Entre a Ribeira Grande e o Nordeste, a Lomba da Maia concentra serviços que fazem dela um polo de referência para várias comunidades da costa norte. No segundo dia da visita pastoral, o bispo de Angra encontrou uma paróquia marcada pela agricultura, pelo envelhecimento e pela falta de habitação, mas também por uma forte capacidade de resposta comunitária, sobretudo na área dos serviços.

A Lomba da Maia, na ilha de São Miguel, é uma paróquia dispersa, mas está longe de ser periférica. Pelo contrário: a sua localização entre a Ribeira Grande e o Nordeste transformou-a num dos principais pontos de serviços da costa norte de São Miguel. Banco, saúde, combustíveis, bombeiros e apoio à atividade agrícola encontram-se aqui concentrados, servindo uma população que ultrapassa os limites da própria freguesia.
Foi esta realidade que esteve no centro do segundo dia da visita pastoral do bispo de Angra à ouvidoria dos fenais de Vera Cruz e que o levou até à Lomba da Maia, num percurso que coincidiu com o dia de Nossa Senhora do Rosário, padroeira da paróquia. D. Armando Esteves Domingues visitou a escola, a Junta de Freguesia, os bombeiros, a Cooperativa Agrícola Costa Norte, a ermida da Senhora do Rosário e os espaços de apoio à população, procurando conhecer não apenas a comunidade cristã, mas os lugares onde a vida da freguesia acontece.
“Venho num dia importante: o da Senhora do Rosário. Peçamos-lhe para nos acompanhar”, afirmou o bispo, logo no início da jornada, que começou pela recepção na Igreja paroquial.
A imagem de uma comunidade que precisa de alargar o seu espaço para acolher todos atravessou a visita. Ao falar da família, o prelado diocesano lembrou que, “na Igreja como na família, há sempre lugar para mais um”. Uma ideia que ganha particular significado numa freguesia onde a população está espalhada por diferentes núcleos e onde a rede de serviços acaba por funcionar como elemento agregador.
Com cerca de 1100 habitantes, a Lomba da Maia concentra respostas que são pouco comuns numa freguesia com esta dimensão. Há uma agência bancária, a única bomba de combustíveis da zona, uma extensão de saúde, bombeiros e um serviço de apoio aos empresários agrícolas.
Na Junta de Freguesia existe atendimento permanente, uma sala de computadores e uma sala de reuniões utilizada para formações, aberta a todos os que ali queiram deslocar-se. A autarquia apoia ainda atividades destinadas aos idosos e mantém projetos ligados à valorização do património local.
Mas esta centralidade não resolve todos os problemas.
O presidente da Junta, Marco Ponte, apresentou ao bispo de Angra uma comunidade onde a agricultura continua a ser a principal atividade económica, mas enfrenta dificuldades crescentes.
“Há muitas famílias com dificuldades”, explicou, apontando os baixos preços pagos aos produtores e o elevado custo das rações como alguns dos principais problemas do setor.
A falta de trabalhadores tornou-se outra dificuldade estrutural. As explorações agrícolas recorrem cada vez mais a mão de obra estrangeira, com trabalhadores nepaleses, indianos, que se juntam a ucranianos e italianos a integrarem o quotidiano da freguesia.
A habitação é outro dos problemas. A Junta procura terrenos que possam permitir a criação de loteamentos para jovens, mas faltam casas para arrendamento e os imóveis disponíveis para compra apresentam valores que dificultam a fixação das novas gerações.
A par destas dificuldades, há problemas sociais que preocupam a autarquia, desde o consumo de álcool e drogas às chamadas drogas sintéticas e ao vandalismo, que leva a intervenções frequentes das forças de segurança.
A resposta social passa também pela proximidade dos serviços.
Na Casa do Povo, agora designada Casa dos Amigos da Lomba da Maia, um edifício construído para a comunidade pelos seus emigrantes no Canadá, funciona uma extensão da Unidade de Saúde da Maia que serve a Lomba da Maia, a Lombinha e o Burguete. Existe enfermagem regular, atendimento administrativo e presença médica durante toda a semana.
A manutenção deste serviço é considerada particularmente importante numa comunidade dispersa e com dificuldades de transporte para alguns doentes, sobretudo idosos.
No mesmo espaço funciona o centro de convívio, duas vezes por semana. Cerca de 15 pessoas reúnem-se entre as 13h00 e as 16h00 para jogar cartas, participar em jogos de mesa e conversar.
“Convivemos e partilhamos vida”, foi uma das expressões que melhor resumiu o espírito do espaço.
Nem todos os idosos aderem, porém, às atividades.
“Há pessoas que não querem vir porque têm vergonha e são reservadas”, foi explicado durante a visita. Os que participam acabam por encontrar ali uma extensão da própria vida comunitária, com as conversas e o lanche que encerra cada encontro, assegurado pela Junta.
