Pelo padre José Júlio Rocha

A recente viagem do Papa Leão a França mostrou ao mundo um fenómeno quase novo, que vem alastrando por todo aquele país: o grande e crescente aumento de conversões e de batismos de adultos na Igreja Católica francesa.
França, conhecida como filha predileta da Igreja desde o tempo de Carlos Magno, traz também consigo o porta-estandarte do secularismo, desde o iluminismo até às lutas da franco-maçonaria, da Revolução Francesa ao ateísmo militante de governos e povo. É, há mais de sessenta anos, o país da Europa Ocidental com menos prática religiosa e as orações muçulmanas já terão ultrapassado as cristãs em terras da flor de lis.
O fenómeno, que começou há pouco tempo em França e que, por exemplo, na Vigília Pascal de 2026, levou 21 mil adultos à pia batismal, merece uma interessante reflexão.
A primeira tentação é pensar que este é um acontecimento sazonal, condicionado pelas circunstâncias atuais da vida social e política da França, da Europa e do mundo ocidental. A polarização social e política do mundo ocidental, com a pulverização da concórdia e do diálogo, com a consequente radicalização social, levou muitos adeptos da extrema direita – e direita em geral – a refugiarem-se na Igreja, sobretudo na sua dimensão mais conservadora, onde encontram um ninho protetor: valores conservadores, Deus, Pátria, Família (com tudo o que isso simboliza), missa tridentina, o aborto, a eutanásia, o fenómeno “woke”. A Igreja funciona como uma estufa protetora, ou uma bandeira de guerra contra o mundo depravado da esquerda. É um fenómeno que se vê muito na Europa e nas Américas, sobretudo com o demolidor avanço das seitas evangélicas, que regressaram com a tese absolutista de que o seu político favorito é enviado diretamente por Deus.
O que está a acontecer em França é, julgo, mais complexo. Este é o país que, de há mais de dois séculos, é o baluarte do laicismo e do anticlericalismo. Já vamos na terceira geração de ateus, na segunda de não batizados. 55% dos batismos de 2026 vêm de famílias já não cristãs. Entre 8 e 20% terão vindo do mundo muçulmano, o que é uma silenciosa questão a pensar. A pergunta é: são cristãos porque odeiam a “esquerda” e tudo o que ela significa ou – e isto faz a diferença – entraram na Igreja porque este mundo pós-moderno não lhes traz nada, nem sentido de vida, nem razões para lutar, nem respostas ao Grande Vazio a que este Ocidente chegou lentamente depois da “morte de Deus”?
Vejamos então. 82% dos batizados têm menos de 40 anos, sobretudo entre os 18 e os 25 anos. 62% são mulheres, o que contradiz, de algum modo, a “cristandade machista”, fenómeno muito norte-americano. A maioria dos batizados (55%) não vêm de meios católicos, mesmo que não praticantes: vêm do ateísmo ou de outras religiões.
E não, esta não é nem a conversão da França laica nem um fenómeno vago. Para mim, pode ser o começo de uma nova era no âmbito da religião. Talvez seja um fenómeno que vem confirmar uma das demandas mais importantes da humanidade: a “morte de Deus” foi, como queria a França laica, uma libertação da humanidade ou uma rampa de descida – lenta e indolor – para o Grande Vazio de sentido que a humanidade está enfrentando quase sem dar por isso?
Para esse fenómeno francês tenho poucas dúvidas em que possam ter contribuído os últimos papas, Francisco e Leão, que se converteram nas poucas vozes moralmente audíveis num mundo devastado por discursos de ódio, de caos, de divisão, guerra e vazio. Os jovens, naturalmente generosos, querem vozes de paz, concórdia e amor. Estão fartos deste vazio feito de palavras, ecrãs e propagandas ocas, que os querem esvaziar por dentro em favor de interesses medonhos.
Acho que muitos jovens hoje olham para Jesus de outra forma; não com um grande humanista, não como um profeta passado, não como uma figura histórica amabilíssima. Olham-no como o sentido das suas vidas. E têm razão.
*Este artigo foi publicado no jornal Diário Insular, na edição desta sexta-feira, na rubrica Dorsal Atlântica.