
O cardeal português D. José Tolentino de Mendonça defendeu hoje, em Fátima, que o avanço da inteligência artificial (IA) deve ser acompanhado por um reforço da dimensão humana da educação, sublinhando que a tecnologia não substitui a relação entre professores e alunos.
“A inteligência artificial pode processar enormes quantidades de dados, reconhecer padrões e produzir textos e imagens. A pessoa, porém, não é um sistema que processa informações”, afirmou o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé, numa intervenção em vídeo na abertura do Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal.
Para o cardeal, a escola deve continuar a ser um espaço de escuta, pensamento crítico e desenvolvimento da interioridade.
“A máquina pode transmitir informação, mas o educador pode ser o parteiro de algo”, afirmou, defendendo que a tecnologia deve libertar os professores de tarefas burocráticas para lhes permitir mais tempo com os alunos.
Tolentino de Mendonça alertou também para os riscos da exclusão digital e das desigualdades socioeconómicas, defendendo uma escola católica inclusiva e acessível aos mais pobres.
“Ninguém deveria tornar-se um excluído digital por não ter tido a possibilidade de compreender e utilizar as novas tecnologias”, sustentou.
O cardeal destacou ainda os efeitos de uma vivência excessivamente digital, defendendo a necessidade de cultivar a interioridade.
“Não basta ligar os jovens às redes digitais se depois permanecem desligados de si mesmos, dos outros e da própria interioridade”, afirmou.
Também Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação, alertou para os desafios colocados pela IA, defendendo uma sólida “formação de base” para preparar os jovens para um futuro marcado pela imprevisibilidade tecnológica.
“Há vida para além das máquinas”, afirmou, sublinhando a importância da educação para a sobriedade, o sentido do limite, o respeito pelo outro e a verdade.
Num dos painéis do encontro de dois dias que reúne professores de todo o país, Susana Sousa, da Associação Portuguesa de Escolas Católicas, chamou a atenção para as vulnerabilidades dos alunos e para os efeitos da “hiperconexão”, defendendo a interioridade, a esperança e o cuidado como respostas educativas.
O simpósio ‘Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização’ reúne 420 participantes, entre educadores, investigadores e responsáveis educativos, no Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima. A iniciativa é promovida pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé e assinala os 40 anos da Lei de Bases do Sistema Educativo.
(Com Ecclesia e Educris)