Instituições do sector social da Maia apostam na qualificação dos seus quadros para melhor servirem

“Cada cuidador, salientou, é uma mão que leva conforto e proximidade a quem mais precisa” afirmou D. Armando Esteves Domingues. No décimo dia da visita pastoral  os dirigentes da Santa Casa da Misericórdia e da Casa do Povo da Maia defenderam que a formação dos profissionais é essencial para melhorar a qualidade dos serviços prestados à população

A formação é o segredo para servir melhor. Foi esta a ideia que marcou os encontros do décimo dia da visita pastoral do Bispo de Angra aos Fenais de Vera Cruz, que esta quarta-feira passou pela freguesia da Maia, no concelho da Ribeira Grande.

Foram os próprios dirigentes da Santa Casa da Misericórdia da Maia e da Casa do Povo que colocaram a qualificação dos quadros entre as prioridades para o futuro, defendendo a necessidade de preparar ainda mais quem trabalha diariamente com crianças, idosos e pessoas com deficiência. Num setor em que as necessidades se diversificam e as exigências aumentam, a formação é entendida como uma condição indispensável para garantir respostas mais qualificadas, humanas e ajustadas a cada pessoa.

A Maia é, neste domínio, um território particularmente relevante. A partir da freguesia irradia uma das redes de apoio social mais diversificadas do concelho da Ribeira Grande, sustentada por duas instituições que asseguram grande parte das respostas existentes entre o Porto Formoso e a Lomba de São Pedro, numa área que abrange cerca de seis mil pessoas.

Santa Casa: cuidar desde a infância até à velhice

Na Santa Casa da Misericórdia da Maia, a visita permitiu conhecer uma estrutura que acompanha pessoas em diferentes etapas da vida, com respostas que vão da infância à idade adulta e à terceira idade.

A instituição tem cerca de 140 funcionários e gere, entre outras valências, estruturas residenciais para pessoas com deficiência, um lar de idosos e respostas dirigidas à infância.

Na área da deficiência, a Gruta de Belém acolhe cinco crianças, dos três aos 16 anos, enquanto a estrutura Kavivo acompanha 13 adultos. São pessoas que necessitam de apoio permanente e para quem a continuidade dos cuidados, a integração e a qualidade de vida dependem também da preparação dos profissionais que as acompanham.

A ampliação das instalações, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), pretende melhorar as condições de acolhimento e criar condições para aumentar o número de vagas. As obras permitirão ainda aproximar as diferentes respostas residenciais, favorecendo uma organização mais integrada dos serviços.

A Santa Casa dispõe igualmente de uma farmácia, considerada uma estrutura fundamental no apoio à comunidade e no funcionamento da instituição.

O lar de idosos, impulsionado pelo padre Laudalino Frazão, acolhe 18 pessoas e funciona desde 2016, integrado na rede da Segurança Social. A resposta recebe utentes da Maia e de outras localidades da ilha, evidenciando a dimensão supralocal do trabalho desenvolvido pela Misericórdia.

Foi neste espaço que a dimensão profissional do cuidado se cruzou com a dimensão espiritual da visita. Durante a celebração da Eucaristia, com o sacramento da Santa Unção, o Bispo de Angra lembrou que os idosos e os mais frágeis ocupam um lugar especial no coração de Jesus.

A reflexão centrou-se na necessidade de amar, ter paciência e saber escutar. A fé, afirmou, não elimina a dor, mas oferece a esperança de que ninguém enfrenta sozinho as dificuldades da vida.

Dirigindo-se também aos profissionais, deixou uma palavra de reconhecimento a todos os que cuidam diariamente dos outros, muitas vezes através de pequenos gestos que fazem a diferença. Cada cuidador, salientou, é uma mão que leva conforto e proximidade a quem mais precisa.

A celebração incluiu ainda uma oração pelo Santo Padre, no contexto da sua convalescença.

Casa do Povo: mais respostas, mais exigências

Na Casa do Povo da Maia, a necessidade de qualificação dos recursos humanos voltou a estar em destaque. A instituição emprega cerca de 50 pessoas e desenvolve um trabalho que combina apoio social, educação, acompanhamento da população idosa e valorização das tradições locais.

A creche acolhe 48 crianças, desde o berçário, e enfrenta uma lista de espera, particularmente na resposta aos bebés. A instituição dispõe ainda de um centro de dia para 18 idosos

A intervenção estende-se às atividades de tempos livres, incluindo o apoio prestado na Lomba de São Pedro, onde são acompanhadas cerca de 20 crianças do primeiro ciclo.

