Matriz da Ribeira Grande.

          Estamos em plena caminhada quaresmal que nos convida a lançar o nosso olhar para a Páscoa de Jesus Cristo e a conformar a nossa vida de discípulos com a vida nova que Ele nos oferece com a Sua Ressurreição. A marca principal deste itinerário é a celebração da Eucaristia, a Ceia Pascal vivida pela comunidade cristã que quer celebrar e comprometer-se com a Páscoa de Jesus Cristo pela qual nos oferece a plenitude dos Seus dons e nos alimenta com a Sua vida.

          Mas a Matriz da Ribeira Grande celebra hoje em festa os 500 anos da edificação desta Igreja que ao longo de cinco séculos foi sinal do dinamismo de uma comunidade cristã, aqui se educou na fé, se celebraram os mistérios da fé e se manifestou a misericórdia e a ternura de Deus através da partilha fraterna.

          Comecemos por nos colocarmos perante os desafios da Palavra de Deus que marcam um passo importante do itinerário quaresmal. Comtemplamos a transfiguração de Jesus Cristo. Tal como os três Apóstolos, também Jesus de Nazaré continua a convidar-nos a subirmos com Ele ao monte para deste modo nos antecipar a grandeza e a beleza da Sua divindade.

Assim, Jesus Cristo educa a nossa fé de forma a reconhecermos que a morte não é a última palavra mas tão só um passo para alcançar a glória definitiva. Recordamos as palavras de S. Paulo quando diz que «estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rom. 8, 18 – 19).

Mas esta passagem bíblica oferece-nos ainda mais uma experiência de profunda felicidade por poder participar na vida de Deus revelada em Jesus Cristo. Ele é verdadeiramente o auge e o centro de toda a história. N’Ele se cumprem as promessas feitas aos nossos antepassados. Sim, na verdade, o texto evangélico realça a necessidade de fazer uma verdadeira experiência de comunhão com Jesus Cristo para se viver a sério e com alegria a missão que Jesus Cristo nos oferece pelo Seu chamamento.

O tempo de quaresma apresenta-se como uma possibilidade de conversão, de transformação e por isso de transfiguração. Com o olhar colocado na Páscoa do Senhor, cada cristão e cada comunidade cristã são chamados a configurar a sua vida com a de Jesus Cristo.

A primeira leitura, através do chamamento divino dirigido a Abraão, revela-nos que a fé cristã está marcada pelo despojamento e pela desinstalação. Este «deixa a tua terra e parte…» que muda por completo a vida de Abraão e faz dele o Pai de todos os crentes, informa de modo singular e indelével a fé cristã.

Somos constantemente interpelados a deixar os nossos apegos, as nossas prisões e as nossas amarras e a libertar-nos. O que temos a alcançar já não se localiza numa terra diferente mas numa vida nova, com critérios distintos do mundo, com valores mais humanos e com a comunhão com Deus e com os irmãos que dará sentido à vida que se orientará pelos valores do Reino de Deus.

Deixa o que neste tempo te prende e não te deixa viver a vida de Deus, fundamento da nossa existência, e parte ao encontro de uma vida nova vivida na comunidade onde se experimenta o Reino vivido, convivido e anunciado por Jesus Cristo.

Somos chamados à santidade, diz-nos S. Paulo, na segunda leitura. «Ele salvou-nos e chamou-nos a sermos santos». Isto realizar-se-á em nós não através da nossa acção mas partindo da Graça de Jesus Cristo presente nas nossas vidas.

Voltemo-nos, agora, para os desafios que nos são lançados pela celebração jubilar desta Igreja Matriz.

O primeiro é de acção de Graças pela construção de uma comunidade cristã que ao longo destes cinco séculos se foi edificando, escutando a Palavra do Evangelho, celebrando os mistérios da Fé e propondo-se responder ao apelo de Jesus a levar o Evangelho ao mundo.

Mas dando graças a Deus pelos que nos precederam, urge o compromisso de todos e de cada um de nós na vida renovada da comunidade cristã que auscultando os sinais dos tempos e orientada pelo Evangelho descobre os caminhos de evangelização para o mundo de hoje.

Na verdade, ser cristão exige a consciência de pertencer a uma comunidade que se distingue pela vivência da comunhão eclesial e testemunha perante o mundo a Vida Nova de Jesus Cristo; comunidade que vive e se edifica na celebração da Eucaristia. Importa consciencializar todos os baptizados que faz parte integrante do ser cristão a pertença a uma comunidade cristã, na qual se partilha a vida em Cristo, e se reconhece a sua edificação a partir da participação na Eucaristia.

O Papa Francisco define a Igreja como «a comunidade de discípulos missionários». Uma bela e oportuna síntese muito simples e compreensível mas com árduo esforço para se alcançar a verdadeira identidade cristã.

Alicerçados numa tão bela história de 500 anos de vida desta paróquia e reconhecendo como ao longo do tempo Jesus Cristo chamou tantos homens e mulheres a configurarem a própria vida com a Sua vida, somos nós hoje chamados a reconhecer que a vida cristã parte e integra em si mesma o chamamento de Jesus Cristo dirigido a cada um e a exigir uma resposta intima ao Seu apelo. Sem este dinamismo vivido por cada baptizado a fé cristã deixa de ter o encanto e a beleza que ela mesma possui.

Mas igualmente, faz parte do ser cristão a resposta missionária. Ser cristão é ser missionário. Cada um, segundo a condição da própria vida e nos locais que lhe são próprios, é chamado a ser testemunha de Jesus Cristo na Igreja e no mundo.

Coloquemos o nosso olhar no futuro, com confiança e com esperança e lancemo-nos na edificação de uma verdadeira comunidade cristã que reflicta em si mesma a Vida de Cristo e a Sua salvação.

Imploramos de Nossa Senhora da Estrela, Mãe e Rainha dos Açores, que abençoe esta paróquia da Matriz da Ribeira Grande, as suas famílias, crianças, idosos, jovens, adultos, emigrados, os que sofrem e os que vivem exclusão social, económica e religiosa e nos encaminhe pelas sendas da evangelização do mundo de hoje.

Amen

 

+João Lavrador, Bispo de Angra e das Ilhas dos Açores