Bispo de Angra: “A verdadeira dedicação começa quando a imagem de Deus é reconhecida em cada pessoa”

Celebração dos 218 anos da dedicação da Sé de Angra, este domingo, destacou a comunhão, a missão e o compromisso da Igreja com os mais frágeis

Foto: Igreja Açores/RH

A Sé de Angra assinalou, esta tarde, os 218 anos da sua dedicação, numa celebração que reuniu o bispo de Angra e o cabido catedralício, marcada pelo apelo a uma Igreja mais missionária, unida em Cristo e capaz de reconhecer a imagem de Deus em cada pessoa, sobretudo nos mais vulneráveis.

“A verdadeira dedicação começa quando a imagem de Deus é reconhecida em cada pessoa, o pobre, o dependente, o migrante, o idoso ou o doente ou o jovem sem esperança”, afirmou D. Armando Esteves Domingues na homilia, sublinhando que a celebração da dedicação da catedral não se esgota na memória histórica do edifício, mas encontra o seu sentido mais profundo na forma como a comunidade cristã vive e testemunha o Evangelho.

“Cada um de nós tem gravada no seu coração a imagem de Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança. Pertencemos-lhe”, começou por recordar o bispo de Angra, relacionando esta certeza com o compromisso de devolver a Deus, através da vida quotidiana, o amor recebido.

A partir do Evangelho proclamado este domingo, o prelado destacou que “a nossa vida deve ser usada para lhe devolvermos a ele o que já nos deu”, explicando que dar a Deus o que é de Deus significa fazer da existência “uma oferta permanente”, expressa em ações de graças, atos e palavras. Essa entrega, acrescentou, implica também devolver aos irmãos o amor recebido de Deus e cumprir os deveres de cidadania, contribuindo para a construção da sociedade.

A celebração decorreu sob o horizonte do lema “Um em Cristo, unidos na missão”, que o prelado diocesano apresentou como uma síntese do significado da dedicação da catedral: “Unidos em Cristo somos Igreja, criados e enviados por Cristo somos missão”.

Mais do que um edifício ou a sede do bispo, a Sé deve ser entendida como uma casa de comunhão, aberta a todos e capaz de acolher cada pessoa.

“Não temos uma catedral, somos um povo chamado, em todas as ilhas, a transformar-nos em casa viva de Deus”, afirmou o prelado, salientando que a catedral é “casa para todos”.

Neste sentido, lembrou que não existe verdadeira comunhão quando os dons não são partilhados e as diferenças se transformam em divisões. A dedicação do templo ganha, assim, uma expressão concreta no “acolhimento, na proximidade e no reconhecimento” da dignidade de cada pessoa, independentemente da sua condição ou das dificuldades que enfrenta.

Jesus Cristo, a quem a catedral é dedicada sob a invocação do Santíssimo Salvador, “deve permanecer no centro desta missão”, disse D. Armando Esteves Domingues.

“Ele é o centro da catedral e deverá ser o centro da vida de cada um de nós”, afirmou o bispo de Angra, defendendo que toda a ação da Igreja deve convergir para o anúncio de Cristo Ressuscitado e para o serviço aos outros.

O apelo missionário foi também relacionado com o lema diocesano “Passar à outra margem”. Para o prelado, há margens que continuam a existir dentro das próprias comunidades, nas feridas por sarar, nos pobres que permanecem invisíveis, nos jovens que se afastam e naqueles que já não esperam nada da Igreja.

“O Senhor quer uma diocese inteira em saída missionária”, afirmou, apelando a uma comunidade cristã que encontre no encontro com Cristo a força para sair de si própria e ir ao encontro de quem mais precisa.

A homilia evocou ainda os missionários e as missionárias espalhados pelo mundo, cuja diversidade de experiências constitui um sinal da fidelidade de Deus à humanidade.

“Não há tragédia nem guerra que possa apagar o amor e a fidelidade de Deus para com todos os homens”, afirmou o bispo diocesano, associando a celebração da catedral ao centenário das missões e à responsabilidade de toda a Igreja na evangelização.

Dedicada ao Santíssimo Salvador, a Sé de Angra tem uma história que remonta a 1461, ano em que foi iniciada a construção de um primeiro templo. A igreja ficou concluída em 1486, reunindo condições para se tornar sede paroquial.

Em 1568, o cardeal D. Henrique, na qualidade de regente, determinou a construção da Sé, tendo a primeira pedra sido lançada a 18 de novembro de 1570. As obras prolongaram-se por cerca de cinco décadas.

A dedicação solene da catedral ocorreu a 16 de outubro de 1808, durante o episcopado de D. José Pegado de Azevedo, que governou a Diocese de Angra entre 1802 e 1812.

O edifício viria a sofrer graves danos com o sismo de 1 de janeiro de 1980. Durante os trabalhos de reconstrução, a 5 de julho de 1983, desmoronaram-se uma das torres e o frontispício, seguindo-se, a 25 de setembro do mesmo ano, um incêndio que destruiu o património escultórico integrado. A Sé foi reaberta ao culto a 3 de novembro de 1985.

Classificada como monumento regional e integrada na zona classificada de Angra do Heroísmo, reconhecida como Património Mundial, a catedral permanece um dos principais símbolos da história religiosa e cultural dos Açores.

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