O bispo de Angra percorreu os impérios do Espírito Santo da Lomba da Maia e do Burguete, durante a manhã, e visitou, à tarde, o lugar da Ribeira Funda, na paróquia dos Fenais da Ajuda.

A Igreja constrói-se com todos e a missão dos batizados não termina quando chega ao fim um mandato de serviço ou uma responsabilidade assumida numa comunidade. Esta foi uma das mensagens centrais deixadas pelo bispo de Angra no terceiro dia da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, num percurso que uniu a tradição das festas do Espírito Santo à reflexão sobre a vida comunitária e os desafios sociais das populações.
Ao longo do dia, D. Armando Esteves Domingues encontrou-se com irmandades, responsáveis locais e membros das comunidades, procurando valorizar a diversidade de carismas e recordar que “o todo é sempre mais do que a soma das partes”. Cada festa organizada e cada Eucaristia celebrada devem, nesta perspetiva, constituir uma oportunidade para renovar o compromisso assumido no Batismo, porque “todos contamos e todos somos importantes”.
A tradição dos impérios como expressão de fé e de comunidade
A manhã foi dedicada à visita aos impérios do Espírito Santo da Lomba da Maia e do Burguete, onde o bispo de Angra contactou com as irmandades e conheceu de perto as tradições que continuam a marcar a identidade religiosa e cultural destas comunidades.
A preservação desta herança constitui, contudo, um desafio crescente, numa realidade marcada pelo envelhecimento da população e pela dificuldade em mobilizar novas gerações. Em alguns casos, a continuidade das irmandades depende do empenho de poucas pessoas, que assumem a responsabilidade de manter vivas práticas transmitidas ao longo de décadas.
Apesar das dificuldades, as comunidades continuam a reunir esforços para organizar as festas, preservar o património religioso e transmitir aos mais novos o significado destas celebrações.
O bispo de Angra desafiou os membros das Irmandades a cuidar dos Impérios como espaços de oração, solidariedade e convívio, transformando-se numa escola que fortaleça laços entre as pessoas, para além dos momentos da festa.
A visita pastoral permitiu, assim, valorizar o trabalho discreto de quem mantém estas tradições, sublinhando a importância de envolver toda a comunidade na sua continuidade. Num tempo de mudanças sociais e demográficas, perpetuar a tradição exige compromisso, disponibilidade e união, para que este património de fé não se perca e continue a ser vivido pelas gerações futuras.
Neste contexto, ficou também o apelo à oração pela unidade das comunidades, para que ninguém se sinta só ou afastado e todos encontrem lugar na vida da Igreja.
Ribeira Funda: uma Igreja que começa em casa
Durante a tarde, a visita pastoral prosseguiu no lugar da Ribeira Funda, pertencente à paróquia dos Fenais da Ajuda, onde o bispo de Angra se encontrou com a população e acompanhou a realidade de uma comunidade marcada pela sua ligação histórica à agricultura e por desafios sociais e demográficos.
A visita começou com a ideia de que a Igreja tem o seu primeiro lugar na família.
“A visita pastoral começa na casa de nós todos: em família”, disse D. Armando Esteves Domingues na recepção na igreja dedicada a Nossa Senhora da Aflição (um invocação pouco conhecida e celebrada essencialmente neste lugar, em Gondomar e em Albergaria a Velha, no continente), sublinhando que a vida cristã não se limita aos espaços de culto, mas nasce e cresce na vida quotidiana, nas relações familiares e na proximidade entre as pessoas.
D. Armando Esteves Domingues voltou a referir a diminuição do número de sacerdotes e a necessidade de encontrar novas formas de ser Igreja. Neste caminho, destacou a importância do Batismo, que torna todos os cristãos participantes na missão eclesial.
“Todos são chamados a assumir responsabilidades, independentemente dos serviços concretos que desempenham”, sublinhou.
“A condição de batizado confere a cada pessoa uma dignidade e uma missão que não dependem da ocupação de um cargo ou da integração numa estrutura formal”, lembrou ainda.
O apelo à oração para que a Igreja encontre novos caminhos de presença e evangelização esteve, assim, ligado à necessidade de uma participação mais ampla dos fiéis, num tempo em que as comunidades enfrentam dificuldades para assegurar todos os serviços pastorais.
Renovação da Comissão de Assuntos Económicos
Um dos momentos da visita à Ribeira Funda foi a tomada de posse dos novos elementos da Comissão de Assuntos Económicos, num sinal de renovação e continuidade do serviço à comunidade.
A constituição de uma nova equipa representa uma oportunidade para assumir responsabilidades e dar resposta às necessidades concretas da paróquia, que neste caso da Ribeira Funda, é um curato (quase paróquia) pertencente à paróquia dos Fenais da Ajuda. Contudo, a renovação dos membros não significa que a missão dos restantes batizados fique concluída ou passe a depender exclusivamente daqueles que assumem funções.
O compromisso cristão, disse, ultrapassa os limites de um mandato. Quem termina uma responsabilidade continua a fazer parte da comunidade e a ser chamado a contribuir para a sua vida e missão.
Foi neste sentido que o prelado diocesano voltou a insistir na união das comunidades e na importância de não deixar ninguém de fora. A Igreja constrói-se através da colaboração de todos, respeitando a diversidade de dons, percursos e capacidades, mas mantendo a consciência de que cada pessoa é necessária.

Os desafios sociais e a importância da proximidade
O encontro na Ribeira Funda, com o presidente da Junta de Freguesia dos fenais da Ajuda, permitiu também conhecer algumas das preocupações que atravessam a realidade local. David Camboias, apresentou os desafios enfrentados pelas populações, destacando o decréscimo demográfico, o envelhecimento, as dificuldades no acesso à habitação, o desemprego e os problemas associados aos consumos excessivos de álcool e a outras dependências.
A resposta social passa, em parte, pelos programas ocupacionais e por outras medidas de apoio, embora estas nem sempre consigam resolver de forma duradoura as dificuldades das famílias. A mobilidade, nomeadamente nos transportes públicos e escolares, foi igualmente apontada como uma preocupação, num território cuja ligação à cidade condiciona muitas deslocações.
A agricultura continua a ter um papel importante na economia local, com sinais de crescimento na produção de legumes e famílias que conseguem assegurar uma vida relativamente estável através da lavoura. Existe também uma franja da população ligada ao setor dos serviços.
Estas realidades mostram a importância de uma presença próxima das instituições e da comunidade, num contexto em que os problemas sociais se prolongam no tempo e exigem respostas articuladas.
A Ribeira Funda é um lugar da paróquia dos Fenais da Ajuda com cerca de 300 habitantes. Este curato tem um ATL e dois Impérios do Espirito Santo: o Império da Ribeira Funda e o da Criação Velha.
Esta sexta feira, D. Armando Esteves Domingues vai visitar a paróquia da Salga, que pertence territorialmente ao concelho de Nordeste mas está ao serviço Pastoral da Ouvidoria dos fenais de Vera Cruz.
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