona a forma como a escola acolhe celebrações de origens diferentes e alerta para o risco de tradições enraizadas nas comunidades perderem espaço perante manifestações culturais importadas.
A questão não está em rejeitar o Halloween, mas em compreender por que razão algumas práticas são acolhidas com naturalidade enquanto outras suscitam reservas devido à sua origem religiosa.
Para o especialista, a resposta não deve ser a exclusão automática das tradições de matriz cristã, mas a sua contextualização histórica e cultural. O critério deve ser a forma como são trabalhadas: conhecer uma tradição não significa impor a fé que lhe deu origem, afirma.
“Temos que encontrar aqui um ponto de equilíbrio e distinguir o que é doutrinação daquilo que é conhecimento, expressão cultural e formação humana”, sublinha
Evitar conflitos não pode significar apagar tradições
Com cerca de três décadas de experiência no ensino e na formação de professores, Adolfo Fialho admite que algumas manifestações tradicionais têm vindo a ser evitadas nas escolas por receio de gerar desconforto ou conflitos.
“É um perigo real”, responde quando questionado sobre a possibilidade de a herança cultural açoriana ser ameaçada por interpretações excessivamente restritivas da neutralidade religiosa.
O professor estabelece um paralelo com o Dia do Pai e o Dia da Mãe. Embora estas celebrações possam ser delicadas para crianças que perderam um dos progenitores, vivem em instituições ou pertencem a configurações familiares diferentes, a solução não tem de passar pela eliminação das datas.
Pode, antes, consistir na adaptação das atividades, permitindo que cada criança reconheça a pessoa que desempenha um papel de cuidado, proteção e afeto na sua vida.
“Encontramos muitas vezes soluções alternativas para essas situações”, explica, defendendo uma abordagem semelhante às tradições religiosas: preservar o seu potencial educativo, respeitando as diferenças e evitando situações de exclusão.
A reflexão sobre as tradições conduz a uma preocupação mais ampla de Adolfo Fialho: a formação humana das novas gerações.
O professor manifesta preocupação com o tempo que as crianças passam diante dos ecrãs e com a diminuição das oportunidades de brincar em conjunto, partilhar experiências, aprender a esperar e reconhecer as necessidades dos outros. Considera que a exposição às redes sociais e à desinformação não substitui as experiências concretas de convivência essenciais ao desenvolvimento de competências socioemocionais.
“A escola também educa para a vida em comunidade”, recorda, defendendo que a solidariedade, a empatia e a ajuda mútua devem ser vividas nas relações quotidianas, e não apenas ensinadas teoricamente.
Neste contexto, as tradições comunitárias podem constituir oportunidades para conhecer a história, participar na vida coletiva e aprender a respeitar diferentes perspetivas.
“Não é afastar os alunos de tudo aquilo em que a gente não acredita, mas dar-lhes conhecimento, pensamento crítico e liberdade para poderem compreender, questionar e escolher”, sintetiza.
A perspetiva de Adolfo Fialho tem também raízes no seu percurso de vida. Nascido e criado numa família católica na freguesia do Salão, na ilha do Faial, participou na catequese, em grupos juvenis e na pastoral, tendo colaborado igualmente na preparação de casais para o matrimónio religioso.
O próprio reconhece a influência dessas experiências na construção da sua identidade e dos valores que considera fundamentais para a vida em sociedade.
“Não porque usei muitos terços, mas porque permitiram encontrar aqui o meu lugar no mundo, conhecer-me enquanto pessoa e relacionar-me com os outros”, afirma.
A esta vivência junta-se uma carreira de cerca de 30 anos no ensino e na formação de professores, área em que sempre valorizou o desenvolvimento integral das crianças, nas dimensões física, psicológica, social, relacional e moral.
É dessa conjugação entre experiência pessoal e profissional que resulta a defesa de uma escola capaz de reconhecer a herança cultural das comunidades sem transformar esse legado numa obrigação de fé.
A entrevista pode ser ouvida na íntegra no domingo na RTP Antena 1 Açores no programa de rádio Igreja Açores ou aqui em podcast.