Pelo cónego Hélder Miranda Alexandre

São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam: barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Este poema integra a obra “O sal da língua” (1995), de Eugénio de Andrade (1923–2005). Nele se destaca a maestria em saber aproximar realidades opostas «tecidas de luz» e de «noite». A oportunidade da poesia é a de saber expressar realidades, génio de uns poucos.
No final, o poema transforma-se em pergunta: «Quem as escuta? / Quem as recolhe?» Talvez resida aqui o seu desafio: alguém disposto a escutar, a acolher. A imagem final das «conchas puras» sugere esse espaço. Tal como uma concha, o coração humano pode guardar as palavras que recebe. Algumas permanecem connosco ao longo de toda a vida, sem nos darmos conta de que elas lá estão, pintadas de infinito.
Dizer muito é fácil, escutar é de poucos. Nunca sabemos até onde podem chegar as palavras. Umas podem tornar-se ferida ou abrigo, podem ser punhal ou orvalho, incêndio ou luz. Como padre, sei que as minhas partilhas têm muito de palha humana, mas há sempre algum grão que permanece e isso é obra do Espírito. Admiro a paciência de quem acolhe e faz eco até de dimensões insuspeitas.
Uma Igreja que escuta pode transformar a palavra em encontro. Na vivência da sinodalidade deve ser capaz de recolher as palavras dispersas. Nem todas chegam organizadas ou formuladas numa linguagem religiosa; algumas chegam, precisamente, «desfeitas». Escutá-las faz parte da missão: acolher a fragilidade com atenção e permitir que cada palavra encontre um lugar onde possa ser compreendida.
Uma expressão do Papa, em Metz, parece responder diretamente ao poema: “o discurso religioso deve exortar constantemente ao desarmamento dos corações e das palavras”. O diálogo é, segundo Paul Ricœur, o caminho através do qual reconhecemos a alteridade como uma promessa e não como uma ameaça; situa-se no extremo oposto da agressividade e da violência e constitui uma arte do encontro.
A concha pode ser preenchida com tudo o que quiser a vontade ou o coração. Não falta rumores e gritarias, até nos mais eruditos auditórios. Por isso, educar a linguagem é caminho de maturidade. Tudo começa na capacidade de escuta.