Bombeiros com trabalho para lá da freguesia
A centralidade da Lomba da Maia torna-se particularmente evidente no trabalho dos bombeiros.
A terceira secção dos Bombeiros Voluntários da Ribeira Grande, instalada na freguesia desde 1990, funciona como estrutura de apoio ao quartel da Ribeira Grande e cobre uma área significativa da costa norte, entre o Porto Formoso e a Lomba de São Pedro.
Cláudio Raposo explicou que a atividade é sobretudo marcada pelo transporte de doentes e pelas ocorrências hospitalares.
“Há dias muito atribulados, com 10 ou 15 transportes de pessoas doentes”, contou. Em alguns períodos, a secção chega mesmo a ter mais trabalho do que o próprio quartel da Ribeira Grande, sobretudo porque muitos dos serviços são demorados.
A estrutura funciona 24 horas por dia e dispõe de dois camiões e duas ambulâncias. Uma delas é destinada ao transporte não urgente, que representa uma das principais fontes de receita da associação.
Mas há uma dificuldade que ameaça a capacidade de resposta: faltam voluntários.
“Muitas pessoas vêm fazer as formações para o currículo, mas depois não ficam na corporação”, lamentou Cláudio Raposo.
A secção necessita ainda de um pronto-socorro mais recente. Os incêndios representam uma parcela menor do trabalho, embora as queimadas e a acumulação de resíduos resultantes da desflorestação possam provocar ocorrências.
Se os bombeiros mostram a importância da Lomba da Maia na resposta de emergência, a Cooperativa Agrícola Costa Norte revela a dimensão económica da freguesia.
A cooperativa recebe anualmente cerca de 32 milhões de litros de leite e representa aproximadamente 200 produtores. Cerca de 90 entregam diretamente o leite naquela unidade, que chega a receber cerca de 90 mil litros por dia, com a produção a aumentar no verão, passando a casa dos três dígitos.
A cooperativa procura diferenciar-se pela qualidade e pela inovação tecnológica. Foi pioneira na produção de leite biológico e desenvolveu um sistema de separação que permite distinguir leite convencional, biológico e o produzido no âmbito do projeto “vacas felizes”, designação projetada pelos dirigentes locais
“Estamos na vanguarda. Procuramos que as coisas aconteçam desta forma”, afirmou Luís Gonzaga.
A filosofia passa por antecipar as exigências do mercado.
“A nossa filosofia é ir mais à frente”, acrescentou.
Para D. Armando Esteves Domingues, esta ligação à agricultura é também uma ligação à própria história das paróquias.
“A lavoura tem uma ligação muito forte com as paróquias”, afirmou, destacando a importância da colaboração entre agricultores e Igreja e lembrando que o setor agrícola tem contribuído historicamente para o financiamento das festas religiosas, um dado histórico sublinhado pelo ouvidor, padre Hélio Soares, que se juntou à visita neste encontro com os lavradores da Cooperativa Costa Norte.
O linho como memória de uma comunidade
Mas se o futuro da lavoura mora aqui, a Lomba da Maia procura também preservar aquilo que foi.
O Centro Interpretativo do Linho, inaugurado em 2022, recupera uma atividade que marcou a economia e a identidade local. A Junta pretende ampliar o projeto, juntando o atual núcleo museológico ao espólio que ainda se encontra na antiga ermida de Nossa Senhora do Rosário e que é património da Igreja, criando um percurso museológico que permita contar o ciclo da lavoura.
Ainda hoje se faz a sementeira do linho, em abril, e a recolha, em agosto, numa atividade ligada à Festa do Linho.
A intenção é mais do que preservar objetos. É recuperar a memória de uma comunidade que durante gerações viveu do trabalho agrícola e artesanal.
A Senhora do Rosário no centro da paróquia
E é precisamente no meio desta rede de serviços, atividades económicas e respostas sociais que permanece o centro religioso da freguesia.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário é o principal espaço de culto de uma paróquia territorialmente dispersa. Ao seu lado estão o passal, o centro de catequese e a antiga ermida, atualmente utilizada também como casa mortuária e a escola com mais de 70 alunos distribuídos por salas do Jardim de Infância e do primeiro ciclo, alguns com necessidades educativas especiais e outros estrangeiros a residir recentemente na Lomba da Maia.
A ermida, por seu lado, necessita de obras. Está prevista uma intervenção no muro e trabalhos de consolidação, num projeto avaliado em cerca de 40 mil euros, mas é necessária também uma reabilitação do interior, incluindo a instalação de aquecimento.
Nesta visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, o fim da tarde é sempre aproveitado para uma visita aos doentes da paróquia e depois a um tempo de atendimento pessoal, terminando com a celebração da Eucaristia. Hoje, o dia termina com a Festa das Rosas, uma tradição da paróquia da Senhora do Rosário, em que cada fiel traz as suas rosas que depois são entregues à igreja para serem arrematadas.
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