Por António Maria Gonçalves

Em 2009, a Ilha das Flores recebeu uma distinção que nos encheu, justificadamente, de orgulho: passou a integrar a Rede Mundial de Reservas da Biosfera da UNESCO.
Não foi propriamente uma surpresa para quem conhece a ilha. A paisagem, a riqueza dos ecossistemas, as lagoas, cascatas e falésias, o mar, a biodiversidade e a extraordinária presença da água justificavam amplamente o reconhecimento. Mas uma Reserva da Biosfera não é apenas natureza. É também gente.
E talvez seja esse o aspeto que mais importa recordar.
A filosofia destas reservas procura conciliar a conservação do património natural com a presença humana, o desenvolvimento sustentável, a cultura e os modos de vida das comunidades. Nós, florenses, também fazemos parte da Reserva da Biosfera.
Quando a classificação chegou, criou-se uma expectativa compreensível. Acreditávamos que a distinção poderia dar maior projeção à ilha, aumentar a sua notoriedade internacional e constituir uma mais-valia para o turismo, para os produtos locais e para outras atividades económicas.
Durante algum tempo, até nos aviões que aterravam nas Flores se anunciava que estávamos a chegar a uma ilha classificada pela UNESCO como Reserva da Biosfera. Era uma frase simples, mas dizia alguma coisa a quem chegava: este território possuía um reconhecimento internacional especial.
Entretanto, essa referência desapareceu.
É apenas um pormenor. Mas talvez seja uma boa imagem para uma pergunta mais ampla: dezassete anos depois, que presença tem hoje a Reserva da Biosfera na vida das Flores?
A pergunta não pretende diminuir a importância da classificação. Pretende exatamente o contrário: perceber se estamos a aproveitar plenamente uma distinção que outros territórios certamente gostariam de possuir.
Houve trabalho. A Reserva da Biosfera das Flores foi objeto da sua primeira revisão periódica em 2019 e, em 2020, foi aprovado um Plano de Ação que contemplava conservação da natureza, educação ambiental, desenvolvimento sustentável, promoção turística, produtos locais, investigação e participação da comunidade.
A classificação, portanto, não ficou esquecida numa gaveta.
Mas entre aquilo que as instituições fazem e aquilo que uma população reconhece como resultado existe, por vezes, alguma distância. E é essa distância que talvez valha a pena avaliar.
Quantas pessoas das Flores sabem hoje explicar o que significa viver numa Reserva da Biosfera? Quantos empresários utilizam essa distinção para valorizar alojamentos, restauração, animação turística ou produtos locais? Quanto contribuiu a marca para diferenciar as Flores de outros destinos? E que benefícios conseguimos identificar que não teriam provavelmente existido sem ela?
São perguntas, não conclusões.
Até porque seria precipitado atribuir à classificação o crescimento turístico registado nas Flores. O turismo aumentou em todo o arquipélago, incluindo em ilhas que não são Reservas da Biosfera. É precisamente por isso que, passados dezassete anos, seria interessante conhecer uma avaliação acessível dos resultados: não apenas das ações realizadas, mas dos efeitos produzidos na economia, na comunidade e na projeção da ilha.
E talvez estejamos hoje perante uma questão diferente daquela que se colocava em 2009.
A beleza das Flores tornou-se conhecida muito para além dos Açores. As imagens das lagoas, da Fajã Grande, do Poço da Ribeira do Ferreiro, da Rocha dos Bordões e das nossas falésias circulam pelo mundo com uma facilidade que então não existia. As redes sociais fizeram pela divulgação de lugares remotos aquilo que antes exigia grandes campanhas de promoção.
Será então que já não precisamos da designação de Reserva da Biosfera?
Talvez seja precisamente o contrário.
Num tempo em que é relativamente fácil promover um destino, o verdadeiro valor da classificação poderá já não estar simplesmente em trazer mais turistas, mas em ajudar a definir que turismo queremos receber.
Uma pequena ilha não pode medir o sucesso turístico apenas pelo crescimento contínuo do número de visitantes. Tem limites físicos, ambientais e humanos. A Reserva da Biosfera poderá ser um instrumento para apostar na qualidade, favorecer estadias mais longas, estimular o consumo de produtos locais, valorizar atividades ligadas à natureza e à cultura, distribuir melhor os benefícios pela comunidade e, muito importante nas Flores, ajudar a combater a sazonalidade turística.
Se a natureza é o nosso principal património, ela não existe apenas em julho e agosto. A paisagem muda com as estações, o mar e o clima fazem parte da identidade da ilha, as tradições não têm calendário turístico e a tranquilidade que muitos visitantes procuram talvez seja ainda mais autêntica fora do verão. Uma marca internacional associada à natureza e à sustentabilidade pode também servir para construir razões para visitar as Flores noutras épocas do ano.
É aí que a classificação poderá passar de título a instrumento de desenvolvimento.
Pode estar mais presente nos produtos das Flores, na promoção turística, nos alojamentos e restaurantes, nas empresas de animação turística e na comunicação feita a quem chega. Pode aproximar escolas, empresários, cientistas, autarquias, associações e população em torno de uma identidade comum. E pode ajudar a acrescentar valor sem obrigatoriamente acrescentar multidões.
Talvez fosse, por isso, útil fazer agora um balanço público e compreensível: o que estava previsto, o que foi realizado, que resultados foram alcançados e, sobretudo, o que queremos fazer com esta distinção nos próximos dez anos?
Porque talvez a pergunta mais importante não seja quantos turistas sabem que as Flores são Reserva da Biosfera.
Talvez seja saber quantos florenses sabem o que ganharam com isso.
Não se trata de pôr em causa uma distinção que prestigia a nossa ilha. Trata-se precisamente de lhe dar valor.
As classificações internacionais não são um fim. São instrumentos. E um instrumento vale tanto mais quanto melhor soubermos utilizá-lo.
Dezassete anos depois, talvez seja tempo de falarmos, ainda mais, da Reserva da Biosfera das Flores. Não para celebrar novamente 2009, mas para perguntar o que queremos fazer dela a partir de agora.
E talvez um pequeno gesto pudesse simbolizar esse reencontro.
Quando um avião iniciar a descida sobre a ilha e, entre as nuvens, aparecerem novamente aquele verde, aquelas falésias e aquele Atlântico imenso, não ficaria mal que quem chega voltasse a ouvir:
“Bem-vindos à Ilha das Flores, Reserva da Biosfera da UNESCO.
Acrescentando ainda: No extremo ocidental da Europa!”
Seria apenas uma frase.
Mas às vezes é também assim que as coisas boas adquirem ainda mais interesse e valor.