Alunos da Escola Diocesana de Formação focados na aquisição de novas competências

Curso de Sagrada Escritura é o mais numeroso deste projeto formativo da Diocese de Angra

Foto: Igreja Açores /TO

A sala do Centro Pastoral Beato João Batista Machado, em Angra do Heroísmo, encheu-se esta quarta-feira, 7 de outubro, para a primeira aula de Sagrada Escritura da Escola Diocesana de Formação. Com 99 alunos inscritos- grande parte participou telematicamente- , esta é a disciplina mais procurada da nova estrutura formativa da Diocese de Angra, que iniciou o seu primeiro ano letivo a 6 de outubro, com um total de 130 participantes distribuídos pelas diferentes modalidades de formação. A primeira aula foi inaugurada pelo padre José Júlio Rocha sobre Documentos do magistério.

O número de inscritos traduz, para o diretor da Escola Diocesana de Formação, padre Nelson Pereira, não apenas o interesse pela Bíblia, mas também a procura de uma formação mais consistente por parte de pessoas que assumem responsabilidades nas comunidades cristãs.

“Hoje trata-se de um curso grande. É o maior curso da Escola”, sublinha o responsável, considerando a Sagrada Escritura uma “área muito importante e fundamental na formação”. Entre os participantes estão muitos catequistas, leitores e pessoas que desempenham diferentes serviços nas comunidades paroquiais, uma realidade que, para o padre Nelson Pereira, “revela o seu interesse em quererem preparar-se melhor”.

A procura ultrapassa, contudo, o universo dos praticantes. A Escola Diocesana de Formação acolhe também pessoas que se identificam como ateias ou agnósticas e que procuram conhecer melhor o pensamento cristão.

“Temos pessoas que se dizem ateus e agnósticos que, por questões culturais, se inscreveram nalguns cursos”, explica o diretor. A escola procura, assim, chegar a “um mundo mais vasto”, incluindo pessoas que querem conhecer o pensamento cristão que, “quer sejamos crentes ou não, molda a nossa civilização ocidental”.

A diversidade dos alunos é também visível na sala do Curso de Sagrada Escritura. Entre quem decidiu regressar aos estudos está Maria Goretti Silva, catequista na paróquia de Porto Martins. A participação na Escola nasceu da vontade de aprofundar conhecimentos e de crescer pessoalmente.

“Fiquei cativada pelo projeto. Quero aprender e saber mais”, afirma. Inscrita na modalidade de Curso Livre, frequenta duas disciplinas, Sagrada Escritura e História das Religiões. A expectativa é levar da formação não apenas mais conhecimento, mas também ferramentas para a vida.

“Espero ter mais conhecimento e mais experiência para me tornar melhor cristã e, sobretudo, melhor pessoa”, confessa.

“Colocar a Bíblia nas mãos das pessoas”

É precisamente a relação com a Palavra que está no centro da disciplina com maior número de alunos da Escola. O padre Marco Gomes, professor de Sagrada Escritura, parte de uma pergunta fundamental: o que é a Bíblia?

Para além de ser literatura, explica, é “uma literatura sagrada para quem é crente”, um texto inspirado e, para a Igreja, uma literatura normativa, “a medida, a regra, a norma da Igreja”.

A presença de pessoas não crentes entre os alunos não constitui, por isso, uma dificuldade, mas antes uma oportunidade de encontro e conhecimento. O professor recorda a importância atribuída pela Igreja à Escritura e à Eucaristia, evocando a Constituição Dogmática Dei Verbum, que afirma a unidade da Escritura e da Tradição, sendo que a Tradição é o conhecimento vivo de Cristo que gerou as Escrituras, e por sua vez as Escrituras geram o conhecimento vivo de Cristo que cria a Tradição.

“Desconhecer a Bíblia, dizem os Padres da Igreja, é desconhecer Deus”, recorda o presbítero que é pároco no Posto Santo, na ouvidoria de Angra,  e assistente da Cáritas diocesana.

Mas a intenção das aulas não é transformar a Bíblia num objeto distante ou reservado aos especialistas. O desafio passa por aproximar a Palavra da vida quotidiana e da experiência concreta de cada pessoa.

“Colocar a Bíblia nas mãos das pessoas, não como um objeto, mas como um livro que nos ajuda a rezar, a discernir e a caminhar com Deus”, é, para o sacerdote, uma das grandes missões da formação bíblica.

O próprio percurso do professor está ligado a essa procura.

“Sou um simples padre, não tenho formação superior, mas a grande paixão pela Sagrada Escritura leva-me a estudar o livro através do qual posso servir melhor a mesa da Palavra”, afirma.

Uma paixão que procura transmitir através de uma proposta de leitura continuada e sistemática.

“Onde tenho passado procuro sempre que as pessoas façam uma leitura contínua, sistematizada, comunitária da Palavra de Deus. Somos todos famintos da Palavra e, quanto mais nos familiarizarmos com ela, mais estaremos à altura de sermos seus transmissores”, afirma.

Por isso, deixa uma imagem que resume a atitude que espera dos alunos: “Precisamos mastigar, saborear e tirar um bom alimento da Sagrada Escritura.”

Uma escola para aprofundar a fé e a vida

A primeira aula de Sagrada Escritura acontece num contexto mais amplo de renovação da formação na Diocese de Angra. A Escola Diocesana de Formação iniciou oficialmente o ano letivo a 6 de outubro, depois da sessão inaugural realizada em Angra, a 19 de setembro, que contou com uma lição de sapiência do professor Frederico Lourenço, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e tradutor da Bíblia, dedicada a São Paulo, na perspetiva do apóstolo e poeta.

A nova estrutura apresenta uma oferta organizada em três modalidades: o Curso Básico de Teologia, com a duração de três anos; o percurso de formação para os Ministérios Laicais, de dois anos; e os Cursos Livres, que permitem frequentar disciplinas ou áreas específicas sem a inscrição num percurso completo.

No total, são 24 disciplinas, distribuídas por áreas como Filosofia, Teologia, Sagrada Escritura, História, Psicologia, Comunicação, documentos do Magistério, Doutrina Social da Igreja, Pastoral Catequética e Direito Canónico.

Sérgio Peixoto é aluno do Curso Básico de Teologia. O professor de matemática que decidiu aproveitar a oportunidade para ir “mais além” na formação.

A questão que leva para a sala de aula é também uma questão sobre a forma de viver a fé no quotidiano: “Como posso evangelizar?”

A resposta, diz, pode estar em gestos simples: “Com um sorriso, com um momento de escuta, nas conversas com os amigos, no meu testemunho diário.” Para Sérgio Peixoto, conhecer melhor a Palavra é também uma forma de deixar que a formação transforme a própria vida.

“Naturalmente que, conhecendo melhor a Palavra, também me posso moldar mais ao jeito de Jesus”, afirma.

A Escola Diocesana de Formação nasce, assim, com uma dupla dimensão: aprofundar conhecimentos e preparar pessoas para uma presença mais consciente e responsável nas comunidades e na sociedade.

Na apresentação do projeto, o bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, definiu a nova escola como um “laboratório de pensamento, de discernimento e de esperança” e defendeu a necessidade de uma formação capaz de colocar a fé em diálogo com a cultura, a ciência e os desafios do mundo contemporâneo.

“Precisamos hoje de leigos teologicamente competentes”, afirmou então o bispo.

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