Papa abre encontro dos 10 anos da “Amoris Laetitia” com apelo a enfrentar “com coragem” questões das famílias

“Tem-se verificado um distanciamento crescente entre as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do casamento”, observou Leão XIV

Foto: Vatican Media

O Papa apelou hoje a enfrentar com “coragem” as questões colocadas pelas famílias, na abertura do encontro mundial que assinala o 10º aniversário da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’, no Vaticano.

“As suas vidas também nos colocam questões que merecem ser enfrentadas com coragem. Em muitos contextos, tem-se verificado um distanciamento crescente entre as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do casamento”, afirmou Leão XIV, no discurso proferido perante participantes dos cinco continentes.

Convocada pelo Papa em março para assinalar o 10ºaniversário do documento dedicado à família, a iniciativa reúne todas as 115 conferências episcopais, incluindo a portuguesa, e 15 Igrejas Católicas Orientais, bem como 11 casais, 22 convidados de Leão XIV e dois representantes de bispos sem conferências episcopais.

Na intervenção, o Papa realçou que “os jovens continuam a ansiar por amor, fidelidade e pertença, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode concretizar-se nas suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam”.

“A insegurança económica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades que conseguem imaginar para o seu futuro”, assinalou.

Leão XIV reforçou que estas realidades suscitam “uma série de questões” que devem ser enfrentadas com coragem.

“O que é que as pessoas procuram verdadeiramente por detrás destas mudanças culturais? O que é que as suas alegrias e esperanças, as suas dores e ansiedades nos revelam? Em que aspetos a nossa linguagem e as nossas práticas pastorais conseguem abrir caminho e em que aspetos não conseguem tocar o coração das pessoas nem apoiar os seus esforços para fazer o bem?”, questionou.

Na Sala Paulo XIV, onde decorreu o encontro, o Papa defendeu que “a fragilidade merece uma atenção especial, pois pode moldar profundamente a forma como as pessoas se veem a si próprias, o seu futuro e até mesmo a sua relação com Deus e com a Igreja”.

“Também neste aspeto, a experiência das famílias tem algo a ensinar a todos”, uma vez que a condição mencionada faz parte dos seres humanos e “também da vida da Igreja”, enfatizou o Papa, que ressaltou que são necessários a graça, o perdão e de novos começos “para cumprir a vontade de Deus”.

O discurso do Papa percorreu também “o longo e frutífero percurso sinodal e missionário que a Igreja tem percorrido no que diz respeito ao matrimónio e à família”, destacando que a “’Amoris Laetitia’ marcou uma etapa importante, e os dez anos desde a sua publicação” passaram a fazer parte da vida das “Igrejas particulares”.

“Durante este tempo, a Exortação Apostólica foi acolhida em diferentes culturas e contextos pastorais, acompanhou a vida concreta das famílias e inspirou iniciativas e processos. São estes os dez anos que agora reunimos perante o Senhor Jesus”, salientou.

O Papa sublinhou que as “famílias participam na missão da Igreja no quotidiano das suas vidas, através do amor e da fidelidade, do cuidado e do perdão, da educação dos filhos, dos seus esforços na transmissão da fé, da atenção aos idosos e aos mais vulneráveis, e das muitas formas como servem as suas comunidades e a sociedade”.

“De todas estas formas, as famílias dão testemunho do Evangelho e contribuem para a vida e a missão da Igreja”, complementou.

No discurso, Leão XIV apontou ao desafio de “acompanhar as pessoas na sua busca por viver a sua vocação nas circunstâncias concretas das suas vidas”, indicando que este ministério coloca todos também numa “escola de escuta”.

“A sabedoria do Povo de Deus chega até nós através da nossa fé comum, que ilumina todas as famílias, incluindo as situações marcadas por dificuldades, solidão e, por vezes, até mesmo por aparentes fracassos. O próprio Senhor ensina-nos pacientemente quando dedicamos tempo a ouvir, e temos certamente muito a aprender com as famílias”, enfatizou.

No final da intervenção, o pontífice desejou que através das muitas histórias que os participantes trazem das suas “Igrejas e de diferentes contextos culturais, vá gradualmente tomando forma uma narrativa comum destes dez anos, marcada pela alegria e pela esperança”.

“E que nos permita enfrentar com honestidade as provações e dificuldades que ainda subsistem. Isto irá alimentar o discernimento pastoral das Conferências Episcopais e das estruturas hierárquicas das Igrejas Orientais. Ajudará igualmente as Igrejas locais a reconhecer novos caminhos e a envolver mais profundamente todos os batizados no percurso sinodal da Igreja”, expressou.

A exortação apostólica sobre a Família ‘Amoris laetitia’ (A Alegria do Amor), com data de 19 de março de 2016, recolhe as propostas de duas assembleias do Sínodo dos Bispos (2014 e 2015) e dos inquéritos feitos previamente aos católicos de todo o mundo.

Ao longo de nove capítulos, em mais de 300 pontos, Francisco dedica a sua atenção à situação atual das famílias e os seus numerosos desafios, desde o fenómeno migratório à “ideologia de género”; da cultura do “provisório” à mentalidade “antinatalidade”, passando pelos dramas do abuso de menores.

(Com Ecclesia)

 

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