Comunidade dos Fenais da Ajuda desafiada a procurar o que estão fora do templo seguindo “o mapa da Palavra de Deus”

No quinto dia da visita pastoral à ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, D. Armando Esteves Domingues presidiu a uma eucaristia e reuniu-se com representantes dos movimentos da paróquia

O bispo de Angra desafiou esta tarde os cristãos dos Fenais da Ajuda a refletirem sobre quem podem chamar a participar na vida da Igreja, apelando a uma comunidade mais aberta, viva e missionária, capaz de chegar àqueles que habitualmente não frequentam a Eucaristia. O desafio foi lançado durante a homilia da missa que assinalou o encerramento da visita à paróquia dos Fenais da Ajuda, no âmbito da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz.

“Se eu vos mandasse ir lá fora chamar alguém para o banquete, quem é que chamariam? Quem é que faz cá falta?”, questionou o prelado, convidando os fiéis a não se limitarem às pessoas de sempre, mas a identificarem quem permanece afastado e pode encontrar na comunidade cristã um lugar de acolhimento e comunhão.

Para o bispo de Angra, o anúncio do Evangelho é uma responsabilidade de todos os batizados.

“Chamar quem está fora é um dever de todos”, afirmou, incentivando os cristãos a interrogarem-se sobre o que podem fazer, em cada domingo e no quotidiano, para aproximar outras pessoas da Igreja.

Sem esquecer o respeito pela liberdade de cada um, o prelado lembrou que ninguém se salva pela força e que a adesão ao projeto de Deus exige uma decisão pessoal. A missão da comunidade passa, por isso, não por impor a fé, mas por testemunhá-la através de gestos concretos de amor, proximidade e disponibilidade.

Na reflexão, o bispo de Angra convidou também os fiéis a interpretar o “mapa da Palavra de Deus”, sublinhando que esta se dirige a todos os que estão disponíveis para a acolher. Cada leitura, explicou, é como uma carta de amor, cuja mensagem toca cada pessoa de forma particular.

“A palavra de Deus não julga, mas forma e transforma”, recordou.

A partir da figura dos Reis Magos, apresentados como referência para o caminho pastoral da comunidade que os tem como orago principal, o prelado destacou a capacidade de mudar de vida depois do encontro com Jesus. A estrela que os guiou continua a ser uma imagem do caminho da fé, mas a sua luz só ilumina verdadeiramente quem se dispõe a deixar-se iluminar.

O bispo de Angra chamou ainda a atenção para a importância de cuidar da saúde do corpo e do espírito, lembrando que as feridas da alma também podem comprometer a vida humana. Numa terra onde existem tantas pessoas e instituições,” com tanto potencial”,  considerou essencial que os cristãos se envolvam mais na construção do bem comum e façam transparecer Cristo para além das paredes da igreja

“Se formos comunidades vivas, Cristo ver-se-á lá fora”, afirmou, apontando a saudação, a presença, a atenção ao próximo e a perseverança como expressões concretas de uma fé vivida. A vida cristã, acrescentou, não se resume às festas, mas constrói-se no amor e no compromisso diário, começando pelas famílias, chamadas também a dar testemunho de uma vida alicerçada no Evangelho.

A terminar, deixou o apelo a que a comunidade torne a sua terra mais bonita através do amor que nasce dos corações, reafirmando a Igreja como lugar de comunhão, de onde deve brotar o amor de Jesus para toda a sociedade.

Cais de Remar: uma resposta social ao serviço da comunidade

Antes da celebração eucarística de encerramento, a última paragem da visita pastoral foi no Centro Comunitário Cais de Remar, uma instituição que nasceu da iniciativa das Irmãs Doroteias com a família proprietária da Fábrica de Chá da Gorreana, em 2008, e que se afirmou como uma resposta social importante no acompanhamento de crianças, adolescentes, jovens, mulheres e idosos.

Instalada num edifício residencial adaptado para o efeito,  a instituição assume um papel de proximidade, procurando responder a diferentes situações de vulnerabilidade e promover o desenvolvimento pessoal e social dos seus utentes.

Entre as valências disponíveis encontra-se o centro de convívio, que proporciona às mulheres momentos de partilha e atividades de economia doméstica, bem como um ateliê de costura, que realiza arranjos e constitui uma fonte de sustentabilidade para a instituição, envolvendo cerca de 15 senhoras.

O trabalho com crianças e adolescentes, dos nove aos 15 anos, é outra das áreas de intervenção do Cais de Remar. O apoio aos trabalhos escolares, as atividades de ocupação dos tempos livres, as iniciativas temáticas e o cantinho de leitura contribuem para um acompanhamento educativo e social que procura responder às necessidades dos mais novos.

A instituição presta igualmente apoio social, nomeadamente através do atendimento e do acompanhamento de pessoas que necessitam de ajuda no acesso a respostas sociais e serviços. Dispõe ainda de uma loja social, onde é disponibilizada roupa, reforçando a dimensão solidária da sua intervenção.

A sustentabilidade do projeto é também assegurada por iniciativas de angariação de receitas, entre as quais a confeção de malassadas e arroz-doce para a Fábrica de chá da Gorreana. O Cais de Remar desenvolve, por outro lado, projetos em parceria com a Câmara Municipal da Ribeira Grande e a Fundação BPI, cede espaços para consultas de serviços de saúde e promove ações de formação e prevenção de comportamentos aditivos.

Com uma equipa de quatro profissionais, incluindo técnicos das áreas social e de animação, o centro representa uma presença relevante na comunidade, articulando o apoio social, a educação, o convívio e a solidariedade.

No final do dia, o bispo de Angra e a equipa sacerdotal da ouvidoria estiveram reunidos com vários elementos representantes de movimentos, serviços e assuntos económicos da paróquia, que possui dois centros de culto: a igreja dos Santos Reis Magos e a igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no antigo convento de São Francisco.

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