
O Papa desafiou hoje os bispos de todo o mundo a promover jornadas de “oração e jejum” pelas vocações, inspirados pela experiência do Uruguai após um ano sem novos candidatos ao seminário interdiocesano.
“Gostaria que esta experiência do Uruguai encontrasse eco em toda a Igreja”, afirmou Leão XIV, falando na Catedral Metropolitana da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago, em Montevidéu.
“Que as paróquias, as famílias e as comunidades religiosas se unam nesta súplica”, apelou o pontífice.
O Papa recordou a uma situação concreta vivida pela Igreja uruguaia, há dois anos.
“Quando, em 2024, o seminário interdiocesano não recebeu novos candidatos, muitos fiéis começaram a reunir-se em momentos de oração e jejum para pedir ao Senhor que enviasse trabalhadores para a sua messe”, explicou.
“Hoje damos graças porque vários jovens iniciaram o seu caminho no seminário e na vida consagrada e estão sentados no meio de nós”, disse.
Na homilia das oração de Vésperas, com a participação de bispos, membros do clero, de institutos religiosos e seminaristas, o Papa ligou a renovação vocacional ao testemunho dos cristãos num mundo onde muitos “mal conhecem Jesus Cristo e tantos jovens cresceram longe da vida da Igreja”.
“Que, ao verem como olhamos para os outros, como escutamos ou como nos aproximamos de quem sofre, isso possa suscitar neles a pergunta: de onde nasce este amor?”, desejou Leão XVI.
O pontífice alertou também para o risco de os consagrados perderem de vista o essencial da sua vocação.
“Por vezes, o coração pode ficar preso a uma obra que consideramos nossa, ao reconhecimento que recebemos ou à tranquilidade de ter tudo sob controlo”, observou, referindo-se ao coração humano.
“Guardai o silêncio da oração, a escuta da Palavra, o encontro com Cristo na Eucaristia”, pediu aos sacerdotes, religiosos e seminaristas.
“A constância vai deixando uma marca. Com o passar dos anos, o olhar pode tornar-se mais misericordioso, as mãos mais dispostas a servir e as palavras mais capazes de consolar.”
Antes da homilia, o presidente da Conferência Episcopal do Uruguai, D. Milton Luis Tróccoli Cebedio, apresentou ao Papa as dificuldades enfrentadas pelo país, referindo famílias sem condições para uma vida digna, jovens sem esperança, migrantes afastados da sua terra e idosos que vivem em solidão.
“Há um rosto, uma história que precisa de saber que a sua vida realmente importa”, afirmou.
A celebração das Vésperas decorreu algumas horas após a chegada de Leão XIV a Montevidéu, na primeira etapa da sua viagem apostólica ao Uruguai, Argentina e Peru.
A caminho da Sé, o pontífice recebeu as chaves da cidade da capital uruguaia.
Na primeira missa que celebrou, o Papa pediu aos católicos que construam pontes e a transmitir a fé às novas gerações, numa celebração que reuniu cerca de 40 mil pessoas na região ocidental do Uruguai.

“Que importante é ser construtor de pontes!”, afirmou Papa Leão XIV, na Missa celebrada no Parque París Londres, em Paysandú, defendendo que essa a vocação dos cristãos passa por “unir, comunicar e transmitir a alegria da fé”.
“Sejam pontes, para que muitos se encontrem com Jesus”, apelou o pontífice, na sua homilia.
Naquela que foi a primeira celebração eucarística da viagem em solo uruguaio, Leão XIV utilizou três símbolos associados à região de Paysandú para desenvolver a homilia: a ponte internacional General Artigas, os palmeirais e o mate.
O Papa apresentou a ponte como imagem da missão da Igreja numa sociedade marcada por divisões e lembrou que a unidade exige fundamentos sólidos.
“Precisamos de estar bem preparados para dar as razões da nossa fé a quem quer que no-las peça”, afirmou, advertindo contra a influência de “doutrinas diversas e estranhas”.
Sobre os palmeirais, o pontífice destacou a importância das raízes comuns e da vida comunitária.
“A Igreja é uma comunidade de irmãos que tem raízes profundas, alimentando-se de uma fonte comum: a Palavra de Deus, os Sacramentos, a oração e a ação caritativa”, declarou.
Ao evocar o mate como símbolo nacional, Leão XIV sublinhou os valores da amizade, da partilha e do encontro.
“O mate é sinal de familiaridade, amizade e convívio”, referiu.
“Ensina-nos a partilhar e a estar juntos, a estreitar os laços que nos unem e nos tornam irmãos. É sinal de acolhimento, integração e valores comuns.”
O Papa alertou também para a necessidade de assegurar a transmissão da fé num país onde o catolicismo faz parte da identidade nacional desde as suas origens.
“É necessário continuar formando as crianças e os jovens na fé, a acompanhar as famílias, a apoiar os idosos e a praticar as obras de caridade”, afirmou.
A celebração incluiu uma homenagem ao Beato Jacinto Vera, primeiro bispo de Montevideu, apresentado pelo Papa como testemunha de fé, de caridade e de reconciliação durante a histórica defesa de Paysandú, em 1864.
A celebração reuniu fiéis da Igreja uruguaia e peregrinos da Argentina e do Brasil, no segundo dia da viagem apostólica de Leão XIV à América Latina, que decorre até 17 de novembro.
“Cristo conta convosco! Cristo conta contigo!”, disse o Papa aos participantes.
O regresso de Leão XIV a Montevidéu está agendado para as 13h30 locais (16h30 em Lisboa), seguindo-se durante a tarde um encontro privado com religiosos agostinianos, uma paragem na casa sacerdotal Monsenhor Jacinto Vera, a visita ao bairro periférico de Casavalle, uma sessão na Universidade Católica e uma vigília de oração com jovens no Estádio Centenário da capita do Uruguai, um dos países mais secularizados da América Latina.
A deslocação marca o regresso de um Papa ao Uruguai quase quatro décadas depois da visita de João Paulo II, em 1988.