Esta semana assinalou-se o dia do Cuidador Informal. É o tema da entrevista do programa de rádio Igreja Açores deste domingo

Cuidar de quem mais precisa exige tempo, disponibilidade, paciência e dedicação, mas também implica desafios que nem sempre são reconhecidos. Susana Cardoso, cuidadora informal de familiares e de pessoas da comunidade, na Agualva, na ilha Terceira, considera que o amor ao próximo é a principal força para continuar, embora reconheça que cuidar dos mais próximos pode ser particularmente exigente.
“Quem faz por amor nunca é muito difícil”, afirma Susana Cardoso resumindo assim a experiência de vários anos dedicados ao cuidado de pessoas em situação de dependência. Uma missão que passou pela assistência a idosos e familiares e que, atualmente, passa pelo trabalho num centro de dia, onde continua a encontrar no carinho e na proximidade uma parte essencial do cuidar.
Ao longo deste percurso, Susana chegou a acompanhar três pessoas dependentes em simultâneo, assegurando os cuidados de higiene logo pela manhã. Começava às sete horas e, entre uma casa e outra, só regressava a casa por volta do meio-dia.
A exigência não se limitava aos cuidados básicos. O acompanhamento de pessoas com diferentes graus de dependência obrigou-a também a adquirir conhecimentos e a aprender procedimentos que não faziam inicialmente parte das suas competências. Recorda, em particular, um idoso que necessitava de cuidados específicos na boca, tendo sido uma enfermeira a ensiná-la a prestar essa assistência.
A experiência de Susana mostra que ser cuidador implica muito mais do que assegurar a higiene, a alimentação ou a mobilidade de quem está dependente. Exige capacidade de adaptação, aprendizagem constante e disponibilidade para responder às necessidades de cada pessoa.
Entre as experiências que marcaram o seu percurso está também o cuidado dos próprios familiares, nomeadamente dos pais, sogros e cunhados. Uma realidade que, na sua opinião, pode ser emocionalmente mais difícil do que cuidar de pessoas sem uma relação familiar direta.
“Cuidar dos outros é sempre mais fácil do que cuidar dos nossos”, afirma. Susana explica que, fora do contexto familiar, o trabalho do cuidador tende a ser recebido com maior reconhecimento, enquanto em casa existe, por vezes, uma expectativa de disponibilidade permanente.
“Em casa, os familiares dizem uma coisa que eles não querem ouvir. […] e reagem de forma mais negativa”, afirma.
A proximidade e a convivência diária tornam também mais difíceis algumas situações. Quando os cuidados são prestados a familiares, há tarefas domésticas e outras responsabilidades que têm de ser conciliadas com as necessidades de quem depende de ajuda. Nem sempre é possível responder imediatamente aos pedidos, o que pode gerar incompreensão.
Ainda assim, Susana não deixa de considerar o cuidado uma missão de grande valor humano.
“A gente chega para fazer a higiene a um velhinho e alguém nos diz assim: tu fazes aquilo que eu não consigo fazer”, recorda, destacando a importância do reconhecimento por parte de quem recebe os cuidados.
A fé teve igualmente um papel importante neste caminho. A viver junto à igreja da Agualva, Susana encontrou muitas vezes na oração um espaço para procurar forças, sobretudo durante o período em que acompanhou a mãe.
“Quando eu cuidei da minha mãe senti muita necessidade, quase todos os dias ia lá”, recorda. Perante o sofrimento da mãe, sentia também o seu próprio sofrimento e procurava na oração a força necessária para enfrentar os dias mais difíceis. Por isso, acredita que a fé se constrói também através da relação com os outros e daquilo que cada pessoa é capaz de fazer pelo próximo.
“A Igreja somos cada um de nós”, afirma, considerando que os ensinamentos escutados nas celebrações devem traduzir-se em gestos concretos no quotidiano.
É também no contacto com as pessoas cuidadas que encontra uma das maiores recompensas desta missão.
“Aquele sorriso de a gente chegar lá e aquele abraço deles ajuda-nos a viver, a dizer obrigado a Deus porque estou neste caminho”, afirma.
Apesar de reconhecer o acolhimento e o apoio que encontrou nas famílias por onde passou, Susana considera importante que os cuidadores informais sejam mais valorizados e reconhecidos pela sociedade, incluindo através de apoios que tenham em conta as exigências desta missão.
Questionada sobre a necessidade de maior reconhecimento financeiro e institucional, defende que deve existir mais consideração por quem assume estas responsabilidades, lembrando que “não é muito fácil, quase nunca é fácil”..
A reflexão ganha particular relevância no contexto das reivindicações da Associação Nacional de Cuidadores Informais (ANCI), que, por ocasião do Dia Nacional do Cuidador Informal, voltou a pedir ao Governo um Plano de Ação Nacional para os Cuidadores Informais 2027-2030, com medidas calendarizadas, financiamento identificado, entidades responsáveis e indicadores públicos de execução.
Sete anos depois da aprovação do Estatuto do Cuidador Informal, em 2019, a associação considera que continua a existir uma distância entre o reconhecimento legal e a proteção efetiva de quem cuida. No manifesto divulgado, a ANCI defende que não basta anunciar medidas, sendo necessário avaliar se estas chegam efetivamente às pessoas e melhoram as suas condições de vida.
A associação sublinha ainda que o reconhecimento jurídico representou um marco importante, mas considera que a realidade quotidiana das famílias continua sem mudanças suficientes.
Mãe de três filhos, hoje adultos, e avó de uma neta de 15 anos, Susana Cardoso olha para o percurso com emoção e gratidão.
“Eu sou uma pessoa grata. Orgulhosa de tudo aquilo que fiz”, afirma, recordando os olhares e os gestos de carinho das pessoas que acompanhou.
Atualmente, continua a dedicar-se ao cuidado dos idosos num centro de dia, onde considera que a atenção e a proximidade são tão importantes como a assistência física. Mesmo quando as pessoas mantêm autonomia na mobilidade, precisam de companhia, afeto e atenção.
“Estão sempre à espera de um beijo, de um carinho”, conta, descrevendo a forma como procura acolher cada utente, incluindo nos momentos de chegada e de despedida.
As atividades e os passeios organizados pelo centro de dia, incluindo deslocações a Fátima e ao Santo Cristo, fazem também parte deste acompanhamento, exigindo atenção às necessidades e limitações de cada idoso.
Quando questionada se continuará a cuidar de alguém até ao fim da vida, Susana não hesita: “Sim, sim, sim. Isto é o que eu mais quero”.
A entrevista de Susana Cardoso pode ser ouvida na íntegra, na primeira pessoa, este domingo depois do meio-dia no Rádio Clube de Angra e na Antena 1 Açores. Também fica disponível em podcast em www.igrejaacores.pt