São Brás: uma pequena comunidade onde a proximidade favorece a vizinhança

O Bispo de Angra iniciou a visita pastoral à ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, que integra cinco paróquias e três curatos. A habitação e a fixação dos jovens estão entre as principais preocupações, mas a proximidade entre pessoas e instituições continua a ser uma das grandes forças de São Brás.

Foto: Igreja Açores/CR

“Somos poucos”. Foi porventura a expressão mais repetida e ouvida pelo bispo de Angra desde que chegou esta manhã à primeira paróquia da ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, a onde iniciou esta terça feira uma visita pastoral até dia 17 de outubro.

Em São Brás, a dimensão da freguesia é também uma forma de estar. Numa comunidade de cerca de 550 habitantes, onde todos se conhecem e as instituições trabalham próximas umas das outras, a preocupação é chegar a todos e não deixar ninguém para trás. E, entre as questões que a paróquia de São Brás é chamada a enfrentar está a dos jovens. Muitos deles saem e não regressam e os que querem ficar e construir família têm dificuldade em encontrar condições para se fixarem.

O alerta vem do presidente da Junta da Freguesia, que acaba de completar 46 anos de idade. Está preocupado com o futuro demográfico desta terra e, por isso, procura fazer da cooperação entre as várias instituições a receita para que ninguém fique para trás. Na paragem de apresentação de cumprimentos, depois de uma breve celebração na Igreja, com os colaboradores mais próximos do pároco, padre Fábio Carvalho, há um ano ao serviço da paróquia, D. Armando Esteves Domingues foi recebido pelo executivo da Junta de Freguesia.

São Brás mantém uma forte componente agropecuária, com seis grandes explorações, mas a economia local diversificou-se. Existem empresas de construção e carpintaria, serviços de manutenção agrícola e atividades ligadas ao turismo e à transformação do chá, que emprega muitos jovens sobretudo durante o verão. Não existem situações sinalizadas de desemprego, embora haja casos de vulnerabilidade acompanhados através das respostas sociais disponíveis. A Santa Casa da Misericórdia da Maia assegura apoio domiciliário e a Junta de Freguesia complementa esse trabalho em algumas áreas, procurando acompanhar sobretudo os mais idosos. Mas a habitação foi apresentada como um grande problema. Faltam casas disponíveis e as que existem têm um preço muito elevado.

Em São Brás, os desafios são muito concretos: encontrar habitação acessível, criar condições para fixar os jovens, manter vivas as associações e assegurar respostas para quem envelhece ou atravessa maiores dificuldades.

A freguesia parte de um património que não se mede apenas em edifícios ou instituições. Mede-se na capacidade de os vizinhos se conhecerem, de as entidades colaborarem e de perceberem quem precisa de ajuda.

Numa comunidade pequena como esta, dizem os locais, a proximidade pode ser a melhor forma de garantir que ninguém fica para trás.

Existem associações e movimentos capazes de mobilizar a população, mas reconhece-se uma menor adesão dos jovens às atividades comunitárias. A mudança dos hábitos provocada pela transição digital é apontada como uma das razões.

Os escuteiros e os romeiros são exemplos de espaços de participação. São Brás não tem atualmente um agrupamento de escuteiros, mas os jovens podem integrar o agrupamento da Maia, uma das freguesias vizinhas e de maior dimensão para onde vão estudar muitos dos jovens que aqui iniciam a escolaridade obri gatória.

A escola, com 59 crianças,  tem duas salas de jardim de infância e duas do primeiro ciclo, com alunos do primeiro ao quarto ano, que devem sair para Porto Formoso ou para a Maia, quando atingem o quinto ano e depois no secundário para a Ribeira Grande.

“Temos de pensar muito nestes jovens: como integrá-los e criar condições para que encontrem na comunidade um lugar onde possam construir o futuro”, pediu D. Armando Esteves Domingues.

Um edifício para aproximar serviços

É neste contexto que ganha particular importância a conclusão do Centro Social e Paroquial, um projeto com mais de 30 anos e que conheceu várias fases e períodos de paragem.

Uma nova solução, resultante da colaboração entre a Diocese, a junta de Freguesia e a Câmara Municipal, permitiu desbloquear uma situação que se prolongava há cerca de 20 anos. O município prevê investir cerca de um milhão de euros e a obra deverá ficar concluída dentro de dois anos.

O futuro centro multiusos, que se espera venha a ser o coração da freguesia, paredes meias com a Igreja, concentrará diferentes valências: instalações da Junta de Freguesia, serviços sociais, atendimento da Segurança Social, médico e enfermagem, salas de catequese, espaço para a Irmandade do Espírito Santo, centro de dia, auditório e um grande salão para eventos.

“Aquele edifício será o coração da freguesia”, afirmou o presidente Paulo Corrêa Pimentel.

A expectativa é que o espaço permita reunir respostas que hoje estão dispersas e criar novas condições para a vida social, pastoral e cultural de São Brás, que já conta com algumas associações que “fazem o que podem” com “os recursos que têm”.

A Associação Trevo, criada há oito anos, nasceu da vontade de um grupo que começou por se reunir numa garagem para criar uma marcha e dinamizar iniciativas culturais.

Hoje tem mais de 150 sócios. A marcha contou este ano com 37 participantes e tornou-se um espaço de encontro entre diferentes gerações e lugares. A associação promove ainda atividades de angariação de fundos e participa na dinamização de tradições como o Cantar às Estrelas.

Também a Associação Horizonte desenvolve atividades culturais, com pintura, música e teatro, enquanto as tradições ligadas ao Espírito Santo continuam a reunir a população, nomeadamente através das sopas realizadas no segundo fim de semana depois da grande festa do Pentecostes.

Uma Igreja com história

A igreja paroquial é também testemunho da história da localidade. O templo remonta a 1886 e as suas torres foram construídas em 1963. Em 2018, foram renovados os altares e realizados trabalhos de restauro nos painéis, tetos e imagem.

A história de São Brás, evocada Gaspar Frutuoso, é uma história de sucesso: uma freguesia da costa norte de São Miguel, numa das ouvidorias mais dispersas e menos povoadas da ilha.

A prática religiosa mantém-se entre aqueles que habitualmente participam, embora seja reconhecido que poderia envolver mais pessoas, sobretudo entre os mais jovens. A comunidade entende, porém, que a resposta passa menos pelo julgamento e mais pela capacidade de compreender as mudanças na vida das famílias.

“É preciso identificar e perceber quais são as margens hoje” referiu o bispo de Angra no inicio desta visita lembrando que o intuito principal destes encontros é sobretudo escutar os anseios das comunidades e perceber como se desenvolvem, sem perder cristo do seu horizonte.

A partir do episódio evangélico das irmãs de Lázaro, em betânia, Marta e Maria, o bispo recordou que, entre as muitas tarefas da vida, é necessário permanecer próximo de Jesus.

 

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