São respostas que exigem profissionais preparados para lidar com diferentes idades, necessidades e contextos familiares. Para os responsáveis, investir na formação é investir diretamente na qualidade do serviço, na capacidade de resposta e na dignidade de quem recorre às instituições, considera Jaime Rita, presidente da instituição que no próximo ano completa o 50º Aniversário.

A Casa do Povo desenvolve também formação na área dos bordados, contribuindo para preservar técnicas tradicionais e criar oportunidades de valorização de competências. Parte deste trabalho está representada numa exposição no Museu Carlos Machado.

Uma nova sala, cuja inauguração está prevista, deverá reforçar as condições de funcionamento da instituição.

Apesar da diversidade de respostas, os constrangimentos financeiros continuam a pesar. A necessidade de assegurar serviços de qualidade, manter equipas e responder à procura coloca pressão sobre a gestão, num contexto em que os recursos disponíveis nem sempre acompanham o crescimento das exigências.

A dificuldade é ainda mais evidente na área da ação social, onde apenas duas técnicas asseguram o acompanhamento de necessidades em toda a costa norte.

A instituição procura, por isso, conciliar a continuidade dos serviços com a qualificação dos profissionais e a criação de novas respostas. A Cooperativa Terras de Chá, que garante oito postos de trabalho, é outro exemplo da ligação entre intervenção comunitária, emprego e desenvolvimento local.

Durante o encontro, Jaime Rita apelou à união de esforços para ajudar quem precisa e agradeceu o reconhecimento do trabalho desenvolvido. A Casa do Povo prepara-se também para assumir, no próximo ano, a mordomia das festas na segunda-feira de Pentecostes.

 

Uma missão que ultrapassa a Maia

No contacto com as duas instituições, o Bispo de Angra reconheceu o papel estruturante que a Santa Casa da Misericórdia e a Casa do Povo desempenham na comunidade.

“A alegria dos idosos e a presença das crianças nas respostas sociais são, sublinhou, sinais do significado destas instituições na vida das pessoas”. O trabalho desenvolvido, acrescentou, “encontra na sua inspiração cristã uma das bases da missão de acolher e servir”.

Mas a continuidade dessa missão exige capacidade de adaptação. A preocupação com a juventude e a dificuldade em mobilizar novos voluntários estiveram também presentes na reflexão sobre o futuro.

“É necessário encontrar novas formas de envolver os jovens, criar projetos e renovar o compromisso comunitário, para que o trabalho solidário não dependa apenas das gerações que o construíram” reiterou D. Armando Esteves Domingues.

O bispo recordou igualmente a importância histórica do chá e do tabaco na economia local, na sequência de uma visita ao Museu do Tabaco, único na Europa, a onde almoçou. Durante décadas, estas atividades proporcionaram emprego e contribuíram para a prosperidade de muitas famílias, incluindo mulheres que encontravam nessas indústrias uma oportunidade de trabalho.

Hoje, a realidade é diferente e coloca outros desafios, entre os quais o acesso à habitação. A falta de casas foi apontada como um problema capaz de comprometer o futuro da comunidade, dificultando a fixação de pessoas e a renovação das gerações.

Neste contexto, foi deixado um apelo à responsabilidade dos decisores públicos, com a esperança de que encontrem soluções que respondam às necessidades da população.

 

Escola e património também fazem comunidade

A visita incluiu ainda contactos com a realidade educativa e patrimonial da Maia.

A rede escolar abrange cinco núcleos e reúne cerca de 115 professores e 650 alunos, dos quais aproximadamente 290 frequentam o ensino básico. Uma parte significativa dos estudantes beneficia de apoios da ação social escolar, incluindo muitos abrangidos pelo primeiro escalão, revelando as dificuldades económicas enfrentadas por várias famílias.

A escola assume, assim, um papel que vai além do ensino, constituindo um espaço de inclusão, acompanhamento e proximidade. É também reconhecida como uma infraestrutura importante para a comunidade, podendo desempenhar funções de apoio em caso de catástrofe.

O espaço acolhe atividades escutistas, incluindo iniciativas relacionadas com São Jorge, e dispõe de condições para campos de férias, com cozinha e palco natural.

O percurso pastoral passou igualmente pelo Museu do Tabaco, propriedade da Santa Casa da Misericórdia da Maia. Com um acervo ligado à história da atividade tabaqueira, uma biblioteca e milhares de visitantes, o museu preserva uma parte importante da memória económica e social da freguesia.

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