“Os médicos diziam-me que nunca mais iria andar, mas a minha fé salvou-me”- Guido Pacheco

Provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton deixa testemunho de fé. Festa  assinala duas décadas. D. Armando Esteves Domingues, bispo de Angra, preside às celebrações, que decorrem de 10 a 14 de setembro

Foto: Cartaz das festas 2026

Há mais de 23 anos, Guido Pacheco, atual provedor da Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton, enfrentava uma doença que lhe tinha retirado, entre outros,  a possibilidade de andar e para a qual os médicos não encontravam esperança de cura. Mas, perante aquilo que a medicina não conseguia resolver, o mariense encontrou na fé uma outra forma de esperança.

A devoção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres já fazia parte da sua família, que apesar de mariense era devota do culto, impulsionado por uma religiosa Clarissa, Madre Teresa da Anunciada, há mais de 300 anos.

Primeiro em Toronto, depois em Brampton, a família levou consigo para o Canadá a devoção que tinha as raízes em São Miguel. Foi nesse período de doença que a relação de Guido Pacheco com o Senhor Santo Cristo ganhou uma dimensão ainda mais profunda.

“Os médicos diziam-me que eu nunca mais iria andar, mas a verdade é que, com a ajuda de Monsenhor Agostinho Tavares, então reitor do Santuário que era da família, a minha fé salvou-me”, recorda.

No último ano da doença, o jovem empresário emigrante já tinha conseguido voltar a andar o suficiente para participar numa das manifestações mais emblemáticas da devoção micaelense: levou o andor do Senhor Santo Cristo em São Miguel.

A recuperação transformou-se, depois, num compromisso.

“Ainda hoje recordo todas as palavras que Monsenhor Agostinho me disse e a forma como elas ecoaram em mim”, disse ainda ao Igreja Açores.

De regresso ao Canadá, Guido Pacheco começou a falar da possibilidade de levar para Brampton uma imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres. O desafio acabou por ganhar forma quando o pároco e vários elementos da comunidade o incentivaram a criar uma irmandade.

Nascia assim a Irmandade do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton, com Guido Pacheco à frente, como provedor e principal impulsionador das festas, por escolha de todos os envolvidos.

Há duas décadas, a imagem do Senhor Santo Cristo, produzida no Continente por santeiros, chegava a Brampton. Desde então, a capela que lhe foi destinada na Igreja de Nossa Senhora de Fátima tornou-se num dos espaços de devoção mais visitados pela comunidade.

“Não sei explicar, mas a devoção ao Senhor Santo Cristo é muito grande. Vem gente de todo o lado. De várias regiões do Canadá, mas também dos Estados Unidos. De ano para ano cresceu enormemente. Há muita devoção”, afirma o provedor.

É uma devoção que, para Guido Pacheco, ultrapassa a dimensão religiosa. É também uma resposta às dificuldades da vida de quem está longe da terra onde nasceu.

“Representa tudo. No fim do dia, o mundo está difícil e a parte mais perto deles é o Senhor Santo Cristo.”

Em Brampton, cidade onde vive uma expressiva comunidade portuguesa, a fé permanece como um dos elementos agregadores de uma população que, apesar da distância, procura preservar as referências culturais e religiosas das ilhas.

“Nesta área, em Brampton, as pessoas são muito crentes. Têm acontecido várias coisas na nossa paróquia, com várias pessoas, e o Senhor Santo Cristo é muito milagroso”, sublinha.

Hoje, aos 57 anos, o mariense emigrado no Canadá desde os sete anos é o principal rosto das festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres de Brampton. A devoção que, segundo conta, o ajudou a recuperar a saúde acabou por dar origem a uma das maiores manifestações de fé da comunidade açoriana naquela cidade canadiana.

Este ano, na vigésima edição das festas, a memória de São Miguel estará ainda mais presente com a inauguração de uma réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada, um novo símbolo da ligação entre a terra de origem da devoção e a comunidade emigrante.

As festas deste ano assumem, por isso, um significado particular. Celebram-se os 20 anos desde a primeira edição e a efeméride será assinalada com a inauguração de um novo monumento que pretende transportar para Brampton uma das imagens mais reconhecíveis de Ponta Delgada.

A ideia não é apenas reproduzir um elemento arquitetónico. É recriar, no coração da comunidade emigrante, um pedaço da cidade e da ilha que ficaram para trás.

“É uma combinação das duas coisas, tal como em Ponta Delgada. Quando chegamos a São Miguel queremos ir ao Santuário, ver o Senhor Santo Cristo e depois damos um passeio para passar nas Portas da Cidade”, explica Guido.

A réplica será cerca de cinco por cento mais pequena do que o monumento original, mas pretende cumprir uma função muito maior do que a sua dimensão física: manter viva a memória da origem, mesmo à frente da porta da Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

“Este monumento é mais uma lembrança de onde viemos, onde nascemos e de onde somos. Portanto, é a conjugação de dois elementos identitários”, afirma ainda.

A concretização do projeto, reconhece o provedor, não foi fácil.

“Nada é fácil, mas graças à ajuda de muitos elementos da Igreja, das autarquias e do Governo, esta conjugação de amizades e de esforços permitiu fazer tudo isto em prol da comunidade portuguesa.”

E a ambição não termina com a inauguração do monumento. O próximo passo é aproximar institucionalmente as duas comunidades através da geminação de Brampton e Ponta Delgada.

“Vai correr tudo bem. Vai ser um fim de semana muito importante”, antecipa Guido Pacheco.

O programa das comemorações dos 20 anos arranca no dia 10 de setembro, com a Missa dos Doentes, que será presidida já pelo Bispo de Angra. À semelhança do que acontece em Ponta Delgada, durante a celebração será administrado o sacramento da Santa Unção.

No dia 11 realiza-se o jantar de gala, que reunirá convidados de honra e representantes da comunidade. A adesão à iniciativa já ultrapassa as duas mil inscrições.

O dia 12 será marcado por um dos momentos mais aguardados das comemorações: a inauguração da réplica das Portas da Cidade, em frente à Igreja de Nossa Senhora de Fátima.

Nesse mesmo dia, às 16h00 locais – menos quatro horas do que nos Açores – terá lugar a procissão da mudança da imagem do Senhor Santo Cristo.

As celebrações prosseguem no domingo, dia 13, com a missa e a procissão solene, antes de terminarem na segunda-feira, dia 14, com o cortejo das oferendas.

Vinte anos depois de uma imagem do Senhor Santo Cristo ter atravessado o Atlântico para se instalar em Brampton, a devoção cresceu, espalhou-se por diferentes regiões do Canadá e chegou também aos Estados Unidos. É lá que há duas décadas foi inaugurada também uma réplica das Portas da Cidade de Ponta Delgada, na cidade- irmã Fall River.

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