Sétimo dia da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz destaca a identidade de uma comunidade marcada pela devoção religiosa, pelas tradições culturais e pela capacidade de construir o futuro em comunidade

O Porto Formoso, muitas vezes considerado o jardim da Ribeira Grande pelas suas paisagens singulares, onde o verde da terra se encontra com o azul do mar, acolheu o sétimo dia da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz. Entre a memória de quase cinco séculos de história, a devoção a Nossa Senhora da Graça, as tradições culturais e os desafios de uma comunidade em transformação, a visita permitiu conhecer uma freguesia cuja identidade se tenta construir, mantendo a harmonia entre a fé, o trabalho conjunto e a partilha de soluções.
A igreja paroquial de Nossa Senhora da Graça ainda continua a ser um dos pilares da comunidade com pouco mais de mil pessoas, muitas delas já estrangeiras ou de fora da freguesia, e foi aí que o bispo de Angra foi recebido esta manhã.
Lúcia Marques, do Conselho Pastoral, sublinhou a importância de receber o bispo não apenas como uma figura da hierarquia da Igreja, mas, sobretudo, como pastor e amigo, num momento especial de proximidade e comunhão. A visita tornou-se, assim, uma oportunidade para cruzar a geografia da freguesia com a vida das pessoas, reconhecendo as histórias, as dificuldades e as esperanças que dão forma à comunidade.
A história religiosa de Porto Formoso remonta, pelo menos, ao início do século XVI. O primeiro documento histórico referido na resenha apresentada durante a visita data de 2 de junho de 1509 e está associado a Pedro Vaz Pacheco. A tradição local evoca a existência de uma primeira ermida dedicada a São Pedro, antes de a comunidade se organizar em torno da devoção a Nossa Senhora da Graça. A evolução desta ermida para paróquia e a consolidação da atual invocação mariana integram uma memória coletiva que continua a marcar a identidade local.
A devoção à Senhora da Graça permanece como uma das expressões mais fortes dessa identidade. A festa, que mobiliza gerações, não se esgota na dimensão religiosa: é também um tempo de reencontro, de convívio e de renovação dos laços comunitários. Entre as tradições associadas à celebração, destacam-se a missa campal no cemitério, iniciativa atribuída ao padre João Botelho do Couto, e a tradição das urtigas de Nossa Senhora da Graça, incentivada pelo padre Afonso Quental. Esta última envolve mais de duas centenas de famílias e cerca de duas mil plantas, num exemplo de participação que une devoção, trabalho e transmissão de costumes.
Mas a vitalidade de Porto Formoso não se mede apenas pelas suas celebrações religiosas. O teatro, o folclore e as atividades culturais constituem igualmente espaços de encontro e de afirmação da identidade local. São expressões de uma comunidade que reconhece no seu património imaterial uma riqueza a preservar, sem deixar de procurar novas formas de participação.
Esse foi, aliás, um dos desafios apontados durante a visita: encontrar maneiras de envolver mais pessoas, cativar os jovens e fazer com que a Igreja não seja entendida apenas como o lugar a que se regressa por ocasião de uma festa. O Conselho para os Assuntos Económicos, a catequese, os Romeiros, os Vicnetinos e o grupo de idosos são algumas das estruturas que dão corpo à vida paroquial e que podem continuar a abrir caminhos de participação e proximidade.
A comunidade não escondeu, contudo, as dificuldades atravessadas. A paróquia viveu um período de forte constrangimento financeiro, uma realidade que condicionou a sua capacidade de resposta e tornou ainda mais evidente a importância da colaboração entre pessoas e instituições. A vontade de superar essas dificuldades revela uma convicção partilhada: as grandes obras não se fazem num dia, exigindo persistência, compromisso e a capacidade de caminhar em conjunto.
Essa mesma determinação encontra expressão no Centro Social e Cultural de Porto Formoso e no projeto do edifício multifunções. O investimento já realizado, na ordem dos 1,1 milhões de euros, representa uma aposta significativa na criação de melhores condições para a comunidade, embora sejam ainda necessários mais recursos para que o espaço fique plenamente operacional. O contrato de comodato que permitirá beneficiar o local constitui mais um passo num processo que depende da conjugação de esforços e de uma visão de futuro.
Uma paisagem moldada pelo trabalho e pela memória
Porto Formoso é também o retrato de uma relação profunda entre a população e a terra. Ao longo do tempo, a agricultura desempenhou um papel central na economia local, com culturas de trigo, milho, chá, fava, tabaco, beterraba e ervilha a desenharem uma paisagem muito diferente daquela que hoje se observa, dominada pelo verde das pastagens.
A história da propriedade agrícola e das suas transformações foi igualmente evocada, com referência ao papel de Amâncio Machado Faria e Maia. Depois do 25 de Abril de 1974, a concentração fundiária foi sendo progressivamente atenuada, nomeadamente através da venda de terrenos aos rendeiros por parte de grandes famílias proprietárias, num processo que alterou a relação das pessoas com a terra.
Também o mar teve um peso decisivo na vida da freguesia. A atividade piscatória, particularmente relevante na década de 1940, deixou marcas na memória coletiva e num conhecimento transmitido entre gerações. Os lugares preferenciais de pesca eram guardados como património familiar, testemunhando uma intimidade com o oceano que permanece viva. Como foi salientado durante a resenha histórica, apresentada pelo engenheiro José António, proprietário da Fábrica de Chá de Porto Formoso, “o fundo do mar é tão rico como as montanhas e os vales em terra”.
A posição costeira de Porto Formoso chegou ainda a assumir importância estratégica durante a Segunda Guerra Mundial, quando um destacamento militar foi instalado para proteger a ilha perante a possibilidade de uma agressão externa. Mais tarde, as transformações políticas e sociais trouxeram novas oportunidades, mas também desafios.
A emigração, sobretudo para o Canadá, contribuiu para o declínio demográfico. Os números apresentados na visita ilustram essa mudança: de 3170 habitantes em 1960 para 1096 em 2021. Uma redução que ajuda a compreender as dificuldades de renovação geracional e a necessidade de criar novas oportunidades para fixar população.
A expansão do acesso à educação e a melhoria das acessibilidades contribuíram, entretanto, para alterar o horizonte das novas gerações. A construção da Escola Secundária da Ribeira Grande, em 1974, a chegada da eletricidade a Porto Formoso, em abril de 1975, com a intervenção dos militares, a criação da EB 2,3 da Maia, em 2000, e a entrada em funcionamento das SCUT, em 2011, foram marcos recordados pelo seu contributo para o desenvolvimento, a instrução e a ligação da freguesia ao restante território.
A memória local guarda também episódios que atravessam a história política da ilha. Entre eles, a tradição de uma senhora idosa que, durante o período das lutas miguelistas, terá feito deslizar rochas para impedir a entrada das forças miguelistas por mar. O episódio permanece associado ao lugar da Ladeira da Velha, onde a geografia se cruza com a narrativa popular e a memória das gerações.
O chá, entre a tradição e o futuro
Se o passado de Porto Formoso se encontra profundamente ligado à agricultura e à pesca, o presente revela uma capacidade de reinventar recursos e valorizar o território. A Fábrica de Chá de Porto Formoso é um dos exemplos mais expressivos dessa continuidade.
A unidade laborou inicialmente entre as décadas de 1920 e 1980, tendo permanecido encerrada durante cerca de duas décadas antes de reabrir. Atualmente, é um dos espaços que melhor traduz a ligação entre a paisagem, a produção agrícola e a atividade turística.
Do balcão da fábrica, a vista estende-se sobre as plantações de chá, instaladas numa zona onde anteriormente predominavam as pastagens. O cenário, com o jardim verde a abraçar o mar, ajuda a explicar por que razão Porto Formoso é tantas vezes descrito como um dos lugares mais belos da Ribeira Grande.
Com cerca de 40 mil turistas por ano, a fábrica assume uma dimensão que ultrapassa a transformação da folha de chá. A atividade integra toda a fileira, desde a plantação à transformação, produção e comercialização, criando oportunidades económicas e de emprego. Durante o verão, a contratação de jovens reforça a ligação entre a empresa e a comunidade.
A certificação para a produção biológica acompanha, por sua vez, uma crescente atenção à sustentabilidade, uma dimensão valorizada por muitos dos visitantes que procuram conhecer a origem dos produtos e a relação entre a atividade económica e a preservação ambiental.
O chá torna-se, deste modo, mais do que uma cultura agrícola: é uma marca de identidade, um recurso económico e uma forma de apresentar Porto Formoso ao mundo, sem perder a ligação à terra que o viu nascer.










