Cáritas da ilha Terceira alerta para discursos que alimentam a desconfiança em relação aos pobres

Dirigente da instituição considera que a radicalização do discurso público sobre as pessoas vulneráveis pode dificultar o combate à pobreza e leva às Jornadas Nacionais da Pastoral Social preocupações com a habitação, o acesso à saúde e os cuidados continuados. Nos Açores, reforça os projetos de proximidade às comunidades e de integração profissional dos jovens

Foto: Ação de formação Cáritas da ilha Terceira/arquivo

A radicalização dos discursos sobre a pobreza e as pessoas em situação de vulnerabilidade pode constituir um entrave ao combate à exclusão social, ao alimentar a desconfiança e uma visão distorcida de quem precisa de ajuda. O alerta é deixado pela Cáritas da ilha Terceira, que considera necessário contrariar as narrativas que responsabilizam os mais pobres pela sua situação e que não refletem a diversidade das realidades de pobreza.

Maria do Natal Sousa, responsável pela Cáritas da ilha Terceira reconhece que os discursos mais polarizados, incluindo os provenientes de setores políticos, têm impacto na forma como a sociedade olha para as pessoas que enfrentam dificuldades económicas. Ainda assim, acredita que as vozes de solidariedade e de preocupação com os outros continuam a ser maioritárias.

“Eu acho que precisamos de estar atentos a isso, mas continuo a considerar que as outras vozes, em defesa dos mais frágeis, são em maior número e mais fortes. Nós queremos fazer parte dessas vozes e compreender a dificuldade de tantas e tantas pessoas”, afirmou em declarações ao Sítio Igreja Açores da Diocese de Angra.

É também esta preocupação que a Cáritas pretende levar às Jornadas Nacionais da Pastoral Social, onde participará na discussão de temas considerados prioritários para a intervenção social, nomeadamente a habitação, o acesso à saúde e os cuidados continuados.

A instituição defende que o combate à pobreza exige não só respostas materiais, mas também a capacitação das pessoas, o reforço dos direitos e a promoção de uma sociedade mais atenta às diferentes formas de vulnerabilidade.

Entre as principais preocupações da Cáritas  da ilha Terceira está o acesso a habitação digna, a preços comportáveis. Na ilha Terceira, a instituição identifica situações em que os encargos com a casa absorvem mais de metade dos rendimentos familiares, deixando pouco espaço para responder a despesas inesperadas, nomeadamente na área da saúde.

A dificuldade em encontrar habitação a preços acessíveis junta-se à degradação de algumas casas e à falta de condições adequadas de habitabilidade. Uma renda mensal de cerca de 500 euros por uma habitação com dois quartos, referida na entrevista como um valor mínimo em determinadas zonas da ilha, representa um encargo particularmente pesado para famílias com baixos rendimentos e filhos a cargo.

A Cáritas da ilha Terceira alerta que a pobreza não se manifesta apenas nas situações de privação extrema. Existem também famílias que, apesar de terem emprego ou algum rendimento, vivem no limite da sua capacidade financeira e podem entrar rapidamente em situação de vulnerabilidade perante qualquer imprevisto.

“A dita pobreza envergonhada existe, é mais difícil de detetar e exige um esforço maior da nossa parte para intervirmos”, refere

É tendo em conta esta realidade que a Cáritas tem reforçado a intervenção de proximidade através do Movimento Comunidades Vivas, que procura apoiar os movimentos já existentes nas comunidades e fortalecer as redes locais de solidariedade.

A avaliação inicial é considerada positiva, sobretudo pelo maior envolvimento das populações e pela identificação de situações que dificilmente chegariam aos serviços de apoio mais formais.

A instituição destaca o aumento da sinalização de casos de pobreza envergonhada, vivida por pessoas que, por vergonha ou dificuldade em pedir ajuda, não procuram espontaneamente os apoios disponíveis.

O projeto pretende precisamente aproximar a intervenção social das comunidades, capacitando quem está no terreno para reconhecer os problemas e encaminhar as pessoas para as respostas adequadas.

Nesse âmbito, a Cáritas da ilha Terceira está também a reforçar a formação de voluntários, com várias ações previstas durante o mês de outubro. A adesão registada em diferentes comunidades é vista como um sinal encorajador da disponibilidade das pessoas para participar e colaborar na resposta aos problemas sociais.

A instituição acredita que esta proximidade pode fazer a diferença na luta contra a pobreza, através de pequenas mudanças concretas na vida de quem vive em situação de fragilidade.

A formação e a empregabilidade dos jovens constituem outra das prioridades da intervenção da Cáritas nos Açores. Através do projeto Voo, a instituição tem apoiado a integração profissional de jovens, com resultados que considera positivos e que terão mesmo superado algumas das expectativas iniciais.

“A colaboração do tecido empresarial tem sido determinante para facilitar o acesso destes jovens ao mercado de trabalho” reconhece a dirigente.

A Cáritas considera que a integração profissional, quando acompanhada de condições de trabalho dignas, contribui para a autonomia pessoal e económica e representa também um instrumento de inclusão social.

A intervenção junto da infância e da juventude mantém-se igualmente entre as áreas de atuação da instituição, que defende a continuidade do investimento na formação e na capacitação das pessoas para que possam exercer plenamente os seus direitos e participar na vida das comunidades.

Apesar das dificuldades persistentes no arquipélago, a Cáritas da ilha Terceira rejeita que a situação dos Açores seja uma fatalidade. A instituição reconhece que a Região continua abaixo de grande parte do território nacional em vários indicadores sociais e económicos, mas considera que também se verificaram evoluções positivas.

A resposta, defende, passa por dar continuidade ao trabalho de capacitação, reforçar a proximidade às populações e garantir melhores condições de acesso aos direitos e às oportunidades.

A participação nas Jornadas Nacionais da Pastoral Social será, assim, uma oportunidade para partilhar preocupações identificadas no terreno e discutir respostas para problemas que afetam as populações mais vulneráveis.

Entre os objetivos está também contrariar uma visão redutora da pobreza, que tende a associá-la a comportamentos individuais ou a decisões erradas, ignorando as dificuldades económicas, os encargos com a habitação e outras condicionantes sociais que podem empurrar as famílias para situações de exclusão.

Para a Cáritas, combater a pobreza implica reconhecer a diversidade das suas causas e manifestações e mobilizar a sociedade para uma resposta que combine apoio, proximidade, formação e solidariedade.

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