Bispo de Angra desafia a Salga a vencer o individualismo: “Precisamos uns dos outros”

No quarto dia da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, D. Armando Esteves Domingues  apelou à importância da família, da solidariedade e do compromisso comunitário para enfrentar o individualismo e fortalecer os laços sociais

Foto: Igreja Açores/CR

“Ninguém é dono do mundo, nem autossuficiente. Precisamos uns dos outros e precisamos de aprender a ser uns com os outros”, afirmou D. Armando Esteves Domingues durante o encontro com o Grupo Folclórico de São José da Salga, esta sexta-feira, no quarto dia da visita pastoral à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz, encontrando na dança uma imagem sobre a importância de caminhar em conjunto.

O prelado comparou a aprendizagem dos passos, o respeito pelo ritmo de cada participante e a harmonia do grupo à construção de uma comunidade, sublinhando que a cooperação permite alcançar aquilo que ninguém conseguiria fazer isoladamente. Em atividade novamente há 12 anos, o grupo folclórico contribui para preservar as tradições locais, aproximar gerações e divulgar a identidade da Salga.

“O amor e a beleza é que salvam o mundo”, afirmou, destacando a importância da arte e do encontro numa sociedade marcada pelo isolamento.

São José como modelo de família e trabalho

A reflexão pastoral teve também como referência São José, padroeiro da paróquia, apresentado pelo bispo como modelo de cuidado, proteção da família e dedicação ao trabalho.

D. Armando Esteves Domingues sublinhou a importância de colocar Jesus no centro da vida familiar, como fez São José,  e defendeu um maior envolvimento dos pais na transmissão da fé, num contexto em que as famílias enfrentam dificuldades e a educação cristã exige novas formas de acompanhamento. Entre as possibilidades apontadas está uma catequese mais articulada com a participação dos pais.

O bispo de Angra valorizou ainda o trabalho quotidiano, incluindo as tarefas mais humildes, como forma de contribuir para o bem comum e de santificar a vida. Sobre o futuro da comunidade, deixou um apelo a olhar para as novas gerações com esperança, sem ficar preso ao passado: “a história da Salga deve ser uma raiz que sustenta o futuro, e não uma âncora que impede a mudança.”

“Sois uma paróquia cheia de sorte porque tendes como padroeiro São José, que é o melhor guardião da casa: é o homem do cuidado, da proteção, da família e do trabalho(…). Vivemos num mundo perigossíssimo, onde  mais facilmente se anuncia e se faz guerra. Por isso, a família precisa de refletir a forma como está no mundo e o influencia”, referiu D. Armando Esteves Domingues.

 

Catequese exige maior participação das famílias

A transmissão da fé e o envolvimento dos pais na vida da Igreja estiveram igualmente entre as preocupações abordadas durante a visita.

O centro de catequese da Salga acompanha cerca de 40 crianças, com o apoio de cinco catequistas, mas enfrenta diferenças na participação entre os vários anos e dificuldades em assegurar a continuidade dos percursos.

O desafio passa por aproximar as famílias da comunidade cristã e encontrar formas de prolongar a educação na fé para além dos encontros de catequese, incluindo através de respostas articuladas entre paróquias.

Sol Nascente transforma iniciativa local em resposta social

Entre os exemplos de dinamismo comunitário destaca-se a Associação Sol Nascente, fundada em 1998 pelo padre Emanuel Valadão Vaz, com o objetivo de criar condições para a ocupação e formação das mulheres.

A iniciativa, que começou numa garagem ligada ao artesanato, tornou-se uma instituição de referência na economia solidária, com atividade nas áreas social, cultural e educativa. Atualmente, produz biscoitos e refeições, acompanha crianças e jovens e participa na vida cultural da freguesia.

A associação fornece cerca de 150 refeições às escolas do primeiro ciclo do Nordeste e conta com 12 colaboradoras no quadro, além de outras cinco pessoas integradas através de programas de apoio ao emprego. O seu ATL acompanha 22 crianças, diariamente,  até às 18 horas.

A instituição estuda agora a criação de um centro de convívio para idosos, com o objetivo de promover o contacto entre gerações. Está também a ponderar a renovação da sua identidade gráfica e a reorganização do espaço comercial.

Apoio a pessoas com deficiência reforça a importância da pertença

O programa incluiu uma visita ao Centro Comunitário de Apoio ao Desenvolvimento Social da Salga, uma resposta residencial para pessoas com deficiência, construída em 2011 e aberta em 2016, sob a responsabilidade da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste.

A visita trouxe à atenção a realidade das pessoas que não dispõem de apoio familiar suficiente ou de uma rede próxima de suporte. Nestes casos, as instituições tornam-se espaços de pertença, onde os cuidados, as relações de confiança e os afetos são essenciais para garantir dignidade e evitar o isolamento.

Foi também recordada a experiência da Amizade 2000, na Fazenda, onde os oito adultos institucionalizados nesta valência, participam em atividades diárias, evidenciando a importância do acompanhamento e da criação de laços sociais.

Habitação e transportes condicionam o desenvolvimento

A visita permitiu também conhecer os principais desafios sociais e económicos da freguesia, territorialmente integrada no concelho do Nordeste e pertencente, em termos eclesiásticos, à Ouvidoria dos Fenais de Vera Cruz.

Apesar do dinamismo associativo e da capacidade de iniciativa da população, a habitação e os transportes continuam a dificultar o desenvolvimento local, a fixação de habitantes e o aproveitamento das ofertas de emprego.

Um dos problemas identificados prende-se com cerca de 70 casas construídas em terrenos que não pertencem aos proprietários das habitações, uma situação que dificulta a regularização da propriedade. A existência de imóveis abandonados ou fechados agrava as dificuldades de acesso à habitação.

No emprego, a freguesia vive um contraste: apesar de existir uma oferta de trabalho significativa, a insuficiência de transportes limita a mobilidade e o acesso às oportunidades profissionais.

Com pouco mais de 600 habitantes, esta paróquia da ouvidoria dos Fenais da Vera Cruz, diz dela própria que é a mais bela freguesia dos Açores.

No final da visita, o pároco, padre Leonardo Baganha, destacou o acolhimento recebido, afirmando que a comunidade recebeu o seu bispo “com o coração”. A experiência, resumiu, recorda que “não estamos sozinhos: somos Igreja, caminhamos juntos, unidos em Cristo, com o nosso pastor”.

A visita à ouvidoria dos Fenais da Vera Cruz prossegue este sábado na paróquia dos Fenais da Ajuda, uma comunidade muito marcada por problemas de ordem social, nomeadamente comportamentos aditivos.

 

 

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