“O amor nunca falha”: Frederico Lourenço propõe uma leitura de São Paulo para um mundo polarizado

Frederico Lourenço apresentou São Paulo como uma figura cuja mensagem ultrapassa a leitura literal, destacando o amor – ágape – como chave para compreender a sua teologia e a vocação cristã para a comunhão

Foto: Igreja Açores

Ler São Paulo à letra pode criar distância entre a mensagem do apóstolo e o mundo contemporâneo. Foi a partir desta tensão que Frederico Lourenço construiu a sua lição de sapiência sobre “São Paulo, Apóstolo e poeta”, proferida no âmbito da abertura da Escola Diocesana de Formação da Diocese de Angra, no Hotel Palácio de Santa Catarina, na ilha Terceira.

O professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tradutor da Bíblia chamou a atenção para algumas das passagens das cartas paulinas que, interpretadas literalmente nos dias de hoje, levantam questões particularmente difíceis, nomeadamente no que respeita ao lugar das mulheres, à escravidão, à homossexualidade e até às posições políticas que podem ser construídas a partir de determinados textos.

A questão, sublinhou, não é simplesmente saber se Paulo pode ou não ser seguido literalmente, mas perceber como interpretar uma palavra escrita num determinado contexto histórico sem a transformar numa norma absoluta para todos os tempos, como alguns sectores podem ter a tentação de fazer.

A leitura de Paulo torna-se particularmente complexa quando confrontada com questões contemporâneas. Frederico Lourenço referiu, entre outros exemplos, a utilização de determinadas passagens paulinas para sustentar a exclusão das mulheres de lugares de serviço e de ministérios na Igreja. Também no que respeita à homossexualidade, recordou que determinadas interpretações de Paulo estiveram historicamente associadas a posições de condenação, incluindo a defesa da pena de morte para pessoas homossexuais.

O problema, porém, não se limita a estas questões. Uma leitura literal de Paulo pode igualmente ser mobilizada em debates políticos contemporâneos. Frederico Lourenço apontou para a realidade dos Estados Unidos como exemplo do risco de transportar diretamente para o presente formulações e categorias de um autor situado num contexto histórico radicalmente diferente.

Mas esta leitura, disse, não pode fazer esquecer o outro Paulo, aquele que, para o catedrático de Cultura clássica, introduziu uma ideia profundamente revolucionária no cristianismo nascente.

É precisamente aí que a aparente contradição se torna mais interessante: para avançar, a Igreja não pode simplesmente abandonar Paulo, porque foi também Paulo quem formulou uma das ideias mais transformadoras da comunidade cristã primitiva a de que, diante de Deus, os seres humanos não se dividem em categorias.

“Todos nós que professamos Jesus somos um em Cristo”, é a ideia que atravessa essa visão paulina. Os seres humanos, vistos por Deus, não se repartem por categorias: são todos filhos de Deus e, por isso, irmãos.

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