Nos Fenais da Ajuda, a catequese quer chegar a casa: “A família é o grande milagre”

O preço da habitação levou Mário Melo e Marina Rodrigues de Ponta Delgada para os Fenais da Ajuda. Com a filha Aurora, encontraram uma nova casa e uma nova comunidade, onde a transmissão da fé é também um projeto familiar. O desafio esteve em destaque num encontro com o bispo, que apelou a uma maior participação dos pais na catequese e na Eucaristia.

Foto: Igreja Açores/CR

Mário Melo e Marina Rodrigues são naturais da zona de Ponta Delgada, dos Arrifes e do Livramento, respetivamente mas foi nos Fenais da Ajuda que encontraram a casa que procuravam para a família. No final da pandemia, perante os preços cada vez mais elevados da habitação na cidade, decidiram mudar-se para esta freguesia do concelho da Ribeira Grande. A mudança aconteceu perto do Natal e, desde então, é ali que vivem com a filha, Aurora.

A decisão implicou mais do que fazer as malas e mudar de morada. Nos primeiros tempos, a rotina era uma verdadeira maratona, sobretudo para conciliar o trabalho com os horários da creche. Enquanto Aurora frequentava a creche nos Arrifes, a mãe saía de casa por volta das cinco da manhã para a levar, seguindo depois para o trabalho. Ao final do dia, era preciso repetir o percurso para a trazer de volta aos Fenais da Ajuda. Quatro viagens diárias entre a freguesia e a cidade faziam parte do quotidiano.

Entretanto, Aurora frequentou o jardim de infância já nos Fenais da Ajuda e está agora no primeiro ano de escolaridade. A adaptação à nova realidade foi acontecendo e a família começou a criar raízes. Sem apoio familiar próximo, Mário e Marina enfrentam o dia a dia apenas os três, mas não escondem que a mudança foi necessária para concretizar o sonho de ter casa própria.

A vida familiar foi também um dos temas que emergiram no encontro de catequese com o bispo, realizado esta tarde nos Fenais da Ajuda. Aurora, com a espontaneidade própria da idade, falou da relação com os pais e revelou um desejo: ter uma irmã com quem possa brincar e divertir-se.

Quando lhe perguntaram o que sabia sobre Jesus, a resposta foi simples: “O Jesus é meu amigo”. Uma frase breve, mas reveladora da forma como a fé começa a fazer parte da vida das crianças.

A história desta família ajuda a perceber um dos desafios colocados à comunidade cristã: fazer da catequese um caminho partilhado entre crianças, pais e comunidade, que não se esgote no encontro semanal.

Nos Fenais da Ajuda, a catequese envolve 98 catequizandos, acompanhados por cinco catequistas, distribuídos pelos vários anos, do primeiro ao décimo. A realidade da freguesia integra-se numa dinâmica pastoral que abrange também a Lomba de São Pedro e a Salga, onde a formação cristã procura acompanhar as diferentes etapas do crescimento das crianças e dos adolescentes.

O encontro desta tarde contou com a presença dos pais e começou com a apresentação de cerca de duas dezenas de crianças. Num ambiente de proximidade e diálogo, os mais novos tiveram oportunidade de colocar perguntas ao bispo de Angra,  partilhar dúvidas e falar da sua relação com Deus.

Entre os momentos vividos esteve a experiência do encontro com o Papa Leão XIV, que enviou uma bênção especial para os Açores. A mensagem transmitida procurou recordar-lhes que são amadas e que têm um lugar na Igreja.

As perguntas foram diversas e, por vezes, surpreendentes. Uma das crianças quis saber se o bispo de Angra também reza quando está triste ou alegre. A resposta foi clara: a oração não deve ficar reservada aos momentos difíceis.

D. Armando Esteves Domingues explicou que também ele sente cansaço e encontra situações que lhe custam enfrentar. Rezar, disse, “ajuda a encontrar forças para continuar e a fazer aquilo que parece difícil”. A oração foi apresentada como “alimento para a vida, uma relação que deve ser cultivada em todos os momentos, e não apenas quando surgem problemas”.

A partir daí, introduziu também a presença de Jesus no sacrário, convidando os mais novos a descobrir a importância de parar, fazer silêncio e reconhecer a presença de Deus.

“Num mundo marcado pela pressa, pelos estímulos constantes e pelo ruído”, outra questão colocou o foco na dificuldade de ouvir a voz de Deus.

O silêncio pode ajudar à oração, mas, como foi sublinhado no encontro, “é necessário aprender a resistir às distrações e a criar espaço interior para escutar”.

“A fé exige tempo, disponibilidade e uma relação que se alimenta diariamente”, prosseguiu D. Armando Esteves Domingues.

Houve ainda lugar para perguntas sobre a própria Igreja e as suas funções.

“Porque é que o senhor é bispo?”, quis saber uma criança. Com simplicidade, o bispo de Angra respondeu, entre risos: “Eu não sei. Talvez Nosso Senhor saiba”

Mais do que dar respostas fechadas, o encontro procurou mostrar que a catequese também se faz através das perguntas, da escuta e da possibilidade de falar abertamente sobre aquilo que as crianças sentem e pensam.

No final, o bispo de Angra agradeceu aos catequistas o trabalho desenvolvido e reconheceu a importância do seu compromisso na formação cristã das crianças. Aos pais, agradeceu a confiança depositada na comunidade, mas deixou um apelo: que participem mais ativamente na catequese e na Eucaristia.

A transmissão da fé, sublinhou, não pode ser uma tarefa entregue exclusivamente aos catequistas. Precisa de ser acompanhada pela família, através do exemplo, da oração e da participação na vida da comunidade.Foi neste contexto que lançou o desafio de reunir cinco ou seis casais para refletir sobre formas concretas de transmitir a fé às novas gerações e de construir uma catequese que caminhe verdadeiramente com os pais.

A ideia é aproximar a catequese da vida familiar, para que aquilo que as crianças aprendem nos encontros encontre continuidade em casa e na comunidade cristã.

Nos Fenais da Ajuda, como na Lomba de São Pedro e na Salga, o desafio passa por transformar a catequese num caminho vivido em conjunto. Porque, se para Mário e Marina a mudança para os Fenais da Ajuda representou a possibilidade de construir uma casa para a família, a comunidade cristã procura agora ajudar a construir algo que vá além das paredes: uma fé partilhada, capaz de acompanhar as crianças ao longo da vida.